Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Futebol nacional

Ricardo Nascimento saiu do V. Sernache alegando racismo do presidente: “É claramente xenófobo. Ouvi frases como 'estou farto dos pretos'”

O ex-jogador, por exemplo, de Braga, Rio Ave, Desp. Aves ou Trofense, estava na segunda época como treinador do Vitória de Sernache, do Campeonato de Portugal, mas, em entrevista ao "Record", revelou que decidiu sair devido a alegados comportamentos racistas e xenófobos do presidente do clube. Terá dito a um jogador de 19 anos que "por mais banhos que tomasse nunca iria ser branco, mas sempre preto"

Tribuna Expresso

ANTONIO COTRIM

Partilhar

Era um número dez à antiga, chamavam-lhe o ‘Platini do Mar’, cabelos compridos e camisolas largas a seguirem-lhe os movimentos do corpo. Passou por 11 clubes portugueses, distribuiu classe um pouco por todo o lado e até lá fora, ao ano que contou no Montpellier de França acrescentou três feitos em Seoul, capital da Coreia do Sul, antes de retornar a Portugal para fechar a carreira de jogador em 2015 e descolar a de treinador no mesmo ano. A primeira equipa da qual se ocupou foi o União de Lamas e de lá saltou para o Vitória de Sernache, da Sertã, onde ia na segunda época.

Mas, esta quinta-feira, Ricardo Nascimento deu conta de que optou por se demitir, devido a motivos não desportivos: "Saio pelo racismo e xenofobia do presidente [do clube]".

O antigo jogador, de 47 anos, concedeu uma entrevista ao “Record” na qual criticou António Joaquim por “ter repetidamente comentários xenófobos e racistas para com os jogadores e a equipa técnica”, que descreve como “inaceitáveis” e “completamente desajustados da realidade do futebol e da vida”. Ricardo Nascimento detalhou, por várias vezes, alegados episódios protagonizados pelo presidente do Vitória de Sernache, atual 8.º classificado do Campeonato de Portugal.

O hoje treinador conta que o líder do clube terá dito a “um jovem jogador, de 19 anos”, que “por mais banhos que tomasse nunca iria ser branco, mas sempre preto”, referindo também que “os jogadores africanos que estavam à experiência” no clube “eram logo expulsos da casa onde estavam hospedados, não se preocupando minimamente em saber como é que eles iriam embora e para onde”.

Ao mesmo jornal, Ricardo Nascimento citou outros comentários que terá ouvido de António Joaquim: “Para ele, a nossa equipa era composta por ‘só pretos’, que acusava de serem ‘pretos de m****’, queixando-se de que ‘nunca teve tantos pretos”. O ex-jogador de, por exemplo, Braga, Rio Ave, Desp. Aves ou Trofense, sublinhou que “o racismo não faz sentido” e cataloga imputa ao presidente do clube as frases “que magoam, ferem, abalam o grupo” e, “se calhar, também por causa disso a bola bate no poste e vai para fora em vez de entrar”.

“Estamos no século XXI”, argumento Ricardo Nascimento, para vincar o “inadmissível” que diz serem os comportamentos do presidente do Vitória de Sernache. “Situações de vida e de condição humana que extravasam o futebol”, lamentou, aos quais acrescentou outros episódios relatados na entrevista ao “Record”, como António Joaquim alegadamente negar-se a pagar por tratamentos de jogadores, “não ser dada água quente para tomarem banho, não lhes dar o pequeno-almoço” ou “deixá-los sem dinheiro e com fome”.

A Tribuna Expresso tentou contactar António Joaquim para obter uma reação às palavras de Ricardo Nascimento, mas, até ao momento, não recebeu qualquer resposta.

  • Ricardo Nascimento: “Diziam que, por ter cabelo comprido, usar fita, ouvir música gótica e vestir de preto, era um drogado e paneleiro”
    A casa às costas

    Aos 45 anos o jogador que chegou a ser apelidado de "Platini do mar", mas que na família é chamado de Rixa, prepara-se para assumir, pela primeira vez, o papel de treinador principal do U. Lamas. Ansioso pelo começo da época, conta-nos como o boxe o ajuda a libertar o stress e como sofreu na pele o preconceito por gostar de música vanguardista. Começou no FCP, o clube do coração, andou pelo Leixões, Boavista, Rio Ave, Desportivo das Aves, Montpellier, entre outros, mas foi na Coreia do Sul, que foi mais feliz na longa carreira de futebolista. Pai de três filhos, tem na pintura o seu hóbi e confessa, no meio de várias histórias, que comprou um Porsche 911 só para "curtir" o tiptronic e a sua música