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Futebol nacional

“Tínhamos uma pequena vantagem a nosso favor, o pelado”: quando o Ginásio de Alcobaça interrompeu o arranque triturador do Benfica em 82/83

O Portimonense travou no domingo, na Luz, o melhor arranque do Benfica desde a temporada 1982/83, altura em que a equipa de Sven-Göran Eriksson ganhou as 11 primeiras jornadas do campeonato e foi empatar ao Municipal de Alcobaça. Em entrevista à Tribuna Expresso, José Romão, o capitão de equipa, recorda aquele dia em que houve festa na cidade como na subida de divisão

Hugo Tavares da Silva

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Lembra-se daquela semana antes do jogo com o Benfica?
Foi uma semana um pouco atribulada. Lembro-me que o senhor Orlando Moreira, que era o treinador, saiu. Houve aquilo a que se chama uma chicotada psicológica. Depois, quem é que ia ser o treinador? Punha-se essa questão e era a situação que corria de boca em boca. Por bem, deixou-se que o adjunto naquela altura, o Edmundo Duarte, continuasse à frente da equipa. E assim foi, uma semana atribulada. Mas o Edmundo observou o Benfica, nós conhecíamos o Benfica, que estava a fazer estragos no campeonato [risos] e preparámos algumas coisas. Nós também tínhamos, pensávamos nós, uma pequena vantagem que poderia jogar a nosso favor — talvez só isso jogasse a nosso favor —, que era o [campo] pelado. Falámos muito entre nós, chegámos à conclusão que eram apenas 90 minutos e em 90 minutos tudo podia acontecer. Foi com esse espírito que encarámos o jogo e ficámos todos com a consciência tranquila, porque de facto o futebol, de vez em quando, dá estes presentes às equipas pequenas.

Ainda por cima, chegavam ali sem qualquer vitória.
É verdade, e continuámos. Havia uma décalage... O Benfica vinha imbatível, a jogar um futebol que triturava o adversário. Nós éramos os últimos e continuámos a ser os últimos, não é?, mas tem pouco a ver com 90 minutos. A cor das camisolas, o tempo, se é primeiro, se é último, o futebol tem-nos ensinado sempre que o que importa é aquela realidade concreta, aquele momento de 90 minutos. E assim foi. O Benfica entrou muito forte no jogo, mas não conseguiu, apesar de dominar intensamente, como devia ser a sua estratégia, fazer golos nos primeiros minutos. O jogo foi-se arrastando e só perto do intervalo é que o Benfica fez o 1-0.

Na segunda parte, entrámos mais intensos e depois, nos últimos 15, 20 minutos, equilibramos o jogo, tornámo-nos uma equipa muito mais ameaçadora para o Benfica. E veio a acontecer, veio a acontecer, no último minuto, numa situação em que o Benfica estava desorganizado, parece-me que após um pontapé de canto. Fizemos um contra-ataque através do Cavungi, que era um dos nossos avançados a jogar pela esquerda; depois, o Nelito, outro avançado que tínhamos, acabou por rematar e fazer o 1-1. Imediatamente a seguir a este lance, tivemos hipótese de ganhar o jogo, pelo João Cabral. Isto para dizer o quê? Foi aquilo que prevíamos, era um David contra Golias, sem sombra de dúvidas. Depois foi uma festa danada e um oxigénio enorme para nós, para os jogos que vieram, até em termos de treinador, as coisas ficaram mais tranquilas. O Edmundo Duarte continuou. Não deixámos de partir muito atrasados em relação aos outros, o nosso início de época foi atribulado, um pouco desorganizado para quem ia disputar um campeonato com a responsabilidade que era o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão Portuguesa.

Falou em pelado…?
[risos] Era pelado, era pelado.

Com aquelas feras todas do outro lado.
Oh, pá, você veja bem, deixe-me lá situar bem. O Benfica tinha um meio-campo de sonho: Carlos Manuel, [João] Alves, Diamantino, Chalana e depois [vai-se rindo] penso que jogou com Filipovic e Nené na frente. Veja bem. Claro que não é a mesma [do que jogar na relva] para o Chalana, Diamantino, Carlos Manuel... Nós treinávamos ali, jogávamos ali, todos os dias. O que valeu nesse dia, recordo, foi uma força de vontade e um desejo enorme de superação de fazer um jogo diferente com o Benfica. E acreditar. Veja, se olhar para a equipa, nós apresentámos um 4-4-2 sem grandes preocupações. No centro do terreno joguei eu com o Jorge Oliveira, na esquerda era o Cavungi, na direita era um rapaz que tínhamos, um jogador que era bom, o Lelo, que tinha vindo do Juventude de Évora; na frente era o João Cabral e o Nelito; tínhamos um guarda-redes que se portou muito bem nesse dia, um bom guarda-redes, o Domingos; lá atrás, na esquerda, era o Alfredo, tinha sido meu colega no Vitória de Guimarães, no lado direito era o Modas, que era o jogador polivalente que tínhamos na nossa equipa, tanto jogava a lateral como no centro do terreno, e bem, e bem; os nossos centrais é que às vezes variavam, jogava o Varela, outras vezes o Germano, o Russo...

Nesse jogo foi Germano e Russo.
Pois. Mesmo no intervalo, quando estávamos a perder 1-0, e depois de sentirmos que havia uma inspiração em alguns dos nossos jogadores e que a equipa estava a aguentar a pressão do Benfica, sem criar muitas brechas, sentimos que poderíamos tentar mais. E conseguimos. O futebol tem estas coisas. Hoje podíamos contar outra história, mas essa foi a história do jogo. O Benfica foi, de facto, muito superior, mas essa superioridade e os mais remates, mais ataques, não ganham jogos, o que conta é a qualidade dos remates e a eficácia. E fomos eficazes, tivemos a felicidade de ser eficazes no remate do Nelito.

"Tenacidade versus displicência", a crónica de Neves de Sousa no "Diário de Lisboa"

"Tenacidade versus displicência", a crónica de Neves de Sousa no "Diário de Lisboa"

(1982), "Diário de Lisboa", nº 21022, Ano 62, Segunda, 6 de Dezembro de 1982, Fundação Mário Soares/DRR

Houve festa em Alcobaça?
Ui, foi uma festa à semelhança da que tinha sido na subida. Tínhamos feito um percurso na II Divisão muito bom. Fizemos um campeonato muito forte, era uma equipa muito madura. Depois, essa transição para a I Divisão devia ter continuado porque a equipa era boa e tivemos algumas demonstrações disso, principalmente nas meias-finais da Taça com o Sporting, que perdemos em Alvalade por 2-1, mas com grande susto para o Sporting. Essa equipa, depois, desmembrou-se e foi pena, porque o Ginásio, se tivesse continuado com essa equipa, com a maioria desses jogadores, poderia ter feito, digo eu, um campeonato diferente. Mas foi uma festa, teve paralelo com esse dia do Benfica.

O estádio estava muito bem-composto. Apesar de estarmos em dezembro, foi um dia e uma festa bonitos, porque os pequenos também têm essas emoções e alegrias, e esse dia, apesar de ser um empate, foi um empate com sabor a vitória. Não podemos esquecer que o Benfica estava imbatível, vinha com uma dinâmica extraordinária, como agora. Agora foi a oitava jornada, mas naquela altura jogávamos a 12.ª jornada. Parece-me que depois, no jogo para as competições europeias, o Benfica ganhou por uma margem dilatada ao adversário da altura [4-0 Zurique], por isso, quase que diria, fomos uma pedrada no charco ali. Vá lá, dos fracos não reza a história, mas nesse dia fizemos um pouco de história [risos].

O José era o capitão, e só tinha chegado na época anterior.
Há um episódio interessante. Na altura, até me foi proposto que eu poderia ficar com a equipa [como treinador], mas não. Apareciam notícias em que éramos nós os dois, o Edmundo e eu, que estávamos com a equipa, mas não. A equipa foi orientada pelo Edmundo Duarte. Eu esclareci que era apenas o capitão de equipa [risos]. Sabe, nesse tempo, agora haverá outros critérios, fui capitão porque votávamos, foi uma escolha dos companheiros e dos amigos desse tempo.

A época não acabou bem com a descida de divisão. Foi uma grande desilusão?
Quando a época começou, tivemos a perceção de que íamos sofrer, mas que iríamos sofrer muito mais pela forma como estava feito o planeamento. Começámos a época ao pé-coxinho. Na altura, também tínhamos problemas salariais. Foi um ano muito difícil, muito difícil para toda a gente, para dirigentes, para nós... Depois, melhorámos a qualidade do jogo evidentemente, começámos a ganhar, fizemos um lançamento de um jovem jogador que se tornou num bom avançado, o Reinaldo, que acabou por ir para a Académica. As coisas melhoraram e a jogar com outra desenvoltura, mas partimos muito atrás. Foi uma tristeza enorme, mas as coisas são assim. Não nos acautelámos devidamente antes de começar o campeonato.

Quando viu o Portimonense, lembrou-se de vocês?
Lembrei-me, lembrei-me... e depois ficamos com a certeza de que o futebol é um jogo fascinante porque podemos dizer que a equipa A, B ou C é favorita, mas depois em 90 minutos tudo pode acontecer. Até poderíamos ter sido goleados nesse dia, como o Benfica fez a outros, mas também nós invertemos essa história. Os fatores aleatórios do jogo jogaram connosco, e no domingo foi isso mesmo: um Benfica que está a jogar bem, sério, que domina bem os ritmos do jogo, um Benfica que está forte, mas não deixa de ser verdade que hoje as equipas são todas fortes no futebol português. E a prova está aí, nos jogadores que temos pelo mundo, nos treinadores que temos pelo mundo. Não há tantas diferenças como quando eu comecei a minha carreira de treinador ou quando eu jogava, eram diferenças abismais. Hoje não, jogam e fazem estas coisas como o Portimonense fez.