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Futebol nacional

O Belenenses está vivo: “O Rúben apareceu nas captações com o braço em gesso. Não era todos os dias que apanhávamos um filetezinho daqueles”

A Tribuna Expresso esteve no Estádio do Restelo e ouviu dois homens que conhecem muito bem aquela casa. De Chiquinho Conde às captações do “animal competitivo brutal” que é Rúben Amorim, desabafou-se sobre os tempos maravilhosos dos finais dos anos 80 e sobre a equipa de Jorge Jesus que foi ao Jamor. E, também, sobre a inevitável descida à 6.ª divisão, da qual o clube se está a erguer. Esta sexta-feira há Belenenses-Sporting (20h45, TVI) para a Taça de Portugal

Hugo Tavares da Silva

João Raimundo, 45 anos, diretor do futebol de formação do Belenenses

NUNO BOTELHO

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Quando Seba assinou pelo Belenenses, em 1999, à sua espera, no Restelo, estava um adolescente entusiasmado. É que aquele avançado espanhol, que chegava do Desportivo de Chaves, fizera maravilhas no Wigan, uns anos antes, na quarta divisão inglesa… no computador daquele jovem e no Championship Manager, um jogo para quem queria saber como era ser treinador. Luciano Rodrigues, hoje provedor do sócio e ex-diretor de comunicação do clube, conta o episódio entre risos. O seu ídolo de criança foi Chiquinho Conde.

Os miúdos da formação vão passando e cumprimentam quem está por ali. Sentados na bancada, admirando a beleza que belisca aquele estádio, miramos finalmente o relvado que está a ser regado e cortado com um compromisso impecável, que não muda apesar de o clube estar agora no Campeonato de Portugal, o quarto escalão do futebol português. “O relvado do Restelo está sempre excelente”, garante, vaidoso, o enamorado de Jesús Seba Hernández. E o que faz, afinal, um provedor do sócio? “Faz a mediação entre os sócios e a direção e serviços administrativos. Os sócios mais velhotes sentem que conseguem passar a palavra. Noutros tempos tinha outra importância, o clube tinha outra dinâmica, era uma maneira de fazer as coisas chegarem à direção. Hoje, o clube tem uma dinâmica muito mais parada. Se alguém quer dizer alguma coisa, vem aqui, espera pelo presidente e fala”, consente.

Com pais e avô do Belenenses, vivendo ali por perto, este amor de Luciano era inevitável. Para além disso, em 1989, ainda garoto, viu o seu clube de sempre conquistar a Taça de Portugal, depois de eliminar FC Porto, Sporting e, finalmente, Benfica na final do Jamor. Marinho Peres era o treinador dos homens que honraram a memória de senhores do passado como Matateu, Vicente Lucas, Serafim das Neves, Feliciano e Artur Quaresma, que venceram outras duas edições daquele troféu, em 1942 e 1960.

Uns valentes anos mais tarde, algures em 2004, estalou a fúria dos blogues. “O Belenenses teve uma blogosfera muito forte, havia uma série de blogues. A determinada altura começou a parecer que tinham mais poder do que tinham na verdade, mas mexiam muito com a vida do clube. Fazíamos quase trabalho jornalístico. O clube acabou por me chamar para trabalhar no jornal e no site”, conta.

Mas o conto de fadas, que viveu o ponto mais alto na final do Jamor em 2007, terminou em 2009, quando a lista que apoiou perdeu as eleições. Quando voltava a percorrer o chão do Restelo, diz com alguma angústia, era ameaçado e insultado, por isso decidiu deixar de vir aos jogos. Assim ficou dois ou três anos. “Sofria que nem um desalmado em frente à televisão. Foi o início do período terrível que deu na entrega da SAD. Só voltei quando o meu filho mais velho me perguntou porque éramos do Belenenses e não íamos ao estádio”, recorda.

Luciano Rodrigues, 40 anos, é o provedor dos sócios do Belenenses

Luciano Rodrigues, 40 anos, é o provedor dos sócios do Belenenses

NUNO BOTELHO

Luciano Rodrigues, de 40 anos, conta ainda que foi a morte de Cabral Ferreira, o então presidente da SAD, que fez cair o castelo cartas. “Tinha visão para o futebol e para o clube como um todo. Isso ajudava. Ele morreu e vieram as guerras todas. Foi isso que destruiu o clube, as guerras que se seguiram”, explica, lembrando também um empréstimo "louco" de 5 milhões de euros que o clube nunca conseguiu pagar. “Ao entregares a SAD, perdes a mola do clube e o controlo sobre ela. Foi complicado.”

Perto, num lugar mais alto do estádio, o que torna a paisagem ainda mais agradável, está João Raimundo, o diretor do futebol de formação do Belenenses. Ele estava por ali quando um jovem Rúben Amorim apareceu para tentar a sorte nas captações. Não tinha sido dispensado do Benfica, mas aquele clube acabara com as equipas B, então o convicto garoto temia não jogar tanto. “O gajo apareceu aí com o braço partido, em gesso”, começa a contar, com um aparente descaso admirável. E relata o diálogo protocolar com os treinadores:

— Mister, posso experimentar?
— Vens donde?
— Benfica.
— Queres treinar de braço partido?
— Só um bocadinho.

Durante a conversa, voltamos a este detalhe mais duas ou três vezes, desconfiando da audição. Treinou mesmo de gesso? E deixaram porquê? “Deixámos porque éramos também inconscientes, não é? Ele queria muito, não era todos os dias que apanhávamos um filetezinho daqueles”, desabafa, gargalhando gloriosamente depois.

A seguir, um pouco inesperadamente pelo ritmo ralentizado até então, começaram a chover elogios. Saem da boca de Raimundo, de 45 anos: “Tinha uma qualidade incrível. Tinha esta parte competitiva que é incrível. Ele não passa muito isso para a imprensa, mas é um animal competitivo brutal, apesar disso não perdia a postura, dirigia a frustração para o trabalho. E escolhe sempre o caminho mais difícil, esse foi um dos caminhos difíceis que escolheu na vida. Ele podia ter ficado no Benfica, não ia jogar tanto, mas veio. Depois nunca saiu, fez até sénior e voltou ao Benfica pela porta grande”.

De acordo com Raimundo, Rúben Amorim já jogava como um homenzinho quando chegou à formação do clube, compreendia o jogo e tinha humildade. Era "adulto e consciente" nas relações que estabelecia com os colegas e técnicos. Luciano Rodrigues já o dissera há pouco: nas duas ou três entrevistas que fez ao agora ex-futebolista e treinador, o então jovem Rúben mostrava saber o que se passava no clube, “o contexto sociológico” do Belenenses. “De parvo não tinha nada”, sentenciou o provedor do sócio. João Raimundo recupera essa ideia: “O gajo tem muito mau perder [risos], garanto-vos. Era brincalhão. É muito inteligente, é um fator muito importante no sucesso dele. Conhece os meandros todos, conhece por dentro e por fora. Como é um homem inteligente, adaptou a realidade à sua imagem e construiu ali uma liderança muito interessante”.

João Raimundo, 45 anos, diretor do futebol de formação do Belenenses

João Raimundo, 45 anos, diretor do futebol de formação do Belenenses

NUNO BOTELHO

Afinal, resume João Raimundo, “ele foi formado aqui numa boa escola, numa escola de resilientes que escolhem os caminhos difíceis. Ilustra bem aquilo que aqui passamos. No final do dia vai compensar”. E disse isto com uma voz rouca que parece encaixar sempre melhor nas profecias.

"É um Belenenses à procura do seu caminho"

Ouvem-se loas ao clube a cada ideia, a cada desabafo. Não deixa de ser refrescante escutar alguém falar assim de um clube que não encaixa na lógica dos gigantes. Ou, melhor, é uma espécie de gigante, que sabe até o que é ganhar o Campeonato Nacional (1945/46) e, como já vimos, três Taças de Portugal. Ou uma Intertoto ou até um Campeonato de Lisboa de veteranos, ou tantos outros troféus dignos de menção. O passado é enorme, do tamanho do estádio. Raimundo, aliás, não resiste à piada tradicional: “É o maior estádio do mundo, nunca enche”.

Mas este clube, outrora viveiro de grandíssimos craques e feitos importantes, está agora na 4.ª Divisão, depois de ter subido em dois anos consecutivos. Começou do zero. O Campeonato de Portugal é um osso duro de roer e, após duas derrotas em três jornadas, começam os primeiros sinais de insatisfação contra a equipa técnica, liderada por Nuno Oliveira. Raimundo, entre alguns desabafos, vai pedindo calma.

“Este é um Belenenses à procura do seu caminho, que vai ser difícil”, reflete o diretor de futebol de formação. “É quase distópico, não é?, ver o Belenenses assim, mas tem de caminhar para estar no lugar onde nasceu para estar, que é a lutar e a jogar entre os grandes. Mas é um caminho difícil. As pessoas têm de compreender, às vezes há muita frustração por parte dos adeptos, alguma contestação perante a estrutura, técnicos e atletas, mas têm de compreender que estão todos no mesmo processo, no mesmo caminho e que vai haver retrocessos e progressos. Às vezes, custa-me que não haja essa perceção”, vai lamentando João Raimundo.

NUNO BOTELHO

E continua: “As pessoas estão tão ansiosas de que este caminho seja rápido que por vezes pode desestabilizar-se em momentos importantes. É preciso calma, paciência. Há outros clubes a fazer este percurso. Tem de ser feito de uma forma cautelosa, perceber-se o contexto em que estamos, apoiar consoante o contexto. Não podemos estar a sonhar. Todos sabemos que o Belenenses é um clube grande, no seu historial, toda a gente percebe que o Belenenses foi feito para jogar entre os melhores, mas agora tem um caminho para fazer. Não competimos sozinhos”.

Luciano Rodrigues, que algures na conversa suspirou pela equipa que foi ao Jamor em 2007 (Silas, Zé Pedro, Amorim, Rolando, Dady; 0-1 Sporting) e lembrou o treinador Jorge Jesus — “fazia uma diferença brutal, não era normal o treinador do Belenenses trabalhar com aquele nível de profissionalismo e aquele nível de detalhe” —, reconhece que a perspetiva do adepto sénior é complicada. “Mas tomámos a decisão, enquanto clube, que aos olhos dos outros parece uma loucura e o fim, mas, para nós, foi o renascer. A malta mais velha percebe, genericamente. Não havia solução. Foi assumir que fizemos um erro, a única saída era aquela. Entregas um clube na I Liga, vais jogar para a 6.ª Divisão e tens mais pessoas a assistir ao jogo do que tinhas na I Liga… isso quer dizer qualquer coisa. Vais à Amadora jogar com o Estrela, que também supostamente era um clube morto, e tens 9.000 pessoas na bancada, é uma loucura. Isso quer dizer alguma coisa”, diz, satisfeito. Ou seja, trata-se quase de um manifesto anti-futebol moderno, pelos valores de antigamente, menos dinheiro e mais comunidade. No fundo, é disso que nos fala há quase meia hora.

Esta sexta-feira há um improvável e saudoso dérbi de antigamente entre Belenenses e Sporting. De um lado, os campeões nacionais vão procurar cumprir e dar ritmo a alguns futebolistas, do outro estará um sonho do tamanho do mundo tatuado na alma de homens normais com quem nos cruzamos diariamente. De azul estará uma equipa de sonhadores que na frente conta com um avançado à antiga, um bomber canhoto. Chamam-lhe Botas.

A partir das 20h45, com o Restelo ansioso por latir, não há divisões distantes, nem ideias impossíveis, nem História, nem histórias, nem gessos, nem lamentos. É a bola que fala.