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Futebol nacional

FC Porto: um dia não são Díaz

A relação com o Santa Clara esta época que, nem há duas semanas, nasceu torta ao provocar a eliminação da Taça da Liga, cedo foi endireitada pelo FC Porto, que não cometeu os mesmos erros e nunca permitiu aos açorianos sequer aparentarem discutir o jogo. A vitória por 0-3, com dois golos do colombiano Luis Díaz, que continua com o diabo desequilibrador no corpo, garantiram a permanência dos dragões na liderança do campeonato

Diogo Pombo

EDUARDO COSTA/LUSA

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Nem duas semanas passarem desde o dissabor inaudito, como quem se aventura a viajar por terras nunca visitadas, prova os sabores locais e tem o paladar espicaçado por travos picantes, e logo regressar ao lugar onde, pela primeira vez com Sérgio Conceição, a equipa ficou a saber que não provará a final four da Taça da Liga, seria sempre um ato de contrição para o FC Porto. Um exercício de averiguar o que deu para o torto, corrigir o que levou aos entortamentos e atinar com o que deverá fazer para se endireitar.

Esse contorcionismo que o Santa Clara, em parte, forçou, devera-se um par de coisas nos quais cedo se viu os portistas a atentarem neste segundo prato da refeição servida nos Açores. A reação desgarrada dos jogadores do FC Porto às bolas que a equipa perdera, no tal jogo em que foram derrotados, passou a assaltos muito mais imediatos a cada adversário, logo na zona em que a jogada terminava. Posicionavam-se a um metro, não muito mais, e eram mais imediatos a roubarem espaço assim que a bola deixava de ser propriedade deles.

Sendo verdade que o jogo até arrancou com duas saídas à abrir do Santa Clara culminadas com cruzamentos rasteiros para a área, dos que ficam a uma nesga de tocarem em algum pé, os açorianos contaram a primeira das partes a sofrerem com esta reação imediata do FC Porto às perdas de bola.

Assim Evanílson desarmou a condução do central Cassano, para lançar Luis Díaz e o passe dado pelo colombiano virar um remate de Sérgio Oliveira sem acerto na baliza, aos 21’ e também assim outra bola acabaria numa dança ludibriante do extremo já na área, até desencantar espaço para picar o cruzamento que Otávio rematou de primeira, aos 37’, igualmente sem atinar a pontaria com a baliza. Organizando-se, a defender, com as linhas próximas da própria área, cada bola que o Santa Clara recuperava escaldava-lhe nos pés como uma batata quente.

Quando um raide tentado por João Mário, na direita, foi estancado por dois adversários, Otávio esquentou ainda mais a bola que chegou a Lincoln no primeiro passe feito Santa Clara — a pressão intensa do médio colidiu com a mole proteção com que o brasileiro tentou manter a posse. E essa recuperação, nem a 35 metros da baliza açoriano, deixou Sérgio Oliveira com uma bola para rematar de pé esquerdo e dela fazer extrair o 0-1, aos 42’. O FC Porto já se conseguia endireitar.

A outra coisa que lhe torneara a vida na partida da Taça da Liga foram os espaços que o Santa Clara cerrara no centro do campo, com as linhas fechadas junto à área. Raramente os dragões por lá entravam quando começaram as jogadas de trás, com calma. Esse esbarrar tentativas pelo meio voltou a ser garantido por Morita e Nené, mas, desta vez, o FC Porto também foi mais eficaz a tentar chegar à área por outros caminhos.

EDUARDO COSTA/LUSA

Ainda a segunda parte se sentava à mesa e pegava nos talheres quando um passe por alto, de fora para dentro, de Otávio, foi ter com uma desmarcação em diagonal e no sentido contrário, de Luis Díaz, para o colombiano com o diabo desequilibrador no corpo esta época logo cabecear a bola na área e fazer o 0-2, logo aos 47’. O FC Porto confortava-se ainda mais no jogo as cabeças respetivas de Evanílson e Pepe, aos 52’ e 53’, quase dariam à vantagem alguns tiques de goleada.

O guarda-redes Ricardo Fernandes recheou-se de contornos heróicos para negar, sobretudo, a tentativa do quase quarentão. Pouco depois, caiu a suspeita de que as suas luvas poderia ser mais necessárias quando, ao cartão amarelo que viu por discutir com um dos árbitros, Alano acrescentar um segundo (63’) ao chegar tarde perto de Grujic e pisar o médio sérvio. A expulsão do extremo do Santa Clara tirou aos açorianos a capacidade para correrem atrás do resultado, condenando-os a só correrem atrás da bola.

Tal aconteceu até ao fim, com os de vermelho a serem ainda mais empurrados para a sua metade do campo mesmo com o ritmo do jogo a abrandar. O FC Porto, mesmo com duas semanas vindouras de descanso para as pernas face à paragem para os jogos de seleções, vem acumulando partidas a cada três, quatro dias e por isso também aproveitou para Francisco Conceição, Vitinha, Bruno Costa, Fábio Vieira e Pepê terem tempo em campo.

Quando essa roda-vida de trocas começou, já Luis Díaz zarpara noutra diagonal em sprint, da esquerda para dentro, agora para caçar um passe rasteiro, ultrapassar o guarda-redes e passar o seu 12.º golo na época (9.º no campeonato) e vaticinar sem dúvidas que uma vitória viria mesmo aí. Outra espécie de passe para a baliza, matreiro na intenção, de Francisco Conceição — fazendo a bola intrometer-se entre as pernas do defesa que tinha à frente — foi a única outra oportunidade de golo que o FC Porto ainda fabricaria.

A equipa de Sérgio Conceição acabou a endireitar, no possível, a relação com o Santa Clara que lhe entortou um dos objetivos da temporada, cercou o adversário no seu acerto pressionante e continua a ver como Luis Díaz vai escalando uma montanha de evolução sem cume visível. Depois de Brahimi e Corona, o FC Porto tem no colombiano outro extremo reluzente e principal foco do que de criativo e individual possa ser inventado para danificar os adversários.