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“Vim para Portugal porque o clima de agressão no Brasil aumentou. É por isso que um personagem como Bolsonaro tem esse destaque”

Isabela deixou o Brasil quando sentiu que as pessoas estavam “violentas umas com as outras”, clima no qual foi eleito “um personagem como Bolsonaro”. Escolheu mudar-se para Portugal pelas ondas, comida e "gente boa" quando já era quatro vezes campeã do mundo de bodyboard. No Brasil "cobram-lhe muito" para que ganhe um quinto título e iguale o recorde de Neymara Carvalho, por cá - onde há cinco mulheres no top-25 do ranking mundial - ficou "amiga das meninas todas", faz parte do Estoril Praia e "dá o máximo" para que "não haja áurea de superioridade" pelo que já ganhou

Diogo Pombo e Tiago Miranda

TIAGO MIRANDA

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Porque estás em Portugal?
Bom, por vários motivos. Um dos grandes foi, de certa forma, a situação política e económica em que estava o Brasil. Mas, antes de ter essa sensação de não estar contente lá, tinha vontade de vir para Portugal. Já tinha competido muitas vezes no Sintra Pro, fiz muitos amigos e sempre gostei das comidas portuguesas, da galera, da malta aqui de Portugal. Já tinha uma afinidade grande. Portanto, foi o primeiro lugar que senti que podia ser a minha casa fora do Brasil. E também era muito por causa das ondas. Se não é o melhor, Portugal é, sem dúvida, um dos melhores países do mundo de ondas, é um paraíso para quem gosta.

A eleição do Bolsonaro foi o clique que precisavas para tomar essa decisão?
Justamente. Foi até um pouco antes. O facto de o Bolsonaro ter sido eleito foi um movimento que já estava a acontecer. Não estava feliz, não me sentia bem, não me sentia segura. Não me sentia mais em casa. Já não estava confortável e comecei a ver as possibilidades de mudança. Já tinha pensado em Portugal, mas, na altura, também pensei na Indonésia [ri-se]. É muito diferente, mas tenho a certeza que fiz a escolha certa.

Como é que sentias que o clima no Brasil estava a mudar?
Na rua. Sentia que as pessoas estavam violentas umas com as outras. Não só em situações de criminalidade, que estava a aumentar, mas também pessoas que, supostamente, era cidadãos do bem, estavam a tornar-se agressivas.

Agressivas perante a diferença?
Isso. Por exemplo, estava no carro, de vidros fechados, aparecia alguém a oferecer alguma coisa num sinal de trânsito e encaravam aquilo como um sinal de agressão. Era já um ambiente de medo mútuo e, por estarem com medo, as pessoas acabam por ser agressivas umas para as outras, até para quem estava a trabalhar. O Brasil sempre foi um lugar de muita desigualdade, mas a sensação que sempre tive era que essas desigualdades conseguiam viver juntas, não bem em harmonia, mas conseguiam viver. Agora vejo agressão. Também foi por isso que um personagem como o Bolsonaro teve destaque.

Quando voltas ao Brasil de férias, as coisas mantêm-se iguais ou notas que estão a piorar?
Acho que está a piorar e o que acho absurdo é que está ruim, mas as pessoas estão a ficar acomodadas à situação. Tem muita gente que votou no Bolsonaro, ficaram com um pouco de vergonha com o que fizeram, mas têm aquela atitude de 'já está, então pronto'. Não querem dar mais poder ao Bolsonaro, mas ele já está numa situação em que acha que pode fazer o que quiser por ser presidente.

É sobre isto que te perguntam mais aqui?
A pergunta mais recorrente é porque é que eu mudei. É lógico que tem a ver com as ondas, porque se Portugal não fosse bom, teria ido para outro sítio [ri-se]. Eu queria vir para Portugal já há algum tempo, mas para ficar tipo seis meses, talvez um ano, só para uma aventura. Mas vim com um espírito de casa. Por exemplo, agora estive no Chile e quando peguei o avião para casa, quis vir para Portugal. Portugal é a minha casa. Essa sensação está a ficar cada vez mais forte. Quando você muda de país pode ficar com a sensação de não-lugar, de não pertencer a nenhum lado. Já não sentia o Brasil como a minha casa e, logicamente, ajuda quando se tem uma relação com um namorado ou uma namorada, por exemplo. São coisas que ajudam a que essa sensação cresça, com o tempo. E sinto que estou nessa relação com Portugal - a conhecer, a ver onde encaixo, onde pertenço. Estou feliz por morar aqui.

Imaginas-te a ficar 10 anos por cá?
É uma pergunta muito difícil [ri-se de novo]. Onde é que você vai estar daqui a 10 anos? Faço planos para quatro ou cinco anos, até para 10 ou 20, e em todos os planos que faço vejo-me aqui. É um bom sinal, de que estou feliz e que sinto que estou no lugar em que devo estar. É um bom feeling.

Outro dos fatores para teres escolhido Portugal é a tradição no bodyboard? Em comparação com a Indonésia tem mais.
Também! Acho que tem muitas coisas que são perfeitas para mim: a cultura do bodyboard, as ondas, a relação Brasil-Portugal, que vai para lá da língua e dos costumes. O Brasil tem uma pitada de Portugal e há muitas coisas com as quais me identifico bastante. Adoro a culinária. Da última vez que estive no Brasil já estava com vontade de comer coisinhas daqui. Gosto muito de um conjunto de coisas, não de uma só, é isso que me faz sentir que fiz a escolha certa.

Houve algo que te tenha surpreendido muito durante os primeiros tempos?
Antes de vir, tinha a certeza que ia gostar de Portugal, dizia isso a mim própria. Quando já cá estava, acabei por gostar mais do que imaginava, o que foi uma surpresa. O facto de ter um estatuto conquistado no bodyboard, por causa dos meus títulos, facilita um pouco no trato, mas sempre achei os portugueses gente boa [volta a rir-se]. Fui bem recebida.

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Portugal tem várias mulheres a competir no circuito mundial. Antes de vires já te davas com elas?
Sempre me dei bem com todas, mas tinha uma relação mais forte com a Joana [Schencker]. Também com a Teresa Almeida. A Joana está longe, vive no Algarve, e o facto de ter vindo para cá fez-me aproximar muito da Teresa. Fui muitas vezes à Nazaré e foi uma grande amiga que ganhei.

Li que gostas de ter as tuas adversárias por perto. Porquê?
Estar aqui e estar perto da Joana e da Teresa, que são grandes atletas, é saudável para o bodyboard feminino em si. Tivemos agora uma reunião para discutir coisas que queríamos ver no circuito mundial. A relação que tenho e que vejo todas as atletas top do circuito a terem é muito boa, muito saudável. Uma vez, numa entrevista, deve ter sido essa que você leu, brinquei que vim para Portugal no ano em que a Joana foi campeã do mundo. Vim no final do ano. Então, brinquei: 'Se a Joana ganhou, é a altura certa para vir' [ri-se]. Portugal também tem o Pierre-Louis Costes, que também mora em Portugal e, na minha opinião, é o atleta mais forte do circuito masculino. O que mostra que o país tem muito boas ondas e, se uma pessoa quiser evoluir, é uma boa opção para treinar e passar um tempo. Dou muita importância à atenção dada às minhas adversárias mais no sentido do que elas estão a fazer na competição, sim, mas também para compartilhar experiências. Gosto desse espírito. Embora sejamos personalidades muito diferentes, temos a mesma paixão, que nos aproxima, o que é legal, mas depois há as coisas que nos distinguem e que vale a pena conhecer. Por exemplo, a Joana é vegetariana, é muito gente boa, e quando vou para casa dela só como vegetariano. Não foi só devido à minha relação com ela, mas já evito comer carne e tenho a certeza que ela teve influência. Gosto da forma como ela pensa sobre o mundo e acredito que, talvez, eu também contribua para ela pensar em alguma coisa de uma perspetiva diferente. Espero que também tenha acontecido com a Sari Ohhara, que é japonesa. Gosto dessa relação de partilhar coisas diferentes dentro deste meio que nos liga.

Antes de serem adversárias são amigas e não o contrário?
Sim. E quando começa o campeonato é legal, temos a maturidade de reconhecer que cada uma está no seu espaço e o trabalho de todas é chegar ao primeiro lugar do pódio, que é só para uma pessoa. Todas reconhecemos que o que acontece na competição não é nada pessoal. Não quero o pior para ninguém. Temos uma relação muito saudável.

Como comparas o nível do bodyboard feminino em Portugal ao do Brasil?
O Brasil tem um histórico muito forte de campeãs mundiais. É, de longe, o país que tem mais títulos, o que é derivado de um circuito nacional forte, os regionais também, e acho que Portugal tem vindo a fazer esse trabalho. No tempo em que tenho estado cá, reparei que há competições desde os escalões mais jovens e isso já está a dar frutos. Vejo meninas a irem já para o circuito mundial, duas ou três a aparecerem, como a Madalena Valério ou a Mariana Rosa. Vê-se que o bodyboard português está a ter uma renovação e isso vem do trabalho de base. Daqui a uns anos, pode ser que Portugal desponte ali nos primeiros lugares do Mundial.

Sentiste, quando chegaste, que as mais novas olhavam para ti com reverência, ou demasiado respeito, por seres quatro vezes campeã do mundo?
Tenho uma personalidade muito dada. Acho que quem tem esse respeito por mim é fácil acabar logo na primeira conversa. É um tipo de respeito saudável, tal como eu tenho por todas. Tento que não haja uma áurea de superioridade, dou o máximo para que isso não aconteça. Fiquei amiga das meninas todas. Já fiz parte do Boogie Chicks, um projeto de bodyboard feminino aqui em Carcavelos [de Catarina Sousa, antiga campeã nacional]. Ou seja, essa coisa meia glamour de eu ter sido campeã acho que já acabou. Já não me respeitam [volta a rir-se]. É lógico que existe um respeito pelos títulos que ganhei e pela experiência que tenho. É um respeito saudável também - não há um respeito pelo estrelato, mas sim pela técnica.

Sinceramente, qual é a sensação de já ter sido considerada a melhor do mundo?
É uma pergunta que às vezes me fazem. Nem me dou conta, sabe? Não penso nisso.

Mas é uma coisa que acontece a muito poucas pessoas, seja em que área for.
Não penso muito nisso porque implica que olhes mais para trás, para o que já conquistaste. Penso mais para a frente, não fico muito agarrada ao passado. Quero ganhar mais um título mundial - não é o quinto, é mais um - e isso, às vezes, prejudica-me um pouco. É que é bom é pensar que sou quatro vezes campeã mundial quando estou a competir e 'porra, eu sei fazer isso!'.

Existe o risco de se tornar numa obsessão?
Sim. Acho que penso mais nisso quando vou treinar, penso num exercício e tenho que o pôr em prática. Às vezes dá-me aquele medinho. Mas lembro-me que sou quatro vezes campeã do mundo, que isto é a minha vida. É aí que me ajuda mais e não propriamente durante a competição. A minha cabeça está sempre virada para o futuro, não fico muito atrelada no que conquistei. Talvez quando me retirar pense mais nisso, mas, para já, estou naquele percurso de atleta que é uma roda e está sempre a rolar para a frente.

As pessoas no Brasil cobram-te muito? Há muita pressão para ganhares um quinto título?
Sim, muita, porque se conquistar mais um, apanho a Neymara [Carvalho] como a detentora do maior número de títulos mundiais. Mas estou numa posição em que já conquistei tudo o que queria em termos de títulos. É lógico que quero mais um, sou competidora, vou para um campeonato e quero ganhá-lo, mas não vou chorar se não o vencer. Se estou a competir, o sinónimo de fazer bem feito é o resultado. Em competição estou sempre a pensar no resultado, mas não no quinto, sexto ou sétimo título. Claro que existe essa pressão da parte da media e dos patrocinadores, é natural, porque será um feito.

Nos últimos tempos tens-te dedicado muito ao teu canal de YouTube. Como é que surgiu isto?
Foi ainda no Brasil, há muitos anos. Estudei Comunicação Social, na vertente de Publicidade, mas era obcecada por Audiovisual. Então, quando comecei a estudar, cheguei ao segundo semestre e pensei, 'poxa', devia ter escolhido Audiovisual [risos]. E também gostava de Jornalismo! Até cogitei na minha cabeça fazer as três graduações. Havia coisas que considerava mega importantes em todas as carreiras. Antes de entrar na faculdade já gostava de vídeo e de fotografia, e, quando entrei, vi que conseguia aliar a minha carreira profissional a algum projeto da faculdade. Muitas coisas eram voltadas para o vídeo, tive um projeto chamado Diário de uma Bodyboarder, idealizado por mim, com ajuda de um profissional de vídeo. Foi uma espécie de semente. Depois surgiu o canal de YouTube, mais ou menos no mesmo período em que vim para Portugal. O canal exige muita energia, não é só gravar e publicar. Há a captação, a edição, a finalização e a publicação. Não é só filmar coisas que acho engraçadas, é também o contacto entre o que o público quer e o que eu quero. É preciso ter uma relação com a pessoa que vê, o que dá trabalho. Também não faço vídeos soltos, tento que sejam projetos maiores. Claro que dava para me dedicar mais, mas estou a tentar criar um canal educativo e conjugá-lo com a minha carreira. Ainda falta dar constância ao canal, mas está a ter um crescimento maior do que esperava.

Há pouco falaste num projeto de aulas pagas de bodyboard online. Não tens receio que o canal de 'roube' muito tempo tempo livre?
Bom, acho que até é uma forma de ter mais tempo. Tendo um retorno, vou conseguir ter mais pessoas a trabalharem comigo, o que me dará tempo para pensar no treino e em outros projetos. Por exemplo, agora consegui um financiamento, um apoio, para ter alguém a filmar-me. Faço muito filmes com a GoPro e isso vai continuar, mas agora tenho uma verba para contratar alguém para me filmar enquanto estou no mar. Essa aposta nas aulas é para gerar uma verba que me permita estar mais preocupada em gerar conteúdo do que, propriamente, estar a gravar e editar. Até para me ajudarem também nas redes sociais, porque quero responder mais às pessoas, mas não consigo.

Já estamos a falar de dinheiro. É difícil viver só do bodyboard?
No Brasil vivia. Era mais fácil porque estou brasileira. Mudando de país, seria natural que teria de construir uma coisa nova. Desde sempre que vim competir as etapas do Mundial a Portugal, a minha imagem já estava um pouco disseminada pelo público do bodyboard, mas não um público mais abrangente, para quem um patrocinador queira investir. Esse estou a construir, com o tempo, vai ser natural, mas ainda tenho dificuldades pelo facto de me ter mudado há relativamente pouco tempo. Ainda estou a construir a minha imagem aqui em Portugal. Mas, no Brasil, vivia do desporto a 100%.

Aqui já fazes parte do Estoril Praia, o que deve ter ajudado muito.
Deu-me muito auxílio em relação aos documentos que precisei para estar em Portugal. Mas as relações com os patrocinadores vão sendo construídas e isso também é um fator de motivação. É um desafio. No Brasil já era mais do mesmo. O facto de me ter mudado para Portugal deu-me uma nova energia em relação ao treino e à procura por patrocínios, é tudo novo. E acho que também é bonito ter essas mudanças na vida.

Houve patrocinadores a não acharem graça à tua vinda para Portugal?

Perdi o meu patrocinador principal. Foi uma escolha, quis arcar com as consequências. Está a valer a pena porque escolhi estar aqui. É um esforço que estou a fazer, mas já me está a dar recompensas como pessoa e atleta. Pensando a longo-prazo, fiz a escolha certa.

Mencionaste o lado técnico. Quando vieste, havia coisas no teu bodyboard que achavas que tinhas mesmo que melhorar?
No Brasil, morava em Fortaleza, que não tem muitas ondas. É um lugar conhecido pelo kitesurf e tudo. Tem ondas, gosto sempre de lá treinar, mas a qualidade de onda é relativamente baixa se pensarmos na escala do circuito mundial. E não tem muita diversidade de ondas. Treinava um tipo de onda e ponto. Claro que ia viajando, mas estava lá na maior parte do tempo.

[o telemóvel de Isabela toca, ela tem que atender e despede-se com "um beijinho".]

Já falo beijinho, está a ver? [ri-se]. Bom, mas, na verdade, houve três coisas que mudei bastante no meu estilo ao vir para Portugal. Hoje fico muito mais confortável em mares mais fortes. Quando estava no Brasil treinava muito físico para suprir essa falta de prática em ondas pesadas. Era trabalho de ginásio, muito treino funcional, tinha uma rotina diária. Era diferente o meu tipo de treino. Aqui, faço pilates três vezes por semana com um preparador físico. O que reparei aqui é que estou mais tranquilo em ondas mais pesadas, estou muito mais confortável. Fisicamente, sinto-me muito mais forte, porque o fato exige-te muito mais em água fria. E, em termos técnicos, acho que o meu estilo está mais bonito, que era uma coisa que queria melhorar há anos. Sou um pouco obcecada por detalhes e acho que o estilo é aquela cereja no topo do bolo. E conseguiu aprimorar o controlo da prancha em ondas mais pesadas, hoje já tenho uma relação mais confortável. Tive um ganho surreal com estes dois anos em Portugal.

Tens alguma manobra que continues a sentir que é muito difícil aterrar?
Existem manobras que estão mais difíceis. Aqui em Portugal sinto que algumas caíram por terra. No Brasil, quando vamos surfar existem poucas opções de ondas para manobrar. Por exemplo, um invert a sério precisa de uma rampa na onda e os dias que tinha com esse tipo de onda eram muito poucos, e com água quente. Quando vim para cá sofri durante os primeiros meses, mas, a longo-prazo, desenvolvi outros tipos de técnica para determinada manobra, foi como se fosse uma jornalista que voltava para a faculdade para aprender alguma coisa. É uma sensação muito boa, voltar a aprender. É como voltar a ser criança. Como também dei aulas aqui, comecei a reviver o que vivi em criança, essa sensação de estar a toda a hora e pensar em mar. Fechar os olhos e ver o mar antes de dormir. Estou a ter uma relação muito mágica com Portugal, que está relacionada com a formação de uma nova casa, de um novo lar.

Quando é que começaste a surfar?
Com 11 anos.

Não é já um pouco tarde?
Não, acho que é uma idade ok. Tenho um amigo que compete no circuito mundial e começou com 17 anos. Isso já é tarde. Até aos 14, 15 ainda está numa fase boa, mas não duvido de nada. Acredito que uma pessoa que comece aos 20 anos possa ser campeã aos 30. Depende da dedicação e do esforço. Quando você gosta mesmo, bota energia e a relação torna-se engraçada - não é uma questão de quanto tempo você faz uma coisa, mas como usa esse tempo para fazer essa coisa. Às vezes, reparo que quando surfo durante uma hora, aproveito mais do que quando fico três horas na água. Sei que vou surfar uma hora e que vai ser a 100%. Quando sei que tenho o dia inteiro, aí eu entro e tal... [ri-se]

O teu percurso sempre foi no bodyboard ou, em miúda, houve a tentação do surf?
O meu irmão é surfista. É 11 anos mais velho e sempre o tive meio como um pai. Quando comecei a surfar até era ele que me levava para a praia e tudo. Mas nunca me puxou para o surf, ele deixou-me fazer o que queria. Apaixonei-me pelo bodyboard e hoje até brinco com o surf, que é uma maneira diferente de fazer a mesma coisa. Acho giro fazer surf por ver a onda e senti-la de outra forma. Comparo muito o surf, seja com que prancha for, com a dança. Há profissionais da dança de salão, onde cabem vários tipos de dança: é giro dançar outros tipos de dança, outros estímulos, mas uma pessoa gosta mais de um certo tipo de dança. Descer uma onda é uma dançar com ela, há vários ritmos, eu tenho o meu, mas gosto de surf e de bodysurf, por exemplo. É assim que vejo as coisas.

Como vês a relação entre o surf e o bodyboard em Portugal?
Tem praias muito mais para bodyboard e outras mais para surf. Acho que há praias onde as pessoas já se dedicaram muito a um, ou a outro. Mas penso que existe uma harmonia muito grande entre as duas modalidades. É normal um surfista profissional achar giro uma manobra de bodyboard e o contrário também. Sou fã da Stephanie Gilmore, acho lindo vê-la a surfar, as linhas que desenha.

Mas há muito mais amadores no mar do que profissionais.
Pronto [ri-se]. O que percebi é que, em algumas praias onde o nível é baixo, às vezes existe uma rivalidade, que considero imatura, não devia existir, porque são tipos diferentes de dançar. Mas, quando na praia o nível técnico é maior, o respeito e a admiração são grandes.

E o localismo?
Até acho que Portugal é um país tranquilo. Talvez o português não se tenha dado conta da costa que tem. A relação que as pessoas de fora têm com Portugal baseia-se na Nazaré, nas ondas grandes, e não, há uma leva gigante de ondas boas! É engraçado, porque na Nazaré há as ondas grandes e o inside, onde estão as ondas para bodyboard. Sempre foi assim. Não acho que o localismo seja uma coisa boa, acho que é parvo. Já me deparei com isso em algumas ondas de Portugal, mas, no panorama geral, acho que é super tranquilo. Os portugueses são boa gente na água.

No inverno ainda há a vantagem de não haver uma multidão de gente na água.
Pois, é a relação do nível de que estava a falar. Quando vi mais localismo nas ondas foi no verão, mais quando entravam na água pessoas sem educação de ondas. Por não saberem estar no mar, não saberem que deve existir um respeito pelo tempo de cada um, para não quebrar a onda dos outros. Por não saberem destas coisas. Também uso um bocado o canal do YouTube para dar dicas de como estar na água. Não é porque as pessoas são más, é porque falta um pouco de conhecimento de como estar na água. É como estar no trânsito, há regras. Se todo o mundo as cumprir, não tem porquê de haver mau estar na água.

Agora que estás num clube, faria sentido que o Sporting, o Benfica ou o FC Porto tivessem escalões de formação em desportos de ondas?
Acho que sim. Todos os desportos que envolvam ondas ainda são uma coisa muito nova. E a educação, em termos de aulas de técnica, ainda não existe, falta muito uma metodologia. A relação do atleta com o treinador, a escola e com o espaço para aprender ainda é nova. Na nossa geração, comecei sozinha. Depois entrei numa escola, mas era mais pelo convívio do que, propriamente, para entrar no ensino. Mas isso vai dar às regras do bem-estar na água. Talvez os clubes já comecem a olhar para os desportos de ondas, alguns tenho a certeza que vão adotá-los porque são muito bonitos e radicais, mexem muito com os jovens, promovem e encaixam no contacto com a natureza, que é um caminho que o mundo está a seguir. Acredito que será natural que os grandes clubes - em Portugal e lá fora - comecem a olhar mais para estas modalidades.

O facto de ainda não se ensinar muito o bodyboard nos clubes e nas escolas pode ter a ver com as pessoas os verem mais como um lazer, do que um desporto?
Confunde-se bastante por ser muito divertido. Até a competição vai contra a natureza do bodyboard que eu amo. A competição representa 25%, ou menos, do que o bodyboard é para mim. Por isso insisto na amizade que tenho com as meninas que competem comigo - porque a essência não é competir. O bodyboard ou o surf estão mais atrelados a uma arte do que a um desporto, mas a arte também tem uma técnica. Você precisa de aprender. E, ao mesmo tempo, o bodyboard é um desporto porque tem competição. É meio confuso! [ri-se]. A minha paixão pelo bodyboard cresceu a ver filmes, com música rock, mais artísticos. Não foi a ver competições. Tinham os atletas de quem gostava mais, não tinha necessariamente os que eram os melhores a competir. Mas, ao mesmo tempo, o que tem difundido mais o bodyboard nos últimos anos é a competição.

É o que o torna mais popular.
A gente tem a mania de colocar as coisas dentro de uma caixa e, quando olhamos para alguma coisa, queremos identificá-lo como lazer ou desporto. Mas, na minha opinião, o bodyboard é as duas coisas. É lazer não só por estar na água, a desfrutar, mas por ser algo artístico, que te faz sentir a onda, desenhar uma linha e a sensação que te dá. É um lugar muito poético - entrar, sentir a água, ficar com o corpo salgado, o cheiro do mar.

Mas não faz parte da essência humana nós queremos comparar-nos aos outros?
É o formato do mundo, não é? Somos muito competitivos. O que existe para encaixar, socialmente, o bodyboard em alguma coisa, é torná-lo num desporto de competição. Até brinco com as meninas. Quando estou a competir contra a Joana, por exemplo, vejo-a a descer a onda, ela vai para uma manobra e, dentro da minha cabeça, estou a gritar 'cai! cai!', mas, quando estou a surfar com ela [fora de competição] quero que acerte e que desfrute. Isso não cabe na competição, mas, para mim, é a essência do bodyboard: uma coisa individual que você faz com os amigos.

Não te sabe bem ires sozinha?
Sabe, mas é diferente estar com amigos. Puxar uns pelos outros nas ondas. Além de que é mais seguro ir com alguém, em mares mais extremos. A minha opinião é que o bodyboard tem esse lado da competição e, por trás disso, existem milhões de outras coisas que são a sua essência.