Tribuna Expresso

Perfil

H2O

O grande Taj Burrow não tem saudades: “Foram muitas viagens com os 32 tipos mais irritantes e apressados do mundo”

Nunca foi campeão do mundo, mas Taj Burrow acabou várias vezes em segundo lugar do tour, ganhou 13 eventos e, ao fim de quase 20 anos, fartou-se de viajar e de estar no meio do ambiente "intenso". Diz que se dá melhor hoje com os amigos que tem do circuito mundial, porque "já não há tretas e a amizade é mais genuína", está mais relaxado e, "basicamente, faz o que lhe mandam". O australiano, esteve no Ericeira Billabong Pro a comentar alguns heats, ainda é o único surfista a ter "a decisão louca" de escolher não entrar no circuito mundial apesar de se ter qualificado

Diogo Pombo

Ed Sloane

Partilhar

O que estás aqui a fazer?
Bom, algumas coisas para a Billabong. Eles queriam que estivesse cá para a abertura de uma loja, a 58 Surf, que é gigante, foi uma noite divertida, com música, cerveja e muitas pessoas, e, depois, tenho comentado alguns heats. Tenho estado na cabine com os profissionais, o que tem sido divertido.

[ouve-se um bruá vindo da praia]

Acho que o Frederico está a surfar neste momento [ri-se]. E que mais? Sinceramente, faço o que me dizem para fazer.

Que tal a experiência de estar fora de água a comentar os heats?
É bastante divertido, não gostaria de o fazer regularmente, mas ter uma pequena oportunidade de o experimentar é fantástico. Desfrutei mesmo. Os profissionais da WSL são muito bons, fazem as coisas mais importantes e, depois, recorrem a mim apenas para dar algumas opiniões e falar do surf. Realmente, não tenho que fazer grande coisa. É divertido assistir a heats estando bastante focado no que está a acontecer e pedirem-me para verbalizar a minha opinião.

Para vocês, que costumavam estar na água a competir, é fácil olhar para as ondas que outros surfam e analisá-las?
Sim, podes agarrar em alguns detalhes e dizer que eles não fizeram bem isto ou aquilo, sabes? Mas, às vezes, não queres ser demasiado mau com eles. Quando lá vou tento, simplesmente, ser honesto. Quando alguém destroça uma onda, digo-lhes. Passei a vida a olhar para ondas ou para alguém a surfar ondas e é divertido falar sobre isso.

Como é a vida sem estar a competir?
É muito boa, gosto muito do sítio onde estou. Consigo passar mais tempo na minha cidade, no oeste da Austrália. Achava que ia ter bastante tempo livre, mas, por acaso, tenho andado bastante ocupado. Estava preocupado de não ter nada para fazer quando abandonasse o tour, mas tem sido o oposto. Agora, toda a gente sabe que estou disponível, incluindo os meus patrocinadores, por isso, pensam "podemos apanhá-lo".

Já não consegues dizer que não.
Exato, agora já não tenho desculpas, do género "não posso, tenho uma prova a aproximar-se". Portanto, tenho recebido pedidos para fazer muito mais coisas. Mas estou a adorar, sem dúvida. Já tenho uma família, gosto de estar mais assente, de ficar mais tempo por casa. Viajar menos é bom. Estive no tour durante 20 anos, sabes? É muito e não tenho saudades. Estou a desfrutar de ter menos aviões e menos aeroportos na minha vida, adoro onde vivo, adoro surfar onde vivo e estou muito feliz.

Kirstin Scholtz/Getty

No teu último heat no CT, em 2017, nas Fiji, foste eliminado com uma pontuação de 18.60. Não foi frustrante acabar assim?
Não, foi a maneira perfeita. Preferi perder esse heat do que ganhá-lo.

Porquê?
Foi um dos melhores que tive, contra, sem dúvida, o melhor tube rider do mundo [John John Florence]. Tivemos uma batalha incrível, sempre a responder ao outro, os dois a sacar notas 8 e 9, a liderança estava sempre a trocar e ele acabou por ganhar. Se tivesse vencido, continuava em prova e poderia, facilmente, ter um heat merdoso, perder na ronda seguinte contra alguém com quem não queria perder, ou que não respeito tanto como o John John. Foi a saída perfeita para mim. Nem me importei com o resultado. Fiquei feliz com a forma como competi. Podia, facilmente, ter ficado demasiado nervoso e ter caído em todas as ondas, era um momento importante, toda a gente sabia que me ia retirar nesse evento e só faltava saber quando, e como. Considerando tudo o que aconteceu, acho que foi a despedida perfeita.

Sentiste nervosismo ou era mais ansiedade?
Estava muito nervoso, com medo de não render, de ficar com demasiados nervos e estragar tudo. Na primeira onde que apanhei fui sempre em frente, não fiz uma única curva, não estava minimamente perto do tubo, apenas segui até ao fim e pensei "meu Deus, o que estou a fazer?". O meu cérebro estava em papa. "Pronto, tenho de começar a rasgar este heat". Depois entrei no ritmo e adorei, foi dos melhores em que surfei na minha carreira.

Porque decidiste retirar-te?
Já tinha a minha dose, basicamente. Era óbvio para mim que não queria competir mais, não gostava já do ambiente de ter sempre que estar a competir. Fi-lo durante tanto tempo que já só queria relaxar. Foram muitas viagens com os 32 tipos mais irritantes e apressados [hasslers] do mundo. As sessões de free surf que tinhas eram tão stressantes que já nem as desfrutava, porque toda a gente estava a aquecer, a arrumar o seu equipamento, tentava apanhar o maior número de ondas possível, era tão intenso que ficavas com o pior grupo de pessoas com quem poderias surfar. Quer dizer, são meus amigos, mas como são todos tão bons a apanhar ondas, preferi separar-me desse ritmo e ir surfar onde e quando quiser, e com menos pessoas. Estava preparado para sair do tour. Não sinto falta nenhuma. Continuo a adorá-lo, vejo todos os eventos, mas sabe tão bem estar relaxado e não ter o stress de saber que vem aí um heat para surfar. E a dinâmica entre mim e os meus amigos que estão no tour é tão melhor desde que me retirei. Entre mim e o Mick [Fanning] e o Joel [Parkinson], por exemplo, não há tretas, a amizade muito mais honesta e genuína agora. Baixámos a guarda, já não temos que batalhar uns contra os outros. Somos apenas amigos e é muito melhor.

O circuito ficou com gente com mentalidade muito mais competitiva?
Está diferente. Diria que todos sempre foram bastante competitivos, mas as coisas eram um pouco mais tranquilas quando comecei. As pessoas iam a festas, divertiam-se mais entre eventos, havia menos media. Agora é muito mais sério, os surfistas viajam com uma equipa à volta deles e todos são muito focados. Na verdade, isso funciona, tens que ser assim para conseguires os resultados que queres, mas é muito diferente de como as coisas eram quando entrei para o circuito.

Também há mais dinheiro envolvido.
Sim, é uma carreira incrível e a sensação de ganhar um evento é espetacular, pois é bastante difícil. Entendo que todos façam tudo o que podem para ganhar. O estilo de vida é muito bom e há muita gente a tentar qualificar-se para o circuito e roubar o teu lugar. É por isso que, hoje, todos os surfistas são disciplinados.

Ed Sloane/Getty

Que me lembre, és o único tipo que se qualificou para o circuito mundial e decidiu não entrar logo. Porquê?
Declinei a minha posição, sim. Foi uma decisão louca, só tinha 17 anos quando me qualifiquei e não senti que estava preparado para o tour. Era demasiado novo, vinha quase do campo. Qualifiquei-me com alguma facilidade na altura e, por acaso, a ideia foi do meu shaper, que também era o meu manager. Soou um pouco a loucura, mas, da maneira como ele me explicou, achei que tinha razão e que seria boa ideia tirar mais um ano para amadurecer e estar pronto para viajar pelo mundo com os grandalhões, a tempo inteiro. Felizmente, consegui qualificar-me logo no ano seguinte. Rejeitar a posição foi uma decisão um bocado maluca e acho que ninguém o voltará a fazer, mas resultou, pronto. Teria sido muito embaraçoso se não me tivesse qualificado no ano seguinte.

Aceitarias ser treinador de alguém?
Nem por isso. Ficarei feliz se me pedirem conselhos e tiver que passar o conhecimento que adquiri durante os anos. Gosto de ajudar os miúdos locais, como o Jacob Wilcox ou o Jack Robinson [ambos australianos], não me importo de lhes dar informação, mas nunca aceitaria um cargo de treinador a tempo inteiro. Especialmente se me pedisse para viajar pelo mundo, não voltaria a fazer isso. Estou farto de voar.

O que pensas do facto de haver uma onda artificial no circuito?
Não gosto mesmo nada de ver. Nem acho que se adequa muito ao surf competitivo. A piscina de ondas parece ser mesmo divertida e tem bom aspeto, mas, quando as pessoas veem, acho que querem experimentar em vez de ver alguém a surfar lá.

Porque retira a natureza da equação?
Sim. Gosto de ver as pessoas a batalharem contra os elementos, a criarem oportunidades para eles próprios, a sintonizarem-se com o oceano. Acho divertido para um evento especial, mas não para ser uma prova do circuito mundial.

Já experimentaste alguma onda artificial? O Surf Ranch do Kelly Slater ou a o Surf Lake, na Austrália?
Não. Até quero experimentar, mas já não vou aos EUA há algum tempo. Elas estão a aparecer em todo o lado, já há um par de ondas artificiais na Austrália que estão quase prontas, portanto, acho que em breve as vou experimentar.

Quando estavas nos teus 20, fizeste vários filmes de surf que tiveram bastante sucesso. Já pensaste retomar isso?
Não particularmente. Tento arranjar alguns contratos para ir surfar boas ondas e ter alguém a filmar, mas não me estou a dedicar a isso. Estou sempre a gravar imagens, os meus patrocinadores têm projetos de filme a serem pensados, mas não vou fazer um filme por mim próprio. Gosto de estar envolvido no processo de edição, escolher as imagens e as canções certas, sincronizar tudo, é uma boa sensação quando se faz a montagem. Sou um grande fã de edição. Talvez, no futuro, me possa envolver de alguma maneira se a Billabong começar a fazer filmes. Gostava de ser assistente de realização, por exemplo. Alguém faria o trabalho duro, que eu depois diria às pessoas o que fazerem na parte de edição [ri-se].