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Ítalo Ferreira: “Há surfistas que se perdem em tentações. Eu, não. Os meus títulos valem muito mais do que uma balada com os vários amigos”

Podia estar de férias, no Brasil, mas quis passar quase duas semanas a surfar entre Ericeira e Peniche, porque acha que "ainda sente um pouco de dificuldade" em tubos. Até foi à Nazaré, para "sentir adrenalina no corpo". Ítalo Ferreira, o campeão mundial de surf, também veio a Portugal para procurar casa e, antes de ir embora, parou na fábrica das pranchas Polen, onde falou com a Tribuna Expresso e o podcast "A Minha Vida Dava um Tubo" sobre os porquês de nunca parar de treinar, o que fez para ganhar o título e a vontade de ser campeão olímpico

Diogo Pombo

Kelly Cestari/Getty

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O que estás a fazer em Portugal?
Resolvi escolher Portugal pelo facto de, no inverno, ter muita onda boa na costa da Ericeira e Peniche. Estou a fazer uma pré-temporada. Antes do Natal, quando fui campeão do mundo, fiquei alguns dias parado totalmente, só a curtir e a aproveitar o momento, a relaxar. Em janeiro comecei a treinar a parte física e, no surf, também comecei a treinar algumas coisas diferentes. No caso, o tubo, em que acho que ainda sinto um pouco de dificuldade, e algumas manobras de linha para a esquerda. Em termos de tubo, tanto de frontside como de backside, deu para sentir um pouco estes dias entre Supertubos e os Coxos. Fiz boas sessões e acho que valeu muito a pena.

Custa-te, nesta altura do ano, estares a surfar em água fria?
Essa é a parte mais difícil. Não dá para acordar cedo, porque é muito frio. Tudo bem que, num campeonato, você tem um objetivo maior, que é ser campeão da etapa, mas, na pré-temporada, dá para dormir um pouco mais para surfar. Tenho acordado um pouco mais tarde e passado os dias na água. Ontem, surfei umas três ou quarto horas em Supertubos. Estes dias renderam muito e o esforço vai valer a pena. O frio vai ser compensado.

Também tiveste tempo para ir à Nazaré.
Foi meio que loucura. A Mari [Mariana Azevedo, namorada] não queria que entrasse no mar. Mas o desejo e a adrenalina de um atleta que compete faz com que queiras sempre estar em alto rendimento. Tens que ter essa adrenalina no corpo. Nos últimos dias, não estava a fazer nada além de surfar, não estava a sentir nada que me deixasse um pouco mais excitado. Quando estou em casa, tenho alguns carros, uns brinquedos, que me trazem essa adrenalina - faz-me tremer a mão e ficar com medo de acelerar. A Nazaré deu para alcançar um pico de adrenalina alto. Chegámos lá, à marina, e não havia ninguém do pessoal que faz a segurança dentro de água para me resgatar. Puseram um jetski na água e fui sozinho com um colete que me deram e nem sabia insuflar, se caísse na água. Foi uma loucura. Lá encontrei o Alemão de Maresias, o Sérginho [Sérgio Cosme] e toda a equipa e, depois, foi tudo tranquilo. Deu para apanhar três ondas, para sentir a energia e o poder daquela onda e como a natureza é forte.

Também serviu para treinar o receio?
Sem dúvida. Quando se vê o tamanho da onda, o limite que tem... é outro desporto. Não consigo comparar isso com o que a gente compete durante o ano, no circuito mundial. É muito maior. É bem perigoso também, em alguns momentos. Mas, na água, senti-me realmente confortável com as pessoas com quem estava. Eles sabiam onde ir, onde me colocar na onda.

Vais mais bem treinado para o circuito mundial deste ano?
Claro. Aposto sempre em ondas um pouco mais fortes. Fernando de Noronha é um lugar perto de onde moro e, quando tem ondas, faço lá a pré-temporada. Esse ano casou com o facto de Portugal ter agora ondas e ser apenas um voo de sete horas, de Natal para Lisboa. Estivemos cá quase 15 dias. Quando voltar, vou treinar a parte física e, depois, vou para Noronha surfar um pouco mais. Estou a abrir uma secessão de tempo para ficar em casa para que possa melhorar o meu surf e esses detalhes em que ainda sinto um pouco de dificuldade e não tenho muito confiança. O que fiz em Peniche e nos Coxos somou ao meu surf.

Isso vindo de um atleta que acabou de ganhar o Pipe Masters é muita humildade.
[Ri-se] Não, a galera pensa e fala, mas a gente tem que continuar a melhorar e tentar evoluir. Se você me colocar, sei lá, num dia em Pipeline com 10 pés [cerca de três metros], vai ser difícil. Estou a tentar melhorar em quaisquer condições, especialmente em ondas grandes e tubulares. Não estou a relaxar, quero melhorar para conseguir mais títulos.

Tony Heff/Getty

Mari [Mariana Azevedo, namorada, que está sentado ao lado de Ítalo], como viveste a experiência do Ítalo na Nazaré?
Chorei muito quando vi que ele estava a ir. E quando reparei que não havia ninguém para o levar no jetski, olhei brava para ele. Disse 'pelo amor de Deus, já é uma loucura estares a ir, e ainda queres ir sozinho? Estás a brincar comigo!'. No final, foi despedir-se de mim e foi só 'beijo baby, xau'. Só fiquei parada a olhar para ele. Apanhou uma, duas e três, para quê também? Não precisava, uma já foi bom! Aí, na terceira, falei para o Marcos [manager de Ítalo]: 'Se ele apanhar a quarta, juro que hoje não falo mais com ele'. Ainda bem que ele não foi para a quarta! [ri-se].

Ítalo, para quem vê de fora, nota-se que melhoraste muito desde que a Mari apareceu.
Sem dúvida, acho que me ajudou bastante. Comecei a fazer as coisas que gosto, de verdade. Acho que era isso que estava à procura, o meu equilíbrio. Tudo o que aconteceu neste ano foi para alcançar o meu maior objetivo: ser campeão do mundo. Quando nos conhecemos, em 2018, já estávamos no Havai juntos, daí fomos para a Austrália e as coisas começaram a acontecer. Tinha outro conceito. Só viajava sozinho, nunca queria ninguém por perto. Vi que, com ela, era diferente: acordávamos cedo, íamos treinar, ela filmava-me. O Marcos também começou a acompanhar e, depois, o [Fernando] Mocotó, outro amigo meu. Então, fiquei com uma família, era a minha base, o meu triângulo, onde encontrava equilíbrio. Durante o ano, separei-me de um dos meus treinadores e isso deu-me uma liberdade a mais, para surfar da maneira que gosto e não me preocupo com mais nada. Hoje, relacionamo-nos todos muito bem, começámos a viajar e as coisas foram acontecendo. Estando felizes, somos capazes de fazer qualquer coisa.

Vamos recapitular 2019. Nenhum surfista fez o que fizeste: foste campeão mundial da ISA e, depois, campeão mundial da WSL. Para o ano também queres o título de ondas grandes?
Para o ano são as Olimpíadas e, quem sabe, o Big Wave Tour [ri-se]. Foi um ano abençoado, sem dúvida. Quando Deus escreve, escreve a melhor história. Acreditei até ao fim. Tentámos evoluir a cada campeonato e sem descanso. Era treino em cima de treino e, quando vi que tinha uma mínima chance - quando acabou a etapa de França -, saímos do campeonato, viemos diretos para Portugal, começámos a treinar e defendi o título aqui. Era uma missão gigantesca. Os últimos três eventos vão ficar marcados. As pessoas vão lembrar-se do título mundial, mas, quando cheguei ao quarto e vi o troféu do Pipe Masters, foi uma loucura. Quando chegámos a Portugal, depois de França, vi que era possível, mas tinha de fazer a diferença. Treinei a parte física, depois fomos para o Havai muitos dias antes. Senti que o meu corpo já estava preparado, testei todas as pranchas, fiz tudo da melhor maneira possível e aconteceu.

Ganhaste os títulos mundiais e foste considerado o melhor surfista do ano pela "Surfer" e a "Stab". Foste unânime.
E acabei de ser indicado para os prémios Laureus, um dos maiores eventos do desporto. Estou muito grato por poder estar a viver este momento. Consegui alcançar todos esses sonhos. No início do ano tinha tudo escrito num papel, tudo bem que não tinha os ISA Games, mas aconteceu. Foi um ano incrível, que realmente vai ficar marcado. Para ser melhor, só ser campeão do mundo e dos Jogos Olímpicos este ano.

Em 2014, quando chegaste à etapa do QS dos Açores, estavas no top-70 ou 80 do circuito. Em cinco anos, passaste de um surfista praticamente desconhecido a campeão dos campeões. Como foi essa evolução?
Vendo assim, parece ter sido muito rápido. Mas, para quem está a vivê-lo e está todos os dias numa missão de acordar cedo, treinar e sempre tentar fazer melhor, é um período longo. Quando entregamos tudo nas mãos de Deus as coisas acontecem naturalmente. Comparando a outros atletas, a meu percurso foi bem rápido. Classifiquei-me para o tour a meio do ano. Nessa altura, nunca tinha vindo à Europa e acabei por vir quatro vezes durante um mês.

E que recordações tens de Portugal?
Começou aí, nos Açores, depois Cascais e Ribeira d'Ilhas, onde perdi com o Vasco [Ribeiro] na final do Mundial de Juniores. Isso pesou. Mas hoje sou campeão do mundo, estou no circuito mundial há algum tempo e este título cobriu o outro. A minha carreira foi incrível, já tenho vários títulos e isso é fruto de muito trabalho. Sou muito dedicado no que faço, às vezes não tenho noção porque é natural, não forço muito a barra. E acho que isso transparece no meu surf e as pessoas gostam de ver.

Em 2020 terás o primeiro ano em que, claramente, és o favorito a ganhar todas as etapas e o título mundial. Alguma coisa vai mudar na tua vida?
Sempre quis isso, sabes? Chegar a um lugar e as pessoas falarem “ele é favorito a ganhar essa etapa, esse campeonato”. É por isso que continuo a treinar muito. Podia estar em casa a relaxar, já fui campeão do mundo, vou dar um relax de três meses, mas não. Essa obsessão, essa vontade de vencer, de querer e de mostrar que é possível, é o que me move. Hoje, realmente, as pessoas podem dizer que posso ganhar nessa onda, em vez de olharem para o mar e dizerem que posso ganhar porque está pequeno. É isso que quero mostrar às pessoas: que posso entrar e ganhar em quaisquer condições, mostrando o que sou capaz de fazer. Acho que é isso que um atleta procura, evoluir todos os dias, mesmo estando no topo.

Ed Sloane/Getty

Na praia, antes de entrares no mar, estás sempre a ouvir música. O que ouves antes de competir?
Todos os tipos de música. Tem um ou outro ritmo, ou batida, que entra mais, como música do Brasil, da qual não gostava muito, mas, hoje em dia, é dançante e me instiga. Ouço muito Chris Brown, gosto de ouvir rap americano e alguma música brasileira.

És supersticioso e ouves sempre as mesmas canções antes de entrar na água?
Quando faço um álbum é sempre esse que ouço. Mas, quando perco, mudo [ri-se]. Tem uma música muito irada que ouvi na piscina de ondas do Kelly Slater, depois perdi e então, às vezes, quando a volto a ouvir, é uma chatice.

O que ouviste antes da final em Pipeline?
Uma canção gospel, uma do brasileiro Fernandinho e outra do Chris Brown. Estas duas foram repetindo ao longo de toda a competição.

Nessa final, em que momento sentiste que tinhas a etapa na mão?
Quando ganhei ao Yago Dora [nos quartos-de-final]. Senti que podia lá chegar. Foi aí que alcancei o meu nível de competição verdadeiro. Nas outras baterias estava muito fraco, tive algumas oportunidades e acabei por perder, não estava com a prancha certa, era demasiado grande e estava um pouco lenta. Um dia antes [da bateria contra o Yago Dora], num dia sem competição, usei uma prancha 6'2'', passou-me muita confiança e acabei por competir no resto do campeonato com ela.

E como foi contra o Gabriel Medina?
Mas, na final, entrei no mar com uma prancha 6'4'', senti-a muito dura, saí, troquei de prancha e nem pensei no Gabriel. Não me veio à cabeça em nenhum momento. Isso foi o máximo de concentração que alcancei. Sabia que ali podia decidir tudo na minha vida. O meu sonho estava em jogo e não me podia preocupar com o adversário. Naquele momento, o Gabriel era muito pequeno, comparado ao que queria.

Nem quando ele tentou fazer um backflip?
Quando apanhou essa onda, sabia que não ia dar. Era uma onda bem fraca. Depois, trabalhei com a prioridade e isso fez a diferença.

Como será a seleção do Brasil nos Jogos Olímpicos, contigo e com o Medina?
Então, é individual, não é? A prova de surf nas Olimpíadas é individual e ambos vamos querer fazer o melhor para levar a medalha de ouro e representar o país. Ganhar é o meu objetivo e espero que possa representar o Brasil [Ítalo Ferreira ainda não garantiu um lugar].

O Frederico Morais ganhou o circuito de qualificação e vai voltar ao CT. Que hipóteses achas que ele tem?
Ainda competi algumas vezes contra o Kikas. Ele bateu-me lá no Rio de Janeiro e fiquei muito puto [ri-se], mas faz parte. Ele surfa muito bem, tem um jogo de manobras bonito e é bem dedicado. Pode dar muito trabalho no circuito, voltou agora surfando muito, especialmente no último evento, em Haleiwa, no Havai. Ele precisa de melhorar em alguns tipos de onda, Ele é um talento incrível, surfa muito forte e, em 2016, antes de ir para o Havai, falei com ele em Peniche e disse-lhe que ia conseguir a qualificação nesse ano. Depois ficou em segundo lugar em Haleiwa, só atrás do John John [Florence].

Achas que devia ter vencido?
Disse-lhe para ir buscar o troféu a casa do John John! Mas, enfim, não controlamos as coisas.

E o que achas do Vasco Ribeiro?
O Vasco surfa muito bem, é bem parecido com o Frederico. Em termos de força e power, o Vasco está na frente, mas precisa de ajustar um pouco mais a cabeça, que hoje faz muita diferença no circuito. O mínimo detalhe faz muita diferença. É isso que deveria trabalhar um pouco mais para que consiga entrar no CT. Hoje em dia, muitos surfistas perdem-se pela mente e, às vezes, por algumas tentações. Há vários exemplos no circuito, não os vou citar, mas eu sou um atleta que abre mão de muita coisa. Tenho muitos títulos que valeram mais a pena do que qualquer coisa - do que uma noite com um colega, ou uma balada com vários amigos. Os surfistas que estão no QS têm que se focar mais em controlar a mente e abrir mão de muita coisa em prol de um objetivo. O Frederico e o Vasco têm um surf muito bonito de se ver. O Vasco ganhou-me na Ribeira d'Ilhas a surfar muito. Estava muito bem preparado fisicamente, era grande e mais forte do que eu, estava sem energia nenhuma quando cheguei à final. Dava para ver a diferença de um atleta para o outro.

O que aprendeste com essa final?
Vi onde tinha errado. Ou melhor, errado não, porque cheguei à final. Mas, na forma como o Vasco estava preparado e eu não, mostra como os detalhes fazem muita diferença. É por isso que tento sempre estar a evoluir. Todos os atletas têm que trabalhar bastante.

Daí fazeres tanto treino físico? Publicas muitos vídeos sobre isso.
É por isso que tenho uma academia em casa [risos]. Posso treinar a qualquer momento. Se tiver feito uma viagem, chegar tarde a casa e estiver cheio de energia, vou treinar. Se não treinar, no dia seguinte tenho de fazer o dobro. É essa cobrança que faz com que me sinta bem, fisica e psicologicamente.

Por falar em casa, com tantas viagens, onde te sentes em casa?
Em Baía Formosa. É um lugar especial para mim, onde volto a ser criança e a fazer as mesmas coisas. Ir para a praia jogar à bola, pegar num carro, fazer trilhos, surfar o dia inteiro, treinar a parte física, comer a comida da mãe... Voltar para a Baía Formosa faz-me regressar ao zero e esquecer tudo o que conquistei até hoje. É isso que ainda me move.

Tens planos para que Portugal possa ser uma segunda casa?
Pode ser, já estamos aí a pesquisar umas casas. Foi um dos motivos pelos quais viemos, também, para tentar encontrar um espaço aqui em Portugal. Para poder vir aqui surfar, melhorar e apanhar ondas de qualidade. O frio ainda é um pouco chato, mas no final vale a pena. E, quem sabe, talvez apanhar umas bombas na Nazaré.

* a versão áudio da entrevista será publicada, em breve, pelo podcast "A Minha Vida Dava um Tubo".