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Alex Botelho: “Fiquei 6 minutos sem oxigénio na água e mais 4 até voltar a respirar na areia. Foi uma bênção não ficar com danos cerebrais”

A 11 de fevereiro, o surfista português foi projetado por uma onda na Praia do Norte, durante o Nazaré Tow In Challenge, embateu na mota de água, perdeu os sentidos e ficou sem respirar durante 10 minutos. Apenas sairia do hospital 15 dias depois. As memórias de Alex Botelho do acidente acendem e apagam, mas lembra-se de sentir que estava prestes a ficar inconsciente no mar e de acordar, já na areia, abrir os olhos e pensar: "Ok, estou vivo". E conta à Tribuna Expresso que sente "gratidão" com o mar e vontade de voltar, porque "também foi o mar que [o] salvou e levou para terra"

Diogo Pombo

Lars Baron/Getty

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Como é que estás?
Já estou bem, bem melhor. Estou estável, já consigo fazer a minha rotina diária normalmente, sem sentir qualquer consequência desde que faça tudo devagar. Se começar a puxar muito, ou se subir algumas escadas, ainda sinto algum cansaço. Mas, à parte disso, a melhoria tem sido impecável e boa e está tudo no bom caminho.

E mentalmente?
Houve e há um grande impacto mental e psicológico, mas sinto que, à medida que têm surgido obstáculos mentais e emocionais, tenho conseguido falar sobre isso, processar e ultrapassar. Imagino que ainda haja mais obstáculos a aparecer à medida que volte a fazer mais coisas que antes fazia na minha vida normal.

Sentes receio de voltar ao mar?
Tudo ainda é um pouco uma incógnita. Consigo simular isso na minha cabeça, mas acho que só no momento em que viver, mesmo, essas situações, é que poderei processá-las. Na parte física, já me lesionei várias vezes, claro que nunca com a gravidade desta, mas o processo de voltar a ganhar confiança é o mesmo, é construir bloco a bloco, cimentar uma boa base e, depois, começar a partir daí.

Os médicos deram-te prazos?
Inicialmente, quando saí do hospital, deram-me um prazo bastante vago. Podia ser entre quatro a oito meses [de recuperação]. Quando saí do hospital ainda estive duas semanas bastante parado em casa, depois comecei a sentir-me melhor e a fazer alguma fisioterapia, mas foi exatamente nesse momento que surgiu esta situação toda da Covid-19 e tivemos que nos isolar em casa, de quarentena. Tive que deixar de ir à fisioterapia e, como não tenho tido contacto com médicos, também não conseguem avaliar a minha situação. Neste momento não tenho nenhuma resposta. Ao menos estou em repouso, estou a fazer alguns exercícios de fisioterapia que me foram dados e sinto que continuo num processo positivo de recuperação. Agora é continuar neste caminho, por enquanto está tudo bem.

O que te lembras do que aconteceu na Nazaré?
Tenho memória até termos aterrado depois do embate com a onda que nos projetou para o ar. E tenho memórias, depois, já na areia. Houve ali um espaço no meio em que não tenho qualquer coleção de memórias do que aconteceu. Antes do acidente, lembro-me que estávamos a surfar, o Hugo Vau e eu, tudo corria bem e o dia estava a ser mesmo porreiro e divertido. Todos apanharam boas ondas, havia uma boa harmonia, respeito e sintonia na água. E foi aquela situação que acontece muitas vezes no surf: mesmo no final, pensei, vá, vou apanhar só mais uma onda. O Hugo puxou-me para uma onda, correu bem, foi mais uma, e quando saí da onda, o Hugo estava lá ao meu lado para me apanhar na mota de água. Subi para o sled e, logo atrás de nós, estava uma onda prestes a rebentar. Essa onda fez uma refração para norte e o Hugo teve que conduzir nessa direção para escapar à onda.

E depois?
Quando fomos para norte, houve outra onda, mais pequena, já uma espuma, que dobrou para sul e nos entalou. Mas, como essa era a onda mais pequena, era a porta mais segura para tomar. Nesse momento, lembro-me de ver a espuma e pensar que seria possível ultrapassá-la, mas que poderia ser uma situação bruta. Deitado no sled também não se tem a melhor visão do que se passa à volta, mas lembro-me de pensar nisso e de me agarrar bem. No momento em que subimos a espuma as duas ondas juntaram-se e fizeram um backwash, que projetou a mota no ar e a nós. Quando aterrámos, bati com o peito no lado direito do sled com muita força e furei um pulmão.

Aí perdeste os sentidos?
Apaguei, fiquei inconsciente, mas não foi repentino, como às vezes acontece. Senti-me a ficar mais fraco e tive a noção que ia ficar inconsciente. Depois, pronto, não tenho qualquer memória até estar na praia. Comecei a ouvir algumas vozes e, quando abri os olhos, estavam a levantar-me e a porem-me dentro da ambulância. A primeira pessoa que vi foi a minha namorada, logo de seguida o Hugo. Na verdade, a primeira sensação que tive foi de conforto. Senti ok, estou vivo, já passou, estou a ser acompanhado, estão com profissionais e com a minha família. Acho que teria sido muito pior se tivesse acordado na água, com dificuldades respiratórias. Ao menos, acordei num bom círculo.

O resgate de Alex Botelho na Praia do Norte, na Nazaré, a 11 de fevereiro.

O resgate de Alex Botelho na Praia do Norte, na Nazaré, a 11 de fevereiro.

Laurent Masurel/WSL

Recordas-te das caras das pessoas que tinhas à tua volta?
Tinham uma expressão desconfortante nos olhos, mas tiveram a atenção de me transmitir uma boa sensação. Não transmitiram pânico. Pelo menos, foi isso que interpretei. Imagino que estar no outro lado de uma situação destas não deve ser nada confortável.

Ficaste mais de duas semanas no Hospital de Leiria.
Tenho memórias que vão e vêm, mas, quando cheguei ao hospital, já estava mais ou menos estável. Tinha muita dificuldade em respirar, mas conseguia respirar sozinho. Fui avaliado pelos médicos, fizeram-me uma TAC ao cérebro para verem se não tinha danos cerebrais. O relatório diz que fiquei seis minutos sem oxigénio dentro de água e mais quatro minutos até voltar a respirar na areia. Foram 10 minutos no total. Foi uma bênção não ficar com qualquer dano cerebral. Nessa noite, comecei a ter mais dificuldades em respirar e tiveram que conectar um tubo ao meu pulmão, para retirar a água que restava, e outro tubo mais em cima, para tirar o ar a mais que estava numa película que existe à volta do pulmão. E tiveram que me entubar com um ventilador para me auxiliar a respirar. Essa foi a parte mais crítica. Estive internado sete dias nos cuidados intensivos e fiquei mais oito no serviço de pneumologia. No total, foram 15 dias.

O que sentiste quando saíste do hospital?
Muito alívio e felicidade por estar cá fora outra vez. Foi mesmo, mesmo positivo. Especialmente durante a última semana em que estive no hospital deu para processar muita coisa e perceber a sorte que tive por ainda estar cá. Quando saí do hospital é que, realmente, se manifestou. Percebi que agora é que ia começar, devagar, a minha vida normal. Senti uma grande bênção por ainda estar vivo. O melhor presente que a gente pode ter é estar vivo e, ainda para mais, estava acompanhado pela minha namorada, a minha família e os meus amigos. Senti-me mesmo abençoado e com muita sorte.

Pensas em voltar às ondas gigantes?
Tenho pensado nisso. Não consigo projetar muito para a frente, porque agora é tudo passo a passo, mas tenho pensado bastante. Inicialmente, quando voltei para casa, vi algumas pessoas conhecidas e amigos, muitas vezes, a terem a reação mais repetida que vi: pessoas a dizerem que devo ter ficado traumatizado com o mar e com as ondas grandes e que nunca mais vou voltar. Até porque é normal. Nunca tinha pensado nisso, mas, de ouvir tantas vezes, realmente comecei a pensar. Houve um dia em que fui ver a minha namorada a fazer surf, estava a pensar na situação toda e percebi uma coisa. Houve o acidente na água e houve uma equipa de resgate que tentou, repetidamente, salvar-me e estou-lhes eternamente grato por isso. Mas, na Nazaré, é muito difícil fazer um resgate de uma pessoa, especialmente se estiver inconsciente e com fato, coletes e tudo, torna-se muito pesada. Quando fui parar à beira da praia, foi o mar que me levou aquele ponto. Da zona onde tive o impacto até à beira da areia, quando a equipa médica me assistiu, foi o mar que me levou para ali. E talvez seja somente uma forma de interpretar, mas, para mim, é através disso que até sinto mais confiança, gratidão com o mar e vontade de voltar. Porque sinto que também foi o mar que me salvou e levou para terra. Claro que, se não fosse a equipa que me assistiu, não estaria aqui hoje. Mas é uma forma de sentir e agarrar nesta situação e torná-la em algo positivo.