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Os 58 dias de Joana Schenker em isolamento: “Na maior parte do tempo nem vi o mar. Mantive-me na bolha, para não ficar maluca”

Ao contrário do que aconteceu no surf, o Estado não atribuiu a nenhum atleta de bodyboard o estatuto de Alto Rendimento. Logo, foram quase dois meses fora do mar para todos, ou exatamente 58 dias para Joana Schenker, a hexacampeã nacional que vive em Sagres e admite que, no início do estado de emergência, ainda viu bastantes pessoas "a desrespeitarem" as ordens. Mas, no regresso ao mar, Joana Schenker não se deparou com muita gente e acha que o bom-senso está a cumprir o seu papel

Diogo Pombo

Francisco Pinheiro

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Já voltaste a surfar?
Claro, foi logo na segunda-feira, ao final de 58 dias, vê lá.

Foste fazendo riscos na parede para contar o tempo?
Nunca tinha estado tanto tempo fora de água em toda a minha carreira. Ainda por cima sem uma lesão, sem nada. Já estava mesmo a ficar com ansiedade, nunca sou assim, sou mega descontraída, já estava a ficar irritadiça com tudo [ri-se], mas pronto, já passou.

Como foi o regresso?
Fui à praia da Cordoama [em Sagres] e foi tranquilo. Estava à espera de ver muitas pessoas na praia, mas não, vi muitas pessoas espalhadas, tudo a tomar aquela distância que agora já nos habituámos a ter e até foi bastante tranquilo. Vi alguns amigos ao longe, mas estava à espera de uma enchente que, de facto, não houve.

Mas como estava o mar?
Não estava nada de espetacular, estava ok. Mas, para quem não surfava há tanto tempo, estava lindo. Não estava clássico, claro que não, estava umas ondinhas só.

Sentes, nas pessoas com quem vais falando, algum tipo de receio em voltar ao mar ?
Acho que todos ganhámos um pouco, porque também vimos outros países já a abrir e a voltar a fechar praias. Vimos que quando as praias encheram assim à maluca, as autoridades voltaram a fechá-las. Penso que todos temos a noção de que temos de ir com calma e, se quando chegarmos à praia e estiver lá muita gente, então esperamos e voltamos mais tarde, ou vamos para outra, para evitar que aconteça aqui. Temos de ser um bocadinho mais inteligentes e ter noção que está nas nossas mãos manter as praias abertas, ou, pelo menos, manter o surf aberto, vá. Todos queremos continuar a surfar e acho que toda a gente está com alguma calma, e ainda bem. Se for preciso, vamos para outra praia onde as ondas não estejam tão boas, é melhor que nada. O bom-senso aqui é muito importante.

Viste muitas pessoas a irem surfar durante o estado de emergência?
No início, logo quando começou, na primeira semana, vi bastantes pessoas a desrespeitarem, até porque ainda havia bastantes turistas e estrangeiros por aqui e estavam um bocadinho longe da realidade. Quando a polícia fechou as praias e começou a fazer as rondas todos os dias, aí notou-se realmente que havia pouca gente a desrespeitar. Pelo menos que tivesse visto, porque ia só de carro dar uma volta. A maior dos dias nem vi o mar, nem queria [ri-se]. Nem via as previsões, nem nada, mantinha-me um bocado na bolha para não ficar maluca.

Em Portugal, o Governo já não concede o estatuto de Alto Rendimento a atletas de bodyboard. Portanto, nem vocês poderiam sequer ir surfar, ao contrário de alguns surfistas.
Foi muito duro porque, realmente, vimos a nossa vida a ser colocada em pausa, ao contrário de outras profissões. A minha ficou completamente parada. Não podia treinar no mar, não podia fotografar, não podia fazer absolutamente nada daquilo que é a minha atividade diária. As nossas competições, neste momento, estão todas em stand by, mas não sei quando é que voltam a arrancar. Ou seja, ainda estou a competir no campeonato mundial. Não queria deixar isso de parte, treinar e manter o ritmo é sempre extremamente importante. Estava a passar os dias com a sensação de não estar a fazer nada de útil para a minha profissão.

Francisco Pinheiro

Como é que tentavas combater isso em casa?
Já há muito tempo que treinava em casa. Tenho aqui tudo, uma bola de Pilates, uma corda de saltar, tenho um mini-ginásio aqui, vá. Portanto, fui fazendo os meus treinos normais, mas, porque tinha mais tempo, fui treinando mais do que antes, até para gastar aquela energia que normalmente fica lá na praia. Mas não há nenhum treino que se possa fazer fora de água que seja um substituto. Quanto muito, é uma ajuda para manter o corpo a funcionar e em forma, mas não substitui a água. É só uma tentativa de nos mantermos em forma, mas não estamos a treinar a modalidade. Não gosto muito da rotina de nenhum treino, por isso é que faço bodyboard [ri-se], portanto, para fugir a ela, comecei a fazer treinos diferentes que encontrava na internet, de coisas que nunca tinha feito, para me manter também ocupada e com o espírito mais em cima. E, na segunda-feira, quando fui surfar, a verdade é que não me senti assim tão perra, ou estranha, ou pesada, ou lenta. Até me senti bastante em forma. Foi uma sensação muito positiva.

Tinha receio desse momento?
Estava um bocadinho preocupada de me sentir estranha quando fosse à água, porque nunca tinha estado tanto tempo sem fazer bodyboard. Mas não, logo nas primeiras ondas comecei logo a surfar minimamente bem, e pensei 'bom, afinal isto não assim tão grave quanto imaginei'. Fiquei muito contente.

Mas, para chegares lá fora e passares a rebentação, não notaste que, mesmo tendo treinado tanto, a preparação é diferente?
Notei, claro, fiquei muito mais cansada e mais depressa, principalmente nos braços. A remada é uma coisa muito difícil de treinar em casa. Na segunda-feira surfei durante 1h30 e, à noite, estava toda partida, o que é uma coisa ridícula porque costumo surfar muito mais tempo. O cansaço da água não tem nada a ver. Mas foi a melhor sensação do mundo [risos]. Claro que me senti muito mais cansada do que é normal. Costumo surfar cinco ou seis horas por dia e passado 1h30 estava mesmo cansada, mesmo o pescoço e os braços estavam doridos no dia a seguir. Imagina se não tivesse feito exercício em casa, teria ficado completamente fora de forma. Mas, com uma ou duas semanas de bodyboard, tenho a certeza que fico outra vez no ponto.

Quando vier o calor, tens medo que as pessoas encham as praias e isso, por tabela, possa afetar as restrições de acesso ao mar?
Acho que temos de distinguir o que é cada coisa. Eu não vou à praia para fazer praia, não me vou deitar na areia. Eu visto-me no carro, vou para a água, volto e vou-me embora. É importante que o Governo, as pessoas que decidem isto, as Capitanias e tudo mais tenham bem a noção de que é muito diferente. Há muita gente a fazer surf e bodyboard em Portugal e isto é quase uma questão de saúde mental [ri-se], porque as pessoas estavam a ficar mesmo em baixo. Eu não fiz nada de errado e, se voltarem a fechar as praias, acho que será muito, muito injusto, sinceramente. Espero que não venha a acontecer, mas, se acontecer, acho que terá de haver uma avaliação melhor das coisas. Não dá para ficarmos outra vez dois meses fora do mar só porque há pessoas que querem fazer praia.