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Filipe Jervis: “As pessoas acham muito fácil ser surfista, mas perdes muito, mas muito mais do que ganhas”

Quando a Liga Meo Surf arrancou, no fim de junho, deu a primeira prova de surf ao mundo pós-confinamento, na Figueira da Foz, onde Filipe Jervis chegou à primeira final nacional da carreira. Tem 29 anos, já deixou de fazer vida do surf de competição há muito e hoje tem-no como um hóbi, mas, quando soube que ia competir no heat decisivo, sentou-se no carro e começou a chorar. "Foi uma descompressão muito grande", confessa, em entrevista à Tribuna Expresso. Jervis olha para miúdos e faz-lhe "um bocado de confusão" que já pensem em competir: "não há nada pior do que teres 13 anos, não teres nível, mas seres 'obrigado' a entrar numa prova, porque os teus pais querem, e vais levar na pá constantemente". Começa, esta sexta-feira, a terceira etapa do circuito nacional, na Praia Grande

Diogo Pombo

Jorge Matreno/ANSurfistas

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Foste à primeira final da carreira na Figueira da Foz. Como é que isso foi?
Difícil. Muito bom, mas foi um grande misto de emoções, especialmente quando passei à final. Foi um campeonato que se passou todo quase no último dia e todos os heats, desde os quartos-de-final, foram resolvidos nos últimos cinco minutos. Então, no meio do esforço dentro de água, o lado psicológico foi muito intenso. Quando, na meia-final contra o Afonso [Antunes], estávamos os dois cá fora, já perto da tenda dos juízes, à espera da nota para sabermos se ele passava ou não, havia aquela tensão toda: se vou passar, se não vou. Quando dizem que o resultado não era suficiente e eu tinha passado à final, foi uma sensação agridoce.

Porquê?
Por um lado, consegui o objetivo máximo da minha vida, até ao momento, que era ir a uma final, e claro que queria ganhar... mas senti que as minhas energias foram todas consumidas ali. Foi uma descompressão... Aliás, eles disseram o resultado, eu mini-festejei, sentei-me dentro do carro e comecei a chorar. Desde as 08h da manhã que estava no campeonato, ali a passar heats à rasca, mesmo uma cena muito difícil, e no fim do dia aquilo compensou. Por um lado, queria ir bater-me com o Kikas [Frederico Morais], mas, por outro, sentia muito que já não tinha energia.

Estavas de rastos, em todos os sentidos?
Sim, de cabeça e fisicamente. Lembro-me de ir buscar a licra para a final e o Kikas estar no pontão da Figueira a aquecer. Eu fui alongar um bocadinho, cumprimentámo-nos - porque passámos o campeonato todos juntos e foi engraçado - e, quando fui para a água e me deitei na prancha, começaram-me a dar umas cãibras na lombar e pensei como é que ia aguentar mais esta final. E, pronto, tentei uma estratégia diferente que não resultou, sabia que o Kikas, naquelas condições, iria ser muito difícil de bater.

Ele a surfar de frente para as direitas e tu de backside.
Direitas com tamanho e compridas é um dos fortes do Kikas, a verdade é essa. Acabei por tentar uma estratégia diferente, que tinha estado a resultar o dia todo, mas não resultou. Claro que fiquei super contente com o melhor resultado da minha vida, sem dúvida. Quer dizer, não foi, porque fui vice-campeão europeu [2010] e ganhei o Pro Júnior das Canárias. Mas, em termos nacionais, foi o melhor resultado da minha vida.

Só o conseguiste agora porquê?
É um conjunto de fatores. Já não tenho patrocínios que me obriguem a prestar serviço e a dar retornos e resultados. O foco da minha vida deixou de ser o surf de competição e passou a ser o meu projeto [Jervis Surf Experience], portanto, a minha cabeça não está constantemente a pensar que estou a surfar para aqueles 20 minutos. Estou a surfar por mim e pelos miúdos. Depois, se calhar, é também um bocadinho a maturidade e o crescimento de auto-confiança e auto-estima ao longo destes anos todos, que me fizeram chegar a este ponto: sinto que não tenho nada a provar, nem tenho medo de ninguém. A prova da Figueira foi isso: porque ganhei a muitos bons nomes, o que me deu um boost extra para acreditar ainda mais nisso, no "sou capaz de lhes ganhar". Se calhar já o era há mais anos, mas só agora me comecei a aperceber.

Quando eras mais novo, com 20 e poucos anos, pensares nisso causava-te ansiedade?
Sempre. Quem me conhece e quem trabalhou comigo - patrocinadores, treinadores, os meus pais, irmãos e amigos -, todos sabiam, inclusivamente eu, sabiam que o meu problema era a cabeça. E esse era um dos pontos, a pressão que colocava em mim próprio para provar e demonstrar. De certa maneira, sei que foi uma barreira para explodir um bocadinho mais e ir mais longe.

Qual é a solução?
Tem que vir de ti, és tu quem tem de querer. Podes ter todas as pessoas à tua volta a dizerem-te que tens potencial, que consegues chegar lá se quiseres, mas, se não acreditas nisso, não te serve de muito. Só a partir do momento em que a minha vida deixou de ser virada para estar sempre a pensar em campeonatos e só surfar para treinar, treinar e treinar, é que me comecei a focar-me em surfar, ensinar e divertir-me. Já não vou para dentro de água assim. Desbloqueei um pouco a parte da cabeça.

A competição agora é mais hóbi?
Sem dúvida. Eu vou aos campeonatos nacionais, primeiro, porque é importante para a imagem de um surfista e para não desapareceres do mapa, e porque, na minha cabeça, apesar de saber que faço bom surf e não sei quê, ali tenho alguma motivação para o demonstrar, para ter a certeza, para receber notas e ser julgado. É um bocado para provar a mim próprio, porque os patrocinadores que estão comigo, estão por quem eu sou, não pelo competidor que sou, felizmente. É muito por aí.

Quer queiras, quer não, neste momento estás em 7.º do ranking nacional e tens hipóteses de competir pelo título.
Tenho essa noção e Ribeira d'Ilhas tramou-me um bocadinho [perdeu na primeira ronda]. Sei que não me dei bem devido a um conjunto de fatores, também porque não surfei bem. Não gosto muito da onda e, na semana anterior, estive em estágio com os meus alunos em São Torpes [Sines]. Treinei em muito poucas direitas e estava muito cansado. Foram quatro dias intensos a dar três treinos por dia, a empurrar miúdos, remar, surfar, e quando cheguei a Ribeira a minha cabeça não estava no sítio; e, depois, aquelas condições ainda fazem com que uma pessoa tenha ainda menos confiança. Acabou por me correr mal e tramou-me um pouco, porque não tenho margem de manobra. Contam quatro etapas das cinco para o resultado final e calculo, e espero, que Ribeira d'Ilhas tenha sido a minha etapa para descartar. É um péssimo lugar. Tudo o que fizer a partir de agora vai pontuar muito, portanto vou começar a entrar ali no top-5, top-3 e, se tudo correr bem, vou começar a disputar o título nacional. Já tenho um segundo lugar, se quiser estou lançadíssimo.

Jorge Matreno/ANSurfistas

Mas, em 2018, já conseguiste estar na luta.
Sim, eu e mais sete, foi brutal. Mas, por acaso, acabou por ser um bocado ingrato, porque a última etapa foi num campeonato com ondas horríveis no Guincho, sem oportunidades, e a malta foi perdendo. Acabou por ser o Miguel Blanco o campeão, porque foi quem se adaptou melhor às condições, a malta foi perdendo e ele foi campeão.

No surf, como em muitas modalidades, a maior parte das pessoas perde muito mais vezes do que ganha. Como se lida com uma carreira feita assim?
É a coisa mais difícil do surf. Às vezes tenho pais que me perguntam porque é que os miúdos não vão a campeonatos e quero que compreendam que não há nada pior do que teres 13 anos, não teres nível, mas seres "obrigado" a entrar numa prova, porque os teus pais querem, e vais levar na pá constantemente. Porque, ao não teres nível, não vais chegar a resultados muito elevados e, se não tens uma cabeça forte, estás a levar e vais acabar por desistir do surf. O nível tanto de surf, como de maturidade, é importantíssimo. O maior exemplo disso foi o Ethan Ewing. Ele fez o primeiro campeonato da vida dele aos 17 anos! Até lá foi surfar, surfar, surfar, surfar. Depois, fez um Pro Júnior, deu-se bem, no ano a seguir foi para o QS [Qualifiying Series] e entrou no CT [Championship Tour]. Depois saiu, porque não tinha maturidade, nem experiência competitiva, mas, entretanto, voltou. As pessoas acham muito fácil ser surfista, porque vives na praia, grande vida e não sei quê, só que não conseguem contabilizar a quantidade de vezes em que te tens de manter mentalmente forte, porque estás sempre a perder. Perdes muito, mas muito mais do que ganhas.

Até os bons, como o Kikas.
Claro, não há ninguém que tenha o rácio com as vitórias por cima das derrotas. É impossível.

Conheces muitos pais que fazem essa pressão, como acontece no futebol, por exemplo?
Agora nas férias, vais à praia e vês a quantidade de miúdos que estão a treinar e não a surfar. Porque é muito diferente. Eu, com os meus miúdos, quero que eles cresçam com o surf, que se apaixonem pela modalidade, que façam surf, que não treinem. Eu não dou treinos, eu faço-lhes companhia na água. Quero que amem mesmo aquilo. E vês muitas escolas e muitos projetos, tudo muito virado para a competição. Vês miúdos com 12 anos já a treinarem no ginásio, irem a psicólogos, e tudo isso me faz um bocado de confusão porque, se fores perguntar aos miúdos se amam o desporto, talvez tenha sido por estar na moda e, depois, já é habitual treinarem. E têm que ir treinar à segunda, à quarta e à sexta. Não é surfar, é ir treinar. E o verdadeiro surfista, surfa. Atenção, não sou contra os treinos. Na elite da alta competição, tens realmente que treinar, mas não precisas de começar aos 12 anos. Primeiro, surfas, aprendes o que é o surf, a ler o mar, as condições. Só depois podes começar a pensar em trabalhar para competição. É um processo muito demorado e as pessoas põem as coisas umas em cima das outras.

Se, um dia, um pai te pedir para treinares um filho ou filha para competir, vais aceitar?
Tenho uma miúda, de 13 anos, que, se quiser, pode entrar por esse lado. Ela tem muito jeito, é muito nova e não sei se quer. Mas, lá está, não falamos sobre isso. Porque vai haver um momento em que tem de ser ela a decidir. E tenho de ser eu a decidir se ela tem nível, ou não. Se está preparada psicologicamente, ou não, para perder, para remar, para surfar. Obviamente que faz e te ajuda a evoluir tu veres os outros a competirem, e estares dentro de água e aprenderes a lidar com essa pressão. É engraçado, porque o Pedro Boonman veio comigo nesse estágio, antes de Ribeira d'Ilhas, viu a Carlota a surfar e perguntou-lhe, "então, não queres competir?", e ela: "Por agora não, a minha prioridade é mesmo fazer surf. Amo surfar". É a melhor coisa que podes ouvir. Eu, que estava ao lado deles a ouvir, pensei: "Ok, estás a fazer um bom trabalho" [ri-se]. Mas é um bocado isso. Ela tem noção que tem jeito, trabalho muito com ela e o surf é muito batalhar e batalhar, mas a grande diferença é que não batalhas sempre com a mesma bola, no mesmo relvado, na mesma pista de atletismo; aqui estás dependente do mar, as ondas são sempre diferentes - a não ser que vás para uma piscina de ondas - e não consegues dar aquela repetição, erro, repetição, erro. Tens de trabalhar o dobro para chegares a um bom nível. A miúda treina três vezes por semana comigo e vês que tem mesmo paixão pelo surf. Envia-me mensagens no WhatsApp, "vê lá esta manobra", portanto é um processo, vamos ver.

No teu caso, em miúdo, lembras-te de tomares a decisão de competir?
É engraçado. Tinha 14 anos quando fiz o meu primeiro campeonato, foi um King of the Groms, organizado em São Torpes, na praia onde aprendi a surfar, com a ajuda da escola em que a minha mãe estava a trabalhar na altura. Organizaram a prova com a Quiksilver e foi o Kikas, o Nicolau [Von Rupp], o Francisco Alves, o José Ferreira. Perdi nas meias-finais e lembro-me que foi a pior sensação do mundo. Perder. Nunca tinha feito um campeonato. A partir daí foi natural. Depois comecei a ir com o meu pai ao circuito nacional de esperanças, fiz sub-14, sub-16... Hoje em dia somos todos amigos porque começámos ao mesmo tempo, desde os meus 14 anos que são sempre as mesmas pessoas nos campeonatos. É brutal.

Vês-te a competir até aos 40 anos?
No dia em que sentir que já não tenho surf para estar ali, desisto. Vou ter essa noção, de já não estar aqui a fazer nada e deixar isto para os miúdos. Enquanto sentir que tenho ritmo, pulmão e surf para me bater com eles, sim, vai ser até não dar mais.

Será que vais sentir falta?
Do convívio, sem dúvida, porque acabas por juntar malta do Porto, do Algarve, da Ericeira, pessoas que não vês tantas vezes, que se juntam ali e acaba por ser uma galhofa durante três dias. Mas, pela competição por si só, se calhar não. Ou, talvez, continuo a ir aos campeonatos, mas não compito. Vou curtir, vou ter com os meus amigos e vou ver.