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Nuno é português, juiz de surf e vai estar nos JO a avaliar os melhores. Diz que surfa com eles, mas mantém a distância para ser “credível”

Começou a avaliar e a dar notas a ondas surfadas por outros em 2002 e, oito anos depois, estreou-se em provas da World Surf League, em Peniche. Nuno Trigo foi um dos quatro juízes da entidade escolhidos para os Jogos Olímpicos de Tóquio e, à Tribuna Expresso, contou como é estar 150 dias por ano a viajar pelo mundo, a ajuizar os melhores surfistas nas melhores ondas - entre as quais, a de Jeffreys Bay, na África do Sul, e Cloudbreak, em Fiji, as suas preferidas -, e, às vezes, a partilhar essas ondas com eles. Embora, em competição, faça sempre por garantir as distâncias: "Não só para manter a credibilidade, mas para não mostrar preferências, porque elas não existem"

Diogo Pombo

D.R.

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Estavas à espera de ser nomeado como juiz para os Jogos Olímpicos?
Para te ser sincero, sei, de forma oficiosa, desde fevereiro, mas recebi a notícia como se fosse agora. Na altura, foi um enorme prazer e uma enorme surpresa, que me deixou orgulhoso e super contente. Receberes um convite deste género, para participares nos Jogos Olímpicos, principalmente quando tens uma modalidade como o surf, que faz parte do programa olímpico pela primeira vez, é história. É uma alegria imensa.

Sendo juiz residente da WSL, não estavas, de certa forma, à espera disso?
Não, e vou-te explicar porquê. A ISA [Internacional Surfing Association] está à frente da seleção dos juízes e foi feito um acordo com a WSL, a propósito de eles também poderem ceder os seus atletas, com quem têm contrato, para entrarem nos Jogos Olímpicos e representarem os seus países. A ISA e a WSL chegaram também a um acordo com os juízes, no qual a ISA ia escolher uma série de juízes seus e dos painéis da WSL. Mas todos nós tivemos de nos submeter a uma seleção e a avaliação rigorosas, com métricas muito apertadas. Essa pré-seleção, ou avaliação neste caso, foi efetuada num dos campeonatos da ISA. Podia ser o World Surfing Games, ou então um campeonato mundial júnior, que eles organizam, onde estiveram presentes juízes da WSL e da ISA. Fizemos o nosso trabalho, que foi avaliado, e depois tomaram uma decisão. O acordo foi: entre os sete juízes sentados nos Jogos Olímpicos a dar notas, mais os dois juízes de prioridade, haverá quatro que pertencem à WSL. Ou seja, dentro dos que foram avaliados, eu fui um dos quatro escolhidos, o que é maravilhoso e um orgulho tremendo.

Vocês são informados quando estão a ser avaliados?
Estamos sempre a ser avaliados. O nosso sistema de pontuação tem um tablet, em que toda a informação é compilada numa base de dados e, no final, tens acesso a uma estatística que avalia a tua performance, relativamente às notas que dás e a uma série de outros indicadores. Quando estás num campeonato estás sempre a ser avaliado, não só pela tua postura, mas, acima de tudo, pela tua performance enquanto juiz.

Mas quais são os parâmetros que se avaliam? Conta a rapidez com que se dá uma nota?
Penso que não, até porque tens o teu processo mental normal de observares, fazeres a tua análise e a tua comparação. A avaliação no surf não é nada mais, nada menos, do que avaliar, comparar e separar. Cada um de nós tem processos diferentes e penso que a rapidez não é um dos fatores que entra em linha de conta. Mas, como é óbvio, há ali um espaço temporal em que fazes a tua reflexão e dás a tua nota comparando com as que já existem, procurando criar uma separação suficiente para teres um resultado correto nesse heat.

O que faz um bom juiz de surf?
Existem uma série de características. A confiança e a segurança do juiz; a atenção e a concentração; capacidade de memória; e a atitude e a postura. Este conjunto é fundamental para se criar um ótimo juiz.

Falas em memória. Isso é para te lembrares as ondas que um surfistas fez, no mesmo heat, para as poderes comparar?
Obviamente, a memória tem a ver com isso, com a capacidade de te recordares de todas as ondas do heat para, depois, poderes fazer comparações com todas elas. Conforme forem sendo surfadas novas ondas, tu vais comparando com as que já foram surfadas nesse sítio.

Isso tudo em 10, 15 segundos.
Não só comparas dentro do heat, que é o mais importante para obteres o resultado, mas também trazes referências de ondas que já foram surfadas antes, para manteres uma consistência na escala.

Já tiveste alguma branca?
Claro, sem dúvida. Normalmente, tens sempre duas formas de atuar nessas situações. Uma, no computador, permite-te pôr um "M" de missed wave, quando falhas uma onda, ou então pedes ajuda ao chefe dos juízes e nos campeonatos com mais suportes tecnológicos tens sempre acesso ao replay. Então, se por alguma razão tiveste a fatal branca, tens sempre oportunidade de rever a onda para teres uma ideia concreta do que foi a performance do atleta.

Levaste broncas por causa disso?
Vamos lá ver, não é uma bronca, mas pode haver momentos em que és chamado à atenção por uma ou outra decisão que tomaste. Isso acontece em qualquer emprego, com algum comportamento ou atitude que foge ao que é a estratégia, ou técnica, de julgamento. É normal. Obviamente que todas essas chamadas de atenção são no intuito de não voltares a errar e melhorares a tua performance.

É necessário que um juiz seja surfista para estar nesta profissão?
É fundamental. Acho que tens de praticar para entenderes o grau de dificuldade da execução das manobras e da forma como o critério está exposto. Para perceberes a essência do surf tens de o praticar, não há dúvida nenhuma. É um dos fatores principais para chegares ao topo da carreira. E, cada vez mais, seres um bom ou excelente praticante. Hoje em dia, em termos de deteção de talento, o que procuramos cada vez mais são ex-surfistas que tenham estado já no mais alto nível, seja no circuito de qualificação ou até mesmo em provas do CT [Championship Tour].

No teu caso, como é que aconteceu essa transição?
A minha carreira é tal como a maior parte das carreiras dos juízes com a minha longevidade. Já praticava surf, tinha gosto pela modalidade e tenho ideia que corria o ano de 2002. Trabalho na Escola Secundária José Saramago, em Mafra, tinha e tenho um colega no departamento de Educação Física, o Michel Amaro, que tinha sido convidado para ser o chefe dos juízes no circuito nacional. Nessa altura, como fazia surf e já gostava, acompanhei o início da carreira dele, ao longo de dois anos. Ao fim desses dois anos, eu participava nos circuitos inter-sócios, do Ericeira Surf Clube, e existiu uma oportunidade de integrar o painel de juízes de uma das provas. O Michel Amaro sabia do meu gosto, perguntou-me se estaria interessado, convidou-me e disse imediatamente que sim. Foi nesse ano, 2002, que começou a minha carreira ao nível da arbitragem e do julgamento.

D.R.

Quanto tempo demoraste a chegar à WSL?
Para teres um enquadramento, em 2002 comecei nestes campeonatos e, nesse ano, também me estreei em provas do campeonato nacional. Em 2004, integrei os quadros da Federação Portuguesa de Surf e passei a trabalhar mais nos circuitos de formação e Open. Em 2005 foi quando julguei o meu primeiro campeonato a nível internacional, na altura ainda na ASP [Association of Surfing Professionals]. Fui progredindo, deram-me mais campeonatos, continuaram a apostar em mim, porque demonstrava qualidades e competências, e, em 2010, fui convocado para fazer o meu primeiro evento do CT, aqui em Peniche. É o ponto mais alto na vertente profissional da modalidade. Fiquei super feliz.

Estavas nervoso nesse dia?
Sim, claro. Apesar de ter vindo a progredir normalmente, desde os campeonatos mais baixos e com menor premiação, passando por provas mais importantes até chegar ao CT, geres sempre a pressão, que vai aumentando, porque o nível dos surfistas aumenta e a tua capacidade tem de acompanhar essa evolução. Quando cheguei ao CT, sentei-me para o primeiro heat e estava bastante nervoso. Posso-te confessar que até tremia quando estava a escrever a primeira nota no papel. O meu coração batia muito rápido. Tínhamos as duas coisas, escrevíamos a nota no papel e depois púnhamos no computador, ainda hoje acontece. Mas lembro-me perfeitamente desses primeiros momentos, em que o teu coração bate mais forte, toca a buzina para iniciar o heat e sentes logo essa ansiedade para fazeres o teu melhor.

Lembras-te de quem surfou nesse teu primeiro heat?
Não me recordo, disso já não tenho memória. Precisamos de uma boa memória para pontuar, mas disto não me recordo.

Tens alguma onda e alguns surfistas que gostes particularmente de ajuizar?
Em termos de ondas, temos uma que não é aceite como uma etapa do CT, que é Ribeira d'Ilhas, mas gosto muito de julgar essa onda. A nível internacional, há duas às quais acho particular graça e gosto imenso de julgar: Jeffreys Bay, na África do Sul, que é gémea da Ribeira d'lhas ou dos Coxos, onda que surfo normalmente e daí essa afinidade; e depois, é outra onda, para a esquerda, que é a Cloud Break, em Fiji. São as duas ondas que, na verdade, me preenchem em termos de julgamento.

Porquê?
Por conseguires avaliar e analisar na performance dos atletas todos os elementos que fazem parte do critério de avaliação.

Mas isso é porque te consegues ver a surfar nessas ondas?
Sim, a minha projeção mental é muito mais próxima, mas, além disso, na verdade consegues traduzir no desempenho dos surfistas todos os elementos que existem no critério, porque aquela onda permite expor todo o teu reportório e toda a tua variedade de manobras.

Comparando com Teahupo'o, por exemplo, que é das mais perigosas do mundo e permite que praticamente a única manobra possível seja o tubo.
Estás basicamente focado na manobra rainha do surf, sem dúvida. São ondas muito intensas pela profundidade a que a onda rebenta e pela formação da própria onda. Se me perguntares qual é o segundo patamar de ondas em que gosto de trabalhar, é claramente no Taiti, em Pipeline e inclusive em Supertubos, pela exigência, pelo grau de intensidade e pela dificuldade que essas ondas têm.

O tubo é a manobra mais difícil de avaliar, por esconder o surfista na onda?
Temos em conta diversos aspetos. Obviamente, a intensidade da onda e a forma como a abordas, após o take off, e a profundidade a que estás dentro do tubo, acima de tudo. Quanto mais profundo estás, mais técnica tem de ser a tua abordagem e mais consistente tens de ser nessa performance. O objetivo de qualquer surfista é estar o mais profundo possível dentro da onda. Tens que gerir a energia da onda.

D.R.

Já te aconteceu um surfista ir à cabine dos juízes refilar com uma nota?
É normal, ao longo da carreira de todos os juízes há esses momentos. O surf é uma modalidade que tem um critério mais aberto tem termos de avaliação. E quando tens heats próximos, entre vários atletas, uns juízes dão preferência ao desempenho de um atleta, outros dão preferência a outro, e, no final, depois das médias serem efetuadas, tem de haver dois que passam e dois que perdem. Normalmente, quando são heats apertados e existe alguma dúvida, os atletas ficam sempre a pensar que poderiam ter sido eles a passar. E, no calor da disputa e da competição, é normal que estes nervos todos que se acumulam possam ser virados para o julgamento.

Tens o hábito de falar com eles no fim?
Nas provas procuro manter a distância dos surfistas, não só para manter a credibilidade, mas para não mostrar preferências, porque elas não existem. Depois, no dia a dia, todos nos cruzamos dentro de água e aí temos conversas normais, de parceiros de mar, que partilham ondas e a paixão pela mesma modalidade. Acabamos por ter conversas de todos os âmbitos. Mas, quando estamos próximos num campeonato, tanto de um lado como do outro evitamos ter conversas para estarmos concentrados no que é a nossa função.

Tens tempo para ir para a água com os surfistas durante as provas do CT? Em lay days, por exemplo?
Efetivamente, as etapas do CT, pelo tempo de espera que têm, permitem-te, como juiz, estar a surfar com os melhores do mundo. A tendência natural, se houver mais oferta na zona do campeonato, é irmos surfar para uma onda que não seja a do campeonato, porque isto é como na Fórmula 1, ou em qualquer outra modalidade, em que os atletas precisam de treinar num campo específico. Se eles estão a treinar para o campeonato, normalmente deixamo-los à vontade, para poderem praticar ao máximo e apresentarem-se no topo de forma - isto se houver mais ondas. Se não houver, acabamos por ter de partilhar as ondas do campeonato, porque a paixão é muito grande também do nosso lado.

Eles reconhecem-te sempre dentro de água?
Ao nível do CT ainda consigo passar despercebido. Agora, quando são europeus, eles já nos conhecem. A minha carreira tem mais ou menos 15 anos e eles foram evoluindo comigo a julgá-los, por isso é normal que todos nos conheçamos. O mundo do surf é muito pequeno. Mas sim, partilhamos as mesmas ondas e, normalmente, todos se conhecem uns aos outros.

Ser juiz do CT implica muitas viagens ao longo do ano. És pai. Vais fazer isto durante muito mais tempo?
É um sacrifício grande em termos familiares. Nesse aspeto, tenho de agradecer à minha família e à minha mulher por todo o suporte que me têm dado ao longo destes últimos anos, e pela oportunidade que me têm dado para continuar a perseguir o meu sonho, a minha alegria e o meu gosto pelo julgamento e pelo surf. Mas a verdade é que passamos muito tempo fora, à volta de 150 dias por ano, entre quatro a seis meses. É preciso esse suporte muito grande e agora que tenho um rapaz mais novo, fica sempre mais difícil, apesar de as tecnologias diminuírem essa distância. É difícil olharmos para trás, pensarmos na família e sabermos que estão a fazer a sua vida normal e nós no outro lado do mundo, a trabalhar. Mas a paixão é tanta, o gosto é tanto, e eles compreendem essa paixão, que as coisas são conciliáveis. E como sempre me viram a fazer isto, já é uma situação normal.

Existe algum limite de idade para os juízes de surf?
Não há nada estipulado. Nas outras modalidades, penso que a parte física é limitadora, mas no surf, neste momento, ainda não existe um critério a definir a idade máxima de um juíz.

A que sinais do corpo vais estar atento, digamos, daqui a 15 anos, se ainda estiveres a ajuizar?
Agradeço o teu elogio, mais 15 anos, mas não me vejo a trabalhar mais 15 anos. Obviamente que os sinais teriam a ver com as características que referimos inicialmente. Por um lado, terias uma experiência grande acumulada para colmatar os défices que iriam acontecendo, ao nível da capacidade de concentração, de memória e até a visual, se for ver ao longe, mas creio que, normalmente, começamos por perder a visão ao perto. Mas pronto, também tens óculos que podem compensar a situação. Acima de tudo, acho que as características que vais perdendo são ao nível da memória e da concentração, que vão diminuindo. E essas duas são importantíssimas na alta performance de um juiz.

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Quando a Liga Meo Surf arrancou, no fim de junho, deu a primeira prova de surf ao mundo pós-confinamento, na Figueira da Foz, onde Filipe Jervis chegou à primeira final nacional da carreira. Tem 29 anos, já deixou de fazer vida do surf de competição há muito e hoje tem-no como um hóbi, mas, quando soube que ia competir no <em>heat </em>decisivo, sentou-se no carro e começou a chorar. "Foi uma descompressão muito grande", confessa, em entrevista à <strong>Tribuna Expresso</strong>. Jervis <strong> </strong>olha para miúdos e faz-lhe "um bocado de confusão" que já pensem em competir: "não há nada pior do que teres 13 anos, não teres nível, mas seres 'obrigado' a entrar numa prova, porque os teus pais querem, e vais levar na pá constantemente". Começa, esta sexta-feira, a terceira etapa do circuito nacional, na Praia Grande