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Jesus é brasileiro

“O Jesus chateou-se por um jogador levar porrada e não cair. Depois, fez ele o exercício, atirou-se para o chão, gritou e disse: ‘é assim’”

Na semana em que Jorge Jesus pode conquistar o Brasileirão e a Copa dos Libertadores, a Tribuna Expresso avança com uma história por dia partilhada por quem com ele conviveu numa carreira longa. Esta segunda-feira, é o dia de Marco Ferreira, que foi treinado por J.J. no Vitória de Setúbal. Diz que é, sem dúvidas, “um dos melhores do Mundo”

Marco Ferreira, depoimento recolhido por Alexandra Simões de Abreu

Phil Cole

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O Mister Jorge Jesus? Tive a felicidade de ser treinado por grandes treinadores. José Mourinho (omelhor do mundo), Fernando Santos, Ronald Koeman, Radomir Antić, entre outros. Na verdade o mister J.J. é sem dúvida um dos melhores do mundo. Só quem trabalhou com ele sabe o seu verdadeiro valor, todos os jogadores ficam muito mais completos depois de trabalharem com ele.

Até a maneira com se anda dentro de campo muda. A maneira como treina, a forma como olha para o jogo, a preparação do mesmo é completamente diferente dos outros, nada do que faz é copiado, sai tudo da cabeça dele, como pensa e vê o jogo. A partir daí, vê os jogadores que tem e adapta as suas ideias, nunca deixando de lado a parte tática que é fundamental para a maneira como ele vê o jogo. Um jogador pode ter mais ou menos qualidade, mas taticamente tem de estar disponível para correr e pensar o jogo.

Três anos da minha carreia foram vividos diariamente com ele, tenho muitas histórias com ele, nem todas podem ser contadas porque envolvem outras pessoas também e não tenho o direito de falar sem a sua autorização. Mas, pronto.

Num desses treinos, e como ele é muito ativo e interventivo, aconteceu algo que demonstra isso mesmo. Estávamos a fazer um treino taticamente por setores, ataque e defesa, com intensidade, onde a linha de cinco que defendia tinha que reduzir o espaço em relação a bola e aos adversários, enquanto os atacantes trocavam a bola lateralmente com alguns passes frontais para a referência da frente no ataque e que devolvia a bola novamente para trás, até encontrar espaço para entrar na área para finalizar.

Num desses movimentos, o atacante entra na área para finalizar, acaba por levar uma grande porrada na perna; não cai e nem consegue finalizar a jogada. Vem o mister a correr aos gritos, dá uma dura no jogador e diz: “Aprende como se faz”. Então, o J.J. disse aos jogadores para repetir o lance, mas desta vez era ele o jogador que ia finalizar. Quando a bola entra nele para finalizar e o jogador fez falta, ele mostrou como se caía na área, dando um grande mergulho. Impressionante como caiu no relvado, parecia o Futre nos tempos áureos da sua carreira. “É assim oohhhh...”, dizia ele . Isto demonstra bem o quanto ele vive o treino e o jogo.

Outra vez, num estágio no Novo Hotel de Setúbal, estávamos a conversar e de repente diz ele: “No dia em que treinar um grande, porque vou treinar, e as feras trabalharem comigo, vão ser muito melhores e vamos ganhar tudo”.

Para finalizar conto mais uma. Num jogo contra o Gil Vicente, onde fiz três golos, e o mister já não era o treinador do Vitória de Setúbal, recebo uma mensagem a dizer: "Parabéns pelos livres que te ensinei a marcar”.

Resumindo, não fico admirado com o sucesso de J.J., era algo previsível para mim, só gostava de o ver treinar um grande clube na Europa, porque não o Real Madrid.