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Jesus, o Flamengo, candomblé e mandinga: as finais revelam faceta sombria do mister

O Flamengo disputa a Copa das Libertadores contra o River Plate. O que aconteceu em outras finais? Porque é que o paraguaio Oscar Cardozo deu um chega para lá em Jorge Jesus no Benfica? A Tribuna Expresso convidou o jornalista brasileiro Plínio Fraga para escrever sobre Jorge Jesus e o Flamengo com o tom, o sotaque e o ritmo certos do Brasilerão

Plínio Fraga, no Rio de Janeiro

Stuart Franklin - UEFA

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O treinador Jorge Jesus colocará à prova – na decisão da Libertadores da América entre Flamengo e River Plate em Lima no sábado – a “maldição”da final. Por duas vezes, chegou à decisão do título da Liga Europa e por duas vezes perdeu, em condições que podem ser vistas como cruéis.

O temor de que Jesus tenha sido amaldiçoado remonta à passagem do treinador húngaro Béla Guttman pelo Benfica, o clube português ao qual JJ levou por duas vezes à disputa do título da Liga Europa.

Bela Guttmann (1899-1981) foi um treinador de sucesso. Entre 1933 e 1974, dirigiu clubes na Hungria, na Romênia, na Itália, no Brasil e na Argentina, entre muitos outros lugares. Alcançou a glória em Portugal, dirigindo o Benfica, depois de passar pelo Porto, com o qual também venceu uma liga portuguesa.

Na equipe de Lisboa, ele tinha um dos melhores jogadores da história: Eusébio, o "Pantera Negra". Com o Benfica, conseguiu vencer duas Copas da Europa da época. Na primeira, em Berna em 1961, venceu o Barcelona. No ano seguinte, venceu o Real Madrid.

A controvérsia envolvendo o húngaro bicampeão nasceu no início dos anos 60. Embalado pelo sucesso, Guttman pediu um aumento salarial, que foi recusado pela direção do Benfica. Enraivecido, o treinador pediu demissão e praguejou: "Sem mim, o Benfica não ganhará uma taça da Europa daqui a 100 anos ou mais."

O Benfica disputou então oito finais europeias desde 1962 e perdeu todas as oito. Cinco da antiga Taça da Europa (1963,65,68,88 e 90) e duas da UEFA / Europa League (1983, 2013 e 2014).

No comando do Benfica, o português Jorge Jesus esteve muito próximo de conquistar um torneio continental duas vezes, nas temporadas 2012/13 e 2013/14. Foram campanhas que levaram o clube às fina is da Liga Europa, mas as derrotas para o Chelsea, de Rafa Benítez, e Sevilla, de Unai Emery, foram "doídas", como deixou claro o técnico na coletiva após o 5 a 0 sobre o Grêmio, que levou o Flamengo à grande decisão da Libertadores.

“É verdade que é minha terceira final muito importante. Já estive duas em que perdi, infelizmente. Não me esqueço. Uma nos pênaltis, outra aos 92 minutos. Vamos ter a terceira. Só perde e ganha quem chega. Entre a desilusão e a satisfação, há muita proximidade. Em Portugal, dizemos que vamos à final para ganhar. É assim que pensamos”, disse Jesus.

As decisões costumam revelar uma face sombria de Jorge Jesus. Em 2013, além de perder o título para o Vitória de Guimarães na Copa de Portugal, o então treinador do Benfica quase saiu aos tapas com o atacante paraguaio Oscar Cardozo.

O jogador empurrou o técnico quando os dois se dirigiam para o vestiário lamentando o terceiro vice-campeonato em 11 dias naquele ano.

Jorge Jesus saberá assim contornar à maldição das finais que o parece cercar?

Mandinga e Candomblé

Ex-treinador da seleção brasileira, João Saldanha (1917-1990) costumava dizer que, se maldição ou mandinga ganhasse campeonato, o torneio na Bahia, terra do candomblé brasileiro, só poderia terminar empatado.

Os adeptos do Flamengo não costumam ser menos míticos do que seus adversários tradicionais. Assistir a todas as partidas com a mesma camisa - ou até a mesma roupa íntima- torcer sempre com o mesmo grupo, no mesmo bar ou no mesmo setor do estádio, por exemplo, são decisões individuais que os torcedores tomam acreditando que possam influenciar no resultado do jogo coletivo - por vezes a quilômetros de distância do suposto torcedor que influenciaria o resultado.

Muitos dizem não acreditar em superstição, ao mesmo tempo em que alimentam crendices irracionais. Quando o Brasil venceu a Copa do Mundo de 1994, numa apertada disputa de pênaltis em que o craque italiano Roberto Baggio desperdiçou a última cobrança e assim encerrou um jejum de 24 anos de títulos mundiais, logo apareceu uma explicação sobrenatural.

O israelense Uri Geller, autodenominado vidente, explicou:
“Baggio errou o pênalti porque 70 milhões de brasileiros estavam usando seus poderes telepáticos contra ele” . Seria ótimo se fosse verdade, mas as copas do mundo paralisam o Brasil, e os poderes telepáticos já não funcionam há quatro mundiais.

Que poder telepático é esse? Se isso contar, o Flamento tem 40 milhões de torcedores acreditando que Jesus superará a maldição da final no sábado.

Para a salvação de Jesus, o futebol é um espaço profano em que a mística aparece mais como diversão do que como fé.

O sociólogo alemão Anatol Rosenfeld escreveu um clássico sobre o futebol brasileiro em 1956. Em “Negro, Macumba e Futebol”, ele afirma que o futebol configurou-se como objeto de culto, fator de transcendência e redenção.

Numa atividade esportiva em que tanta coisa depende da sorte ou do acaso, entende-se que os times procurem apoio nas esferas sobrenaturais irradiadas pela imensa carga de paixão das torcidas de futebol.

É como se essas forças manifestamente míticas trouxessem um estímulo benéfico à equipe e, ao mesmo tempo, ocasionassem um desfavor demoníaco ao adversário. A conclusão de Rosenfeld é que o efeito da superstição se dá mais nos torcedores do que no espetáculo.

"O futebol leva a uma catarse das massas, a uma descarga do ser animal –e a uma sublimação de tensões que contam, no Brasil, com uma abundância extraordinária de pontos de cristalização e de condensação".

Quando a mãe de Jesus morreu, de cancro em 1994, o treinador passou dez anos vestindo-se de preto, em sinal de luto. Assim, quando entrar em campo com a equipe do Flamengo em Lima, repetindo o fato preto qu e usa preferencialmente, Jesus sinalizará ainda ser um homem de fé, mas que no futebol precisa superar crendices e maldições porque tem um trabalho excelente a mostrar.