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Jesus é brasileiro

Jorge Jesus: "Sporting? No nosso tempo tínhamos mais qualidade. João Mário, William e Adrien eram o meio-campo da Seleção"

Brasil, Portugal, os três grandes, o Clássico do fim de semana: em entrevista à CMTV, Jorge Jesus correu toda a atualidade futebolística e diz que, neste momento, o título "é impossível" para o Sporting

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Rodolfo Buhrer

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Jorge Jesus é um homem feliz e transpira confiança. Mostrou isso mesmo na entrevista que deu à CMTV, na noite de domingo. Quando confrontado pela jornalista sobre as notícias que dão conta da possível saída do Flamengo de Reinier para o Real Madrid por 30 milhões de euros, Jesus não teve dúvidas: o seu atual jogador não pode sair por essa verba. Jesus recorreu mesmo ao exemplo do Benfica: "Reinier não pode ser vendido por 30 milhões de euros! Nisso o Benfica é espectacular: vende até jogadores até acima do seu valor. O Flamengo ainda não sabe valorizar os seus jogadores," considerou.

O mesmo Reinier voltou a ser tema de conversa, agora porque Jorge Jesus admitiu ter recorrido ao exemplo de João Félix para moldar o jovem avançado brasileiro. Quanto a Félix, Jesus não poupa nos elogios. "Do pouco que conheço está ali um talento, que vai ser um craque. É um miúdo equilibrado, se tiver um treinador que passe a explicar o talento que tem. Gostava de ter esse papel, claro. Com o Reinier, por exemplo, perguntei-lhe se conhecia o João Félix. Disse-lhe que o João tem um estilo parecido, mas que ele tem coisas melhores do que o João como, por exemplo, a capacidade de finalização. Mas também lhe disse 'Tu não sabes driblar, ele sabe'. Comecei a comparar coisas. Não tenho dúvidas de que será uma referência do futebol português", disse.

Em relação ao mais recente reforço do Benfica, Julian Weigl, Jorge Jesus aprova a contratação de um jogador que conhece bem: "É um grande jogador, já o defrontei pelo Sporting e pelo Benfica. É um jogador que na primeira fase tem saída de bola fantástica, não treme. Pode ter pressão que não treme. Tem ainda um defeito no jogo dele que terá de ser ensinado pelo treinador mas é uma aposta segura, não tenho dúvidas", disse o técnico do Flamengo. Questionado sobre o “tal” defeito que pode ser melhorado, o treinador português manteve o silêncio: “Não digo…”.

Lucas Uebel

Continuando na Luz, Jorge Jesus comentou também a situação de Fejsa e Samaris, dois elementos que perderam espaço no Benfica. O treinador do Flamengo deixou elogios a um e a outro: "O Fejsa tem alguns problemas físicos. Não pode treinar com muita intensidade, mas quando joga sabe fazer o primeiro médio defensivo da equipa. Com os anos tem perdido intensidade. Já o Samaris é muito inteligente. Fui eu quem o pediu ao presidente. É um jogador com intensidade muito alta de jogo. Quem lá está é que sabe as melhores opções, mas ele tem tudo para ser o primeiro médio defensivo do Benfica, mas se calhar há jogadores com mais capacidade lá agora...", disse o técnico.

Jesus deixou ainda uma revelação: "Quis levar o Samaris para o Al Hilal, falei com ele e ele disse que não queria, porque ia ser titular no Benfica... e foi! Os gregos têm essa facilidade de aprender o português. É um miúdo que se interessa. Dentro do campo era líder. Taticamente vê à frente. Joga na posição mais difícil, porque tem de ser ofensivo e defensivo”.

Avançando um pouco no trânsito da Segunda Circular, Jorge Jesus chega ao Sporting, o último clube que treinou em Portugal. Comentando a situação atual do clube e as hipóteses de chegar ao título, Jesus não tem dúvidas de que o Sporting está definitivamente fora da corrida pelo título nacional. No seu entender, os pontos de atraso para o topo são impossíveis de recuperar no campeonato português. Se fosse no Brasil, a situação poderia ser bem diferente.

"De certeza que o Sporting tem de alimentar a esperança do ponto de vista comunicacional, mas 12 pontos é impossível. No Brasil até teria possibilidades, porque lá perdes pontos muito facilmente. Aqui já não... Essa possibilidade não se coloca. Ainda por cima são duas equipas. O Sporting tem de continuar a sua caminhada e defender a 3.ª posição, porque terá o V. Guimarães e o Sp. Braga à perna. O Famalicão está ali por ser a primeira fase do campeonato. Ainda não os vi a jogar, mas com todo o respeito, é a primeira fase do campeonato e quando chegar ao final estarão lá em cima os cinco habituais," considerou.

Alexandre Schneider

Jorge Jesus analisou, nesta entrevista, o Sporting-FC Porto (1-2), admitindo que no seu tempo de treinador dos leões existia mais qualidade na equipa. Ao mesmo tempo, disse que os dragões também já tiveram melhores plantéis.

"Vi o jogo em casa. Os anos que estivemos no Sporting, tivemos três vitórias e um empate em casa. É o segundo jogo que vejo do campeonato português, vi ontem o V. Guimarães-Benfica. Continuam a ser duas boas equipas. Achei o Sporting... não direi com menos equipa, mas no nosso tempo tínhamos mais qualidade. João Mário, William e Adrien eram o meio campo da Seleção. O FC Porto já teve melhores equipas. O resultado do jogo? O FC Porto foi mais pragmático, com mais experiência, sabendo o que quer, ao contrário do Sporting, uma equipa jovem que quer fazer golo, mas não sabe bem como," afirmou o treinador do Flamengo.

"O FC Porto esteve melhor coletivamente. No Sporting destacaram-se alguns jogadores, o Bruno Fernandes, que normalmente leva a equipa às costas, mas para mim foi o Acuña o melhor. É um jogador muito competitivo. Fomos nós que o fomos buscar à Argentina. Também precisa de melhorar o aspeto emocional. Esteve muito bem e destacou-se naquele Sporting com algum valor acima dos outros," acrescentou Jesus.

Jorge Jesus voltou a deixar rasgados elogios a Bruno Fernandes, ainda que tenha apontado alguns defeitos ao médio do Sporting. "Tem crescido pelo talento que tem. É um jogador de um nível elevado, que tem de jogar numa equipa que ganhe títulos no país e na Europa. É um pouco como o Paulo [Futre], que deveria ter ido para o Real Madrid quando foi para o Atlético. Não soube escolher a equipa certa. É um jogador com dimensão muito boa. Ainda continua a ter defeitos que tinha comigo. Um capitão de equipa tem de ser mais equilibrado emocionalmente. Falávamos os dois sobre isso, ele tem de melhorar nesse capítulo. É um miúdo que gosta de aprender, é um excelente profissional. Acabava o treino e ficava a bater bola... Sempre teve paixão pela profissão e acho que não haverá um jogador por cá com a qualidade dele," comentou.

Já em relação à saída de Bas Dost, Jesus assumiu-se surpreendido com a opção do Sporting, não entendendo também como foi possível o avançado holandês ter perdido o faro pelo golo de uma temporada para a outra. Ainda assim, recordando a sua passagem pelos leões, Jesus considera que o avançado tinha um "feitio especial".

"Não dá para perceber como é que um jogador como ele deixa de fazer golos, como acham que perdeu valor de um ano para o outro. Mas às vezes há interesses económicos que se sobrepõem... Se calhar era muito caro, nisso estou de acordo. Mas quem está no futebol tem de perceber que se quer recuperar não pode olhar para o cifrão. Tens de investir nos melhores, porque é isso que te vai dar a recuperação depois. Tinha um feitio muito especial, gostava de ser acarinhado, de sentir que os colegas e o treinador tivessem uma palavra para ele. Era grande, mas era menino. Não sei se ao não jogar se desmotivou... Não faço a mínima ideia, mas que o Sporting perdeu um grande jogador, não tenho dúvidas nenhumas", disse.

ANTONIO LACERDA

Desafiado pela CMTV a escolher a melhor equipa da Liga NOS, Jorge Jesus assumiu uma postura “politicamente correta”, optando por não destacar um onze. Ainda assim, foi referindo alguns nomes.

"O Maximiano era do nosso tempo no Sporting e já achávamos que era um miúdo com percurso para jogar. Está a jogar mais cedo do que esperava. Do Benfica este guarda-redes parece-me muito ágil, que no ano passado deu alguns pontos.”

"No Sporting tens o Bruno Fernandes, que é influente, mas que no nosso tempo não era tão importante, porque tínhamos muitos bons jogadores. (…) O Benfica tem grandes jogadores também. Destaco o Rafa. É um jogador que me encanta, como outros que o Benfica tem. Como o Grimaldo, se bem que o melhor lateral esquerdo é o Alex Telles. O Acuña se continuar a lateral esquerdo será um dos melhores”, continuou.

"O André Almeida e o Ristovski foram dois jogadores que nós fomos buscar. O André Almeida começámos a adaptá-lo e quem o lançou como lateral foi o José Mota no Belenenses. Fomos para o Benfica e acabámos por trazê-lo de novo, depois de indicação também do scouting. Teve o percurso que teve e hoje é um jogador defensivamente completo. O Corona não conheço. O Ristovski é um miúdo que se perde taticamente. Quando o Sporting tem a bola tem movimentos que não deve ter, erros que cometia no nosso tempo. É muito forte fisicamente, está sempre em ritmo alto".

Sobre Coates e Mathieu, dois defesas que comandou no Sporting, Jesus deixou elogios. "Fui eu que pedi à direção e ao Otávio ambos os jogadores. O Coates não jogava, já o conhecia. Financeiramente podia vir emprestado. O Mathieu foi mais difícil, por ser mais conhecido. (…) São dois jogadores diferentes, um mais rápido (Mathieu) do que o outro. (…) Fez uns quantos livres comigo... mas o Bruno Fernandes não o deixa bater".

Jesus também deixa elogios à dupla de centrais do Benfica. "Ferro e Rúben Dias são dois miúdos com muita qualidade. (…) Têm um conceito defensivo que valoriza o jovem. Têm uma capacidade física importante. (…) Com o tempo, a cada ano vão aprendendo, com os erros que cometem - o Rúben tem cometido muitos, mas cada vez menos...

O técnico deixou ainda um desabafo em jeito de desejo: “Se os três grandes conseguissem segurar os melhores..."