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A miúda que tem mais recordes nacionais do que anos

Jogos Olímpicos

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Marisa Vaz Carvalho

3,2,1. Pum!

Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Corre, corre, corre… e salto. Finalmente a meta.

A cada prova há dez barreiras e 100 metros a separar Marisa Vaz Carvalho da meta. Quer sempre ter os melhores tempos. Aos 16 anos, gosta da rapidez ou não fosse os 800 metros a disciplina “menos favorita”, porque “demora muito tempo”, diz. Apesar das barreiras serem dos melhores resultados que alcançou, não é só delas que vive. Faz salto em comprimento, salto em altura, lançamento do peso e dardo, 200 metros, estafetas e provas combinadas. Ou seja, a Marisa faz quase tudo.

“Já tive atletas em todas as grandes competições internacionais, mas penso que nunca treinei uma atleta tão completa como a Marisa. Podemos andar a vida inteira a ter muitos bons atletas, mas nunca ter ‘A Atleta’ - todos os treinadores sonham ter um atleta desses. Pode ser que seja a Marisa”, comenta João Abrantes, o técnico que acompanha a barreirista desde dos 11 ou 12 anos.

Foi quando Marisa era “muito novinha” que o treinador percebeu a raça de atleta que tinha em mãos. Num dos treinos, ainda como iniciada, atrapalhou-se com a velocidade e tropeçou numa das barreiras. Caiu, ficou toda esfolada e a sangrar. Chorou com a dor e foi levada ao posto médico para ser assistida.

“Normalmente, quando há uma queda, desde que não seja grave, os atletas têm de voltar a fazer o exercício para não ganharem medo. Mas como era tão novinha e a queda foi tão aparatosa disse-lhe que o treino ficava por ali”, lembra João Abrantes.

Mas não era isso que Marisa queria. “Quero fazer outra vez”, disse. E fez. Foi para a linha de partida. Todas pessoas que estavam na nave coberta do centro de alto rendimento do Jamor pararam para olhar. Ela arrancou e correu sem parar, a uma velocidade ainda maior. “De tal maneira que quando ela terminou, e sem ser combinado, toda a gente espontaneamente desatou a bater palmas”, recorda orgulhoso o técnico. “Vi que tinha uma atleta com uma determinação enorme e com uma característica que é fundamental nas barreiras, a coragem”, acrescenta.

“Não para quieta. Ainda no outro dia estava a pedir-me para fazer o lançamento do disco”, diz a mãe, Teresinha Vaz, em tom de brincadeira.

Marisa com o treinador João Abrantes e a mãe Teresinha Vaz

Marisa com o treinador João Abrantes e a mãe Teresinha Vaz

Uma família de alto rendimento

Além de Marisa, também a mãe, o pai, o irmão, a irmã e o tio estão ou estiveram ligados ao desporto de alto rendimento. Há quase uma dinastia Vaz Carvalho no atletismo nacional (prepare-se, a lista é longa): Teresinha Vaz, a mãe, conquistou nove recordes entre 1983 e 1986 no lançamento do dardo; Joaquim Carvalho, o pai, internacionalizou-se e foi campeão nacional dos 400 metros barreiras, do decatlo e dos 400 metros; Teresa Vaz Carvalho, a irmã com 21 anos, já se sagrou campeã nacional do salto em comprimento e, ainda como júnior, atingiu uma marca que lhe permitiu ser considerada como a segunda melhor saltadora nacional de sempre, apenas superada por Naide Gomes; e José Carvalho, o tio, ficou em 5º nos 400 m barreiras dos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976.

Só o irmão, 29 anos, é que experimentou o atletismo e... não gostou. Foi no voleibol que encontrou a vocação. Jogou pelo Clube Voleibol de Oeiras e foi vice-campeão nacional.

“O desporto sempre foi um modo de viver. Se não tivesse o desporto, nem sei o que era de mim”, desabafa Marisa Vaz Carvalho.

Marisa com os pais e os dois irmãos mais velhos

Marisa com os pais e os dois irmãos mais velhos

Os pais nunca obrigaram os três filhos a praticarem alguma modalidade. O ambiente energético e desportivo que os abraçou desde os primeiros dias de vida foi o incentivo para os pequenos quererem praticar desporto. Marisa delirava a saltar à corda, a andar de patins, skate ou bicicleta. Mais tarde fez hipismo, golfe, basquetebol e surf.

Chegou a “treinar à séria” kickboxing. Nessa altura, a irmã mais velha já brilhava nos saltos e nas corridas. Muitas vezes Marisa ficava na bancada a assistir. Outras, descia à pista para umas brincadeiras. Convidaram-na a participar em algumas provas de atletismo. E ainda sem treinar, Marisa começou a ganhar.

“Estava na altura a fazer hipismo, mas não havia hipótese de apanhar uma e apanhar outra em locais diferentes, então começou a experimentar o atletismo. E nesta brincadeira foi ficando devido ao horário da mãe, que também era chauffeur. Já que uma estava aqui [no Jamor] não me dava jeito andar a fazer piscinas de um lado para o outro”, explica Teresinha.

Aos 12 anos, o atletismo entrou mais a sério na vida desta Esperança Olímpica. Começou a treinar duas vezes por semana, depois três e agora quatro. “Ainda com treinos bissemanais, fez logo marcas que nunca se tinham feito” conta a mãe orgulhosa.

Desde logo experimentou as várias disciplinas do atletismo, “pois distrai-se facilmente e só uma não iria chegar”. O primeiro amor de Marisa foi o salto com vara, pela altura e a velocidade. Talvez também pelos milésimos de segundo que ficava no ar a voar. “Era a coisa com mais adrenalina que havia e ela é uma miúda de adrenalina”.

Marisa Vaz Carvalho durante a infância

Marisa Vaz Carvalho durante a infância

“Sinto-me feliz e viva, ao contrário do que acontece na escola”, explica Marisa em tom de brincadeira. “É uma maneira de descontrair ao final do dia. É um hobbie levado a sério”, acrescenta.

O simbolismo das barreiras

Este sábado assinala-se o 16º aniversário do atual recorde nacional nos 100 metros barreiras (quando aconteceu, Marisa ainda não tinha completado um ano de vida). Desde 2000, ninguém conseguiu bater a marca dos 13,14 segundos impostos por Isabel Abrantes. A antiga atleta do Benfica foi a primeira treinadora da Esperança Olímpica e é casada com o atual técnico da jovem, João Abrantes.

“Espero que seja a Marisa a bater. Era simbólico e muito engraçado. Além disso, o recorde ficava em casa”, comenta o treinador e amigo da família Vaz Carvalho.

Há bem pouco tempo, a jovem atleta quebrou mais uma marca: é atualmente a detentora da melhor marca europeia de juvenis nos 100 metros barreiras. Foi em julho deste ano, em Tbilissi, na Geórgia.

Momentos como este não enchem a atleta de vaidade, dão-lhe mais vontade de fazer mais. Há algum embaraço no rosto de Marisa em falar dos feitos, prefere passar despercebida. Quando o tema de conversa é as vitórias conta pouco. “Orgulho-me te tudo o meu percurso. Não há nenhum momento assim tão acima”, diz apenas. No fim das contas, Marisa tem mais recordes (19) do que anos de vida (16).

O Comité Olímpico destaca as qualidades de Marisa nos 100 metros barreiras

O Comité Olímpico destaca as qualidades de Marisa nos 100 metros barreiras

Há vida além dos Olímpicos

Parecendo que não, com Marisa não há pressas. Desde cedo ficou claro entre os pais e o treinador que se iria deixar correr as coisas com naturalidade e sem pressões. Há ainda uma grande margem de progresso, tendo em conta que a jovem faz quatro treinos semanais e que poderá, com o tempo e a experiência, chegar aos nove. O objetivo imediato é conciliar a escola com o atletismo.

“Não é uma excelente aluna, é suficiente. Não posso exigir, tendo em conta a situação dela, que me traga para casa um 18 ou um 19. Agora, tem sempre de passar de ano”, afirma Teresinha.

Marisa vai em setembro para o último ano do secundário. Está em ciência e tecnologias. Quer seguir o ensino superior, não sabe bem qual o curso, mas a Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, parece ser o caminho mais provável. “Claro que quero ir para algo relacionado com o desporto”, diz.

Apesar de reconhecerem o prestígio de Marisa ser considerada uma “Esperança Olímpica” pelo Comité Olímpico Português, a equipa (porque é isso que a atleta, o treinador, e a família são), sabe que há muito a fazer. A mãe pede calma e lembra que ainda há muitos “ses” até 2020. O treinador teme que o mediatismo em volta dos Jogos seja motivo de pressões adicionais.

Além das barreiras, a atleta ainda dedica parte do treino aos lançamentos e saltos

Além das barreiras, a atleta ainda dedica parte do treino aos lançamentos e saltos

“Sobrevalorizamos um bocadinho. Para o ano há campeonato da Europa de juniores, será essa a prova mais importante. Daqui a dois anos, há o campeonato do mundo de juniores, então será essa a prova mais importante. Em 2020, no ano dos Olímpicos, essa será a prova mais importante. A carreira de um atleta é feita de tudo isso. Não podemos andar sempre sonhar de quatro em quatro anos como se nada existisse”, defende João Abrantes.

Chegar ao palco dos sonhos é cada vez mais difícil. No caso do atletismo, participar nos Jogos Olímpicos significa que o atleta está entre os 32 melhores do mundo na sua especialidade. E como podem estar presentes até três atletas de cada país, implica muitas vezes estar entre as 16 melhores nações do mundo.

“A nível desportivo, acho que é possível daqui a quatro anos estar nos Jogos Olímpicos. Acho que toda a gente que faz atletismo pensa nisso. O meu objetivo não é ganhar, é apenas ficar nas oito melhores. Acho que é possível conseguir... pelo menos estou a trabalhar para isso”, confessa a jovem atleta.

Até lá ainda há muito a trabalhar e muitos mais metros para pôr nas pernas. Tóquio está à espera de Marisa. Com mais uns aninhos... e mais uns recordes.