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Há 15 anos, Obikwelu correu 100 metros em 9,86 segundos. Esta é a história desse dia

Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, Francis Obikwelu surpreendeu a armada norte-americana e foi 2.º na final dos 100 metros. O recorde da Europa, que ali fixou, ainda hoje não foi batido. Tudo aconteceu há precisamente 15 anos

Lídia Paralta Gomes

ROMEO GACAD/Getty

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Francis Obikwelu sempre foi grande e só parou de crescer quando chegou aos 195 centímetros. Grande e rápido, tal como Usain Bolt, também ele um rapaz com precisamente 1,95 m. Ser tão alto traz vantagens para um sprinter, a passada longa e potente, por exemplo, mas custa mais a arrancar. E tal como Bolt em praticamente todas as suas corridas, também Francis Obikwelu, naquele dia 22 de agosto de 2004, em pleno Estádio Olímpico de Atenas, demorou a chegar-se à frente.

“Demorou” é sempre um termo curioso quando se está a falar de uma corrida que dura 100 metros e menos de 10 segundos. Mas aqueles 10 segundos, não nos esqueçamos, demoram quatro anos a preparar.

Foi só a meio da prova que a cavalgada de Obikwelu o fez chegar-se cada vez mais e cada vez mais à frente, até o deixar de cara para as medalhas. Ainda se jogou para a frente, o último dos recursos, e o relógio parou nos 9,86 segundos. Só parou mais cedo, um centésimo mais cedo, para o norte-americano Justin Gatlin. Prata para Portugal na prova rainha da velocidade, na prova raínha dos Jogos Olímpicos. Alguém esperava?

Faz esta quinta-feira precisamente 15 anos que Francis Obikwelu deu a Portugal uma medalha especial, à qual juntou um recorde da Europa que ainda hoje não caiu - Jimmy Vicaut, um francês de Bondy, a mesma comuna onde cresceu Kylian Mbappé, já o igualou duas vezes, mas é como se os deuses não quisessem retirar a Obikwelu uma marca que o atleta nascido na Nigéria começou a forjar quando em 1994 decidiu não voltar ao seu país após os Mundiais de juniores, que Lisboa então organizou.

Sem papéis e inventando nomes para não ser apanhado, Obikwelu trabalhou nas obras, no Algarve, até uma professora, já em Lisboa, lhe topar o talento e o aconselhar ao Belenenses, depois de Benfica e Sporting não lhe terem feito caso - os leões rapidamente perceberiam o erro e o ainda então nigeriano deixou Belém para começar a treinar-se com o clube de Alvalade. Mas antes disso, em 1996 sagrou-se campeão mundial de juniores dos 100 e 200 m, em Sydney.

Foi em Sydney, precisamente em Sydney, quatro anos depois, que começou um novo processo de mudança para Francis Obikwelu. Ainda a competir pela Nigéria, sentiu-se abandonado pela federação quando foi obrigado a pagar do seu próprio bolso uma operação ao joelho que havia contraído nos Jogos Olímpicos australianos.

Decidiu então que se tornaria português e foi já a competir por Portugal que se tornaria campeão da Europa dos 100m e medalha de prata nos 200m, em Munique.

TOSHIFUMI KITAMURA/Getty

Em 2004, chegaria o ano da glória olímpica. Falava-se de Gatlin, de Green, que era campeão em título, de Shawn Crawford, a armada norte-americana. E de Asafa Powell, o jamaicano dominador antes do jamaicano dominador se chamar Usain Bolt. Poucos falavam de Obikwelu, até Obikwelu baixar duas vezes a barreira dos 10 segundos no caminho para a final, em que foi o único europeu.

Há 15 anos, no final da prova, Obikwelu lembrava que não estava “pressionado, ao contrários dos outros atletas”.

“Só queria chegar à meta o mais rápido possível. Controlei a minha energia até à final, corri muito bem e o resultado agradou-me”, disse então, pouco depois de cruzar a linha de meta em segundo lugar. Diria também então que o segredo tinha sido não ter medo de errar, mas hoje, nas entrevistas que vai dando já com a sabedoria dos 40 anos e de quem foi pai há pouco mais de um, Obikwelu admite que talvez tenha errado e que talvez se tenha lançado cedo demais para a meta.

TOSHIFUMI KITAMURA/Getty

Não o tivesse feito e talvez estivéssemos aqui a falar do 15.º aniversário do título olímpico de Portugal nos 100 metros. Mas, numa prova tão instantânea e que dura pouco mais que um batimento de coração, também poderíamos estar aqui a falar da medalha que tinha ficado perto.

A prata foi mais que excelente, Francis.

Reza a história oral desses Jogos que já passava da 1h da manhã em Atenas desse dia 22 de agosto de 2004 quando Obikwelu chegou à aldeia olímpica, onde foi recebido por membros da comitiva portuguesa, mas sem grande alarido. Ainda não era tempo de festa e nem uma medalha na prova que todos querem ver nos Jogos Olímpicos fez Obikwelu perder o foco. Afinal de contas, dois dias depois começavam as eliminatórias para os 200m, onde o velocista português também chegaria à final, terminando em 5.º lugar.