Tribuna Expresso

Perfil

Jogos Olímpicos

O dilema do diretor clínico do COP perante a pandemia: “Os atletas tinham de treinar, mas eu não concordava. A pessoa vem em primeiro lugar”

E só depois o atleta. José Gomes Pereira, responsável máximo do departamento clínico do Comité Olímpico Internacional, revela à Tribuna Expresso a ansiedade dos últimos dias e o porquê da decisão do COI em adiar os jogos ter sido "um alívio": enquanto médico, queria os atletas protegidos como todos os cidadãos, mas enquanto médico dos desportistas, sabia que tinham de continuar a treinar, mesmo em que condições desaconselháveis

Lídia Paralta Gomes

José Gomes Pereira é diretor de medicina desportiva do Comité Olímpico desde abril de 2017

Nuno Botelho

Partilhar

"É um alívio, com certeza". É assim que José Gomes Pereira responde quando lhe perguntamos se não está mais descansado agora que os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados, presumivelmente para o verão de 2021. Porque Gomes Pereira, que trabalhou mais uma década no Sporting e é diretor clínico do Comité Olímpico de Portugal, é médico especialista em medicina desportiva, trabalha todos os dias com atletas. Mas também é apenas médico, um médico que trabalha com homens e mulheres.

E aqui é que começa o dilema.

"A minha função como diretor clínico do Comité Olímpico de Portugal estava a ser difícil nas últimas semanas porque em termos pessoais eu tinha a convicção de que não havia qualquer hipótese de organizar os Jogos Olímpicos em julho. Mas por outro lado tínhamos o Comité Olímpico Internacional (COI) a dizer que o calendário dos Jogos se iria manter. E mais, dizendo que os atletas deviam continuar a sua preparação", começa por contar-nos, lançando de seguida a questão: "Como é que eu vou gerir a minha situação de médico e como vou gerir a minha situação de médico dos desportistas? Porque se lhes dizem que vai haver Jogos Olímpicos, eles têm de treinar, mas eu não estava de acordo que eles treinassem, porque eu acho que eles deviam adotar as medidas que qualquer cidadão adotou. Ou seja, a pessoa em primeiro lugar, o atleta em segundo".

Até o Comité Olímpico Internacional não ter tomado a decisão de adiar os Jogos, os médicos que acompanhavam os atletas viviam “nesta dicotomia, nesta grande dificuldade que era por um lado preservar os atletas e exercer as funções de médicos mas por outro ter de garantir algumas condições de treino”. Gomes Pereira diz que nesse aspecto prevaleceu sempre, e em primeiro lugar, a saúde dos atletas.

Nuno Botelho

O dilema terminou aí e Gomes Pereira diz que a decisão do COI é “muito bem-vinda”. Até porque toda a situação estava a criar inquietação nos próprios atletas: “É óbvio nestas semanas em que isto durou houve alguma ansiedade nos atletas e alguma dificuldade nos médicos que davam apoio a esses atletas. Eu como diretor clínico do COP senti essa dificuldade”.

“Foi o facto do Comité Olímpico Internacional ter decidido adiar os Jogos - embora de uma forma um pouco tardia, mas até se percebe porque há muitas coisas envolvidas - que nos retirou esta ansiedade e esta dificuldade que nós estávamos a ter para gerir esta situação. Porque os comportamentos que nós tínhamos de recomendar como médicos não eram compatíveis com a preparação desportiva de alto rendimento”, volta a frisar o clínico e professor universitário na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

Atletas preocupados

Como responsável máximo pelo departamento clínico do COP, Gomes Pereira diz que toda a incerteza em relação ao surto do coronavírus e à realização ou não dos Jogos deixou os atletas “muito preocupados”.

“Eu contactei com vários deles e conseguimos, em equipa, com os médicos das federações e clubes, ultrapassar a situação, preservando os atletas. Felizmente não foi necessário criar medidas excecionais para eles treinarem em tempo de crise”, diz. Até porque o treinar de um atleta que se prepara para uns Jogos Olímpicos “não é fazer exercício, não é fazer uma corridinha ao ar livre, um atleta de alto rendimento treina a sério, várias horas por dia, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, em lugares específicos”. E para isso, em tempos de pandemia, “não havia inequivocamente condições”.

Gomes Pereira acredita que as pressões por parte das comissões dos atletas dos diferentes países tiveram “um papel importante” para apressar o COI a tomar a decisão de adiar os Jogos. Algo que o COP há muito antecipava. “Desde os primeiros casos que manifestámos claramente a nossa suspeita de que era impossível organizar os Jogos Olímpicos. Pelo seguinte: mesmo que hipoteticamente no Japão estivesse tudo controlado e normalizado em julho, o que não é líquido que aconteça, como estará o resto do Mundo? E os Jogos são um evento mundial. Está é uma decisão que não poderia ser outra”, sublinha.

Agora, é preparar 2021.