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Covid-19. Rubén Limardo foi campeão olímpico em Londres 2012. Agora entrega comida na Polónia para sobreviver

O atleta venezuelano de 35 anos é um dos apenas dois campeões olímpicos da história do país. Mas a pandemia, que levou à falta de competições e de patrocínios, obrigou-o a tornar-se em mais um dos colaboradores da Uber Eats em Lodz, na Polónia, onde vive e treina há duas décadas

Lídia Paralta Gomes

TOSHIFUMI KITAMURA/Getty

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A história dos campeões olímpicos nascidos na Venezuela conta-se com apenas dois nomes. Na Cidade do México, em 1968, Francisco Rodríguez, conhecido como Morochito, foi o mais forte nos pesos pluma do boxe. E em 2012, Rubén Limardo conseguiu o ouro em Londres, na esgrima, na disciplina de espada.

Ainda assim, a glória olímpica não significa necessariamente uma vida sem dificuldades e, aos 35 anos, o atleta venezuelano, que tem ainda no currículo duas medalhas de prata em Mundiais, em 2013 e 2018, viu-se obrigado a tornar-se entregador de comida ao domicílio em Lodz, na Polónia, onde vive e treina há 19 anos. Fê-lo para sustentar a família e ao mesmo tempo conseguir trabalhar para estar nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021.

Num ano em que a pandemia deu a volta à vida de muitos atletas que esperavam estar em Tóquio no verão, a falta de competição e de patrocinadores deixou Limardo sem outra opção, depois de pagar as viagens da mulher, dos dois filhos e do irmão da Venezuela para a Polónia, no início da pandemia.

“Custou-me muito trazer a minha família e tinha de produzir. Os meus filhos não tinham roupa de inverno, precisam também constantemente de pediatras”, disse o atleta à CNN, depois de na última semana ter exposto a sua situação nas redes sociais.

Limardo pelas ruas de Lodz a entregar comida

Limardo pelas ruas de Lodz a entregar comida

WOJTEK RADWANSKI/Getty

Porta-estandarte da Venezuela nos Jogos do Rio de Janeiro há quatro anos, Limardo diz que escolheu este trabalho porque lhe permite continuar a treinar para o seu grande objetivo: repetir daqui a nove meses no Japão o título olímpico que conquistou em Londres.

“É um trabalho que não me atrapalha os treinos e posso escolher a hora a que faço. Além que se adapta ao momento de pandemia que estamos a viver”, disse.

Além de Limardo, há vários outros atletas da seleção venezuelana que vivem e treinam em Lodz, num centro de esgrima fundado pelo tio de Rubén, Ruperto, também ele um antigo atleta da modalidade. E quase todos foram obrigados a arranjar trabalho, até porque da Venezuela, país há muitos anos em crise, os apoios que chegam ao nulos. Durante os treinos, amontoam-se à porta do ginásio caixas e caixas verdes da Uber Eats que os atletas-estafetas usam para distribuir comida, uma segunda vida necessária para que o sonho olímpico continue vivo para estes desportistas.