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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Rikako Ikee ia ser uma das estrelas nos Jogos Olímpicos de Tóquio, até descobrir que tinha leucemia. Mas ela deu a volta por cima

Aos 16 anos, a nadadora japonesa foi finalista nos 100m mariposa nos Jogos do Rio de 2016 e em 2018 ganhou oito medalhas nos Jogos Asiáticos. Tudo indicava que ia brilhar em Tóquio 2020, mas em 2019 foi-lhe diagnosticada uma leucemia. Dois anos depois, e quando a sua cabeça já não estava sequer nos Jogos da sua cidade natal, conseguiu a qualificação. Para trás ficaram os duros tratamentos e uma recuperação que mereceu até um retrato do premiado realizador Hirokazu Kore-eda

Lídia Paralta Gomes

CHARLY TRIBALLEAU/Getty

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Os prodígios não são estranhos à natação. Michael Phelps chegou à sua primeira final olímpica aos 15 anos, em Sydney 2000, a mesma idade que Katie Ledecky tinha quando foi campeã olímpica dos 800m livres em Londres 2012. A húngara Kristina Egerszegi, ainda hoje a única mulher com cinco medalhas de ouro olímpicas em provas individuais, foi campeã olímpica pela primeira vez com 14 anos e 41 dias.

Rikako Ikee seguia por esse caminho. Aos 15 anos já batia recordes nacionais no Japão e era uma das 10 mulheres mais rápidas do mundo nos 50m livres. Nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, com 16 anos, foi 6.ª na final dos 100m mariposa e nos Mundiais júnior do ano seguinte ganhou sete medalhas, três delas de ouro. Nos Jogos Asiáticos de 2018 chegou às oito medalhas.

Tudo parecia caminhar para que a japonesa pudesse ser uma das figuras nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a cidade que a viu nascer em 2000, poucos meses antes de Michael Phelps se estrear nas piscinas olímpicas. Mas ainda antes da pandemia trocar as voltas ao mundo e adiar Tóquio 2020 para 2021, Rikako recebeu a pior notícia da sua vida: tinha uma leucemia.

Estávamos em fevereiro de 2019, Rikako tinha então apenas 18 anos e fez exames médicos depois de um estágio na Austrália. Na sua cabeça estava o objetivo de preparar os Jogos Olímpicos e bater o recorde mundial dos 100m mariposa da sueca Sarah Sjostrom, não passar os meses seguintes na cama de um hospital.

Jovem de 20 anos garantiu um lugar na estafeta 4x100m estilos nos Jogos de Tóquio

Jovem de 20 anos garantiu um lugar na estafeta 4x100m estilos nos Jogos de Tóquio

CHARLY TRIBALLEAU/Getty

Depois de 10 longos meses de tratamentos, a nadadora japonesa deixou o hospital em dezembro de 2019 e voltou a nadar em março do ano seguinte. Competiu pela primeira vez desde o diagnóstico em agosto. E mesmo com o adiamento dos Jogos de Tóquio para 2021, Rikako Ikee já olhava para Paris 2024: o sonho de estar nos seus Jogos parecia-lhe realisticamente impossível.

Até que chegámos aos campeonatos nacionais de natação do Japão, que decorrem até domingo e servem também de qualificação olímpica. E, quase sem contar, desafiando as melhores perspectivas para quem até há bem pouco tempo nem sabia se voltaria a uma piscina, Rikako Ikee viu cair-lhe nos braços um lugar nos Jogos, depois de vencer no último fim de semana a prova dos 100m mariposa, com um tempo que lhe garante a presença na estafeta feminina dos 4x100m estilos.

Mal tocou na parede, e com 57.77 segundos no quadro de tempos, Ikee não segurou as lágrimas, ela que ainda não está tecnicamente curada da leucemia, algo que só acontecerá se nos próximos cinco anos não tiver qualquer recaída.

“Lembrei-me de todos os momentos complicados pelos quais passei”, disse a atleta de 20 anos aos jornalistas depois da prova. “Pensei que voltar a ganhar era algo que só iria acontecer num futuro longínquo”.

Em fevereiro de 2020, pouco antes de recomeçar a treinar, Ikee relatou ao canal japonês TV Asahi o duro processo de tratamento que a deixaram num estado de desespero.

“Não conseguia ouvir qualquer barulho, não conseguia comer, nem ver televisão queria. Só queria morrer. Se eu não soubesse que tudo aquilo era temporário, não teria aguentado”, confessou a jovem recordista japonesa.

A viagem de Rikako Ikee da cama do hospital até ao regresso às piscinas foi também retratada num pequeno filme de cinco minutos realizado pelo cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2018 pelo filme “Shoplifters”. Nele surgem imagens da nadadora no hospital, em pleno tratamento, dos primeiros exercícios físicos e da primeira vez que uma ainda muito frágil Rikako Ikee salta praticamente sem forças para a piscina depois de ter alta.

A história de Rikako Ikee nos campeonatos japoneses pode não ficar por aqui. A nadadora já garantiu presença na final dos 100m livres, com o melhor tempo nas meias-finais, e vai ainda participar nos 50m livres. Em ambas as provas tem boas hipóteses de conseguir uma marca de qualificação olímpica.