Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Jogos Olímpicos
Pedro Roque

Pedro Roque

Diretor desportivo do COP

Qualificação terminada... que comecem os Jogos!

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Pedro Roque, diretor desportivo do COP, sobre o fim do processo de qualificação

Pedro Roque

Imagem da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016

NurPhoto

Partilhar

No passado dia 29 de junho terminou o mais longo período de qualificação da história dos Jogos Olímpicos. Desde 11 de maio de 2018, foram necessários 1.145 dias, mais de 3 anos, para se alocarem as mais de 11.000 quotas disponíveis para Tóquio 2020. Decididamente, este não foi um ciclo olímpico normal.

Com esta pandemia, que ditou o primeiro adiamento de sempre de uns Jogos Olímpicos, foi subitamente necessário reformular todo o processo de preparação e qualificação dos atletas. Gerir períodos de isolamento forçado, readaptando todo o processo de preparação em função de grandes restrições e de um calendário competitivo recheado de limitações e surpresas, com intermináveis adiamentos e cancelamentos das mais importantes competições. Um conjunto de desafios sem precedentes para o treino desportivo nas suas mais diversas vertentes, desde a área técnica e metodológica até às áreas científicas a ele associadas.

Contra todas as expectativas, uma das mais interessantes evidências deste período foi a forma como um número significativo de atletas conseguiu aproveitá-lo a seu favor, desenvolvendo áreas do treino e da sua vida pessoal porventura menos exploradas no passado, conseguindo prestações de maior qualidade do que no passado. Face à impossibilidade da manutenção das habituais rotinas diárias, este foi um tempo propício à reflexão e redefinição de objetivos, mas também à experimentação de novos métodos. Paradoxalmente, este quadro aparentemente tão negativo acabou por permitir a muitos deles reforçar a intrínseca vontade de treinar e competir, sem a qual pouco ou nada faz sentido para quem tanto se dedica à excelência no desporto.

Este foi também um período de intensa atividade formativa para os treinadores, com uma partilha de informação sem precedentes que permitiu, em muitos casos, elevar a qualidade da sua intervenção. Este período tem proporcionado uma reflexão metodológica, com o foco na gestão inteligente dos períodos preparatórios e competitivos, mas igualmente na importância dos períodos transitórios e de regeneração para a elevação da performance a médio e longo prazo, tantas vezes subestimada. Porventura, nunca tantos mitos sobre a preparação desportiva ao mais alto nível foram postos em causa em tão pouco tempo.

No final desta “maratona”, a nossa representação em Tóquio aponta para um total de 92 atletas, de 17 modalidades, salvo alguma realocação de última hora, o mesmo número de atletas e mais uma modalidade relativamente aos Jogos do Rio 2016. Atletismo (com 20 atletas), Natação (9), Canoagem, Judo (8), Ténis de Mesa, Vela (5), Ciclismo, Equestre (4), Triatlo (3), Ginástica, Remo, Ténis (2), Taekwondo e Tiro com Armas de Caça (1) são modalidades com histórico de participação olímpica e algumas delas já com medalhas conquistadas. Mas a inédita qualificação da equipa de Andebol (14), assim como as estreias absolutas do Surf (3) e do Skateboarding (1) deixam uma marca distintiva que, certamente, aumentará a amplitude do interesse do público nacional no maior evento desportivo do Mundo e nos nossos atletas.

Outra marca desta Missão corresponde à maior participação feminina nacional de sempre com 36 atletas, representando aproximadamente 40% do total de qualificados, mesmo considerando a presença da equipa de andebol masculino. Por outro lado, alguns jovens atletas que muito dificilmente se qualificariam em 2020, aproveitaram da melhor forma a oportunidade para anteciparam em 3 anos a sua estreia no maior palco desportivo do Mundo, prevista para Paris 2024, “refrescando” a missão com a sua juventude.

Aconteça o que acontecer, estes Jogos serão históricos e marcantes. É verdade que será uma edição com um número inédito e impensável de restrições para quem neles participa, o que, porventura, lhe retirará muito do glamour habitual. Certamente não serão os Jogos mais divertidos e serão tremendamente marcados pela Covid-19. Qualquer teste positivo poderá significar a não participação, o que obrigará à máxima vigilância de todos. Não obstante, mesmo considerando a dificuldade na sua organização e todos os riscos que estes Jogos encerram, minimizados em larga escala pela elevada percentagem de atletas vacinados, esta será, seguramente, uma das edições com maior significado da sua história, face ao quadro internacional que vivemos.

No plano desportivo, trata-se de uma grande oportunidade para os nossos atletas demonstrarem todo o seu valor. As suas prestações nos últimos anos dão-nos fundamentadas esperanças de uma participação portuguesa em Tóquio digna, à altura das expectativas e objetivos definidos. E apesar de ser compreensível que todas as atenções mediáticas possam estar centradas na conquista de medalhas, muitos outros objetivos são igualmente importantes, seja na conquista de diplomas (classificações até ao 8º lugar), posições de semifinalista (até ao 16º lugar) ou, na sua impossibilidade, a realização das melhores classificações ou marcas de sempre, quer pessoais, quer nacionais, em contexto de Jogos Olímpicos.

Estaremos de regresso às míticas madrugadas de apoio aos nossos atletas nos Jogos Olímpicos, à semelhança do que aconteceu no passado com os grandes feitos de muitos dos nossos maiores heróis desportivos. Essa vibração e esse apoio serão certamente sentidos a mais de 11.000 Km, na Terra do Sol Nascente.

Que comecem os Jogos!