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Tóquio 2020

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A história de Kokichi Tsuburaya, o homem que ganhou a medalha de bronze em Tóquio 1964 e que morreu a pensar que tinha desiludido o seu país

Mais de 70 mil pessoas no Estádio Olímpico, uns quantos milhões a assistir na televisão, todos a aplaudir o maratonista, nos Jogos Olímpicos de Tóquio 1964. Só que a ultrapassagem fácil pelo inglês Basil Heatley tirou a Tsuburaya a medalha de prata e o bronze não era suficiente para o atleta-soldado. Na maratona como na vida.

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Do lado direito, Kokichi Tsuburaya

Keystone

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O vencedor da maratona dos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, o etíope Abebe Bikila, correu descalço e bateu o recorde mundial. Em 1964, em Tóquio, Bikila repetiu o feito. Entre os atletas que o seguiram, havia um japonês de ar exausto e dorido. Chamava-se Kokichi Tsuburaya, era agricultor e soldado, e corria a sua quarta maratona. O terceiro lugar podia ser prestigiante numa fase em que o Japão recuperava das humilhações da guerra. Queriam provar que eram fortes, que a força mental podia ultrapassar a falta de talento inato.

De acordo com o “New York Times”, até aos dias de hoje, o caminho de Tsuburaya até à fama olímpica permanece um modelo para as crianças japonesas. No entanto, a sua incapacidade de atingir os padrões de exigência da nação nunca foi esquecida.

Das bancadas, choviam aplausos para Tsuburaya. Depois de Bikila e do inglês Heatley (medalha de prata) terem deixado o pódio, o japonês ainda ficou lá algum tempo, a absorver os aplausos do seu público, enquanto fazia vénias ao Príncipe presente no evento.

Por dentro, Tsuburaya ardia de vergonha. O problema: a ultrapassagem de Heatley, que lhe tirara a hipótese de chegar à medalha de prata. Para um soldado com o peso da nação sobre os seus ombros, deixar o segundo lugar fugir com uma ultrapassagem fácil do inglês era humilhante.

“Cometi um erro inaceitável em frente do povo japonês,” disse Tsuburaya ao seu companheiro de equipa, Kenji Kimihara, que terminara em oitavo lugar. “Tenho de compensar isto,” disse Kimihara, ao mesmo tempo que prometia a si próprio o ouro nos Jogos Olímpicos do México, em 1968.

Tsuburaya nunca chegou à Cidade do México. O esforço sem limites para recuperar a honra fez com que o seu corpo não aguentasse a carga brutal dos treinos. Em 1967, o japonês lutava contra uma hérnia discal, ciática e danos nos tendões de Aquiles, o que tornava inevitável uma cirurgia.

Para além disso, Tsuburaya tinha uma noiva, Eiko, mas foi impedido pelo seu superior olímpico de casar com ela antes do México 1968. Fiéis aos costumes, os familiares da rapariga temeram que ela não conseguisse casar cedo e arranjaram-lhe outro marido.

Tsuburaya, o agricultor-soldado-atleta, recebeu a notícia do seu pai, numa visita à sua terra natal. Ouviu a notícia, processou a informação, foi ao seu quarto e pegou numa lâmina. Antes de a usar, escreveu duas cartas: uma aos seus pais e outra ao Comité Olímpico Japonês, pedindo desculpa por não cumprir a sua promessa de vencer a maratona no México.

Sem hesitações, deixou o mundo dos vivos, em 1968.