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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Duplantis é capaz de saltar por cima de uma girafa. E de ser a próxima big thing do atletismo?

Armand Duplantis nasceu e vive nos EUA, mas compete pela Suécia, pela qual sempre lhe seria mais fácil qualificar-se para as grandes provas. Tem 21 anos, já bateu o recorde mundial por duas vezes (ascendeu aos 6,18 metros) do salto com vara e, em Tóquio, estará quase a competir contra ele próprio. Com 7 anos, ainda saltava descalço enquanto batia as marcas mundiais da sua faixa etária e treinava na pista que os pais lhe montaram no quintal. A Tribuna Expresso republica o perfil de Armand e atualiza-o no âmbito da série sobre os potenciais atletas-estrela a acompanhar nos Jogos Olímpicos de Tóquio

Diogo Pombo

Matthias Hangst/Getty

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A pessoa que caminhava no passeio, apavorada, apressou-se a tirar o telemóvel do bolso. Pegou-lhe, urgida pela imagem de uma criança, de fraldas e de tamanho demasiado diminuto para ser vista sozinha, quanto mais para trepar uma árvore no quintal dos vizinhos, e ligou para a polícia. Armand Duplantis ainda não tinha plena consciência do que fazia com a sua vida e começava a alarmar transeuntes, com a sua natural vertigem pelas alturas.

O instinto fazia-o olhar para cima e seguir o olhar com o corpo, na vertical, saltando com a ajuda de uma vara. E inclinava-o para coisas inusitadas na horizontal. Aos 7 anos, já dono dos melhores registos mundiais na sua idade, ainda corria e saltava descalço, porque isso lhe dava conforto, passando a cobrir os pés apenas quando os regulamentos o obrigaram a atacar o obstáculo como todos os outros atletas, calçado.

Mesmo que nunca tenha sido comum o contexto que sempre o rodeou, este jovem adulto banalizou a arte de correr com uma vara em punho e testar-lhe a qualidade dobradiça para se elevar nos ares, como se nada fosse. Duplantis parece estar a testar a gravidade contra ele próprio.

Em fevereiro do ano passado, fixou o recorde mundial nos 6.17 metros em Torun, na Polónia; coisa de duas semanas depois, em Glasgow, Escócia, bateu essa marca por um centímetro, também ao ar livre. O não barbado de olhos angulares nasceu em 1999, cinco anos após Sergey Bubka saltar 6.14 metros em pista coberta, outra marca que ultrapassaria em 2020, quando, em setembro, torneou o corpo para lá dos 6.15 metros em Paris.

Era um dos recordes mais antigos do atletismo, seguro por teias de aranha e batido por um moço então com 20 anos, ainda nem com idade de poder ter plenos direitos no país onde nasceu, mas pelo qual não compete.

Armand é produto de pai americano e mãe sueca, que escolheram viver em Lafayette, cidade no Louisiana, um dos estados que a América uniu. Greg, um advogado, também competiu outrora no salto com vara, e Helena, antes de ser uma personal trainer, dedicou-se ao heptatlo e ao voleibol. Vendo as aptidões e a apetência do filho, que as tinha em maior dose do que os dois irmãos mais velhos, igualmente desportistas, os progenitores quiseram aproveitar o quintal de casa.

O pai construiu, primeiro, uma pista com carpete de espuma a um canto do jardim, até o filho crescer e a família comprar, num leilão, uma pista de 38 metros - em competição, as oficiais têm 45 metros de comprimento - feita de madeira, alumínio e amortecimentos de borracha.

Armand podia treinar em casa e perto da ajuda dos pais, como descreveu uma reportagem do "New York Times", escrita o ano passado, mais ou menos na altura em que a elevação a que Duplantis chegava tornou insuficientes, e inseguros, o muro almofadado que ladeia a estrutura e o perímetro dos colchões que lhe amparavam as descidas à terra no quintal. Tinha 16 ou 17 anos e sobre ele já se diziam coisas como as proferidas por Earl Bell, bronze na modalidade nos Jogos Olímpicos de 1984: "Ele é o Tiger Woods do salto com vara. Nunca vimos algo assim".

picture alliance

Um elogio que se quantifica lembrando os imberbes feitos de Duplantis. Depois das histórias e curiosidades que são sintoma transversal a quase todos os humanos que têm um desmesurado jeito para um desporto em particular, ele, aos 16 anos, tornou-se o primeiro freshman (expressão americana para quem estuda no 10º ano de escolaridade) nos EUA a superar os 5,48 metros. Aconteceu em 2016 e também fixou um novo recorde mundial júnior.

Em 2017, num evento de pista coberta realizado em Nova Iorque, melhorou a marca para os 5,75 metros. Contextualizando, um miúdo de 17 anos, dentro de um corpo ainda a desenvolver-se e numa modalidade em que o pico atlético, por norma, se atinge aos 20 e muitos, já saltava para lá do atual recorde nacional português, que Diogo Ferreira definiu nos 5,71 metros, no mesmo ano.

Só que o atleta do Benfica estava com 28 voltas ao sol feitas, no suposto apogeu das aptidões físicas e acabaria os Europeus de atletismo no 14.º lugar, incapaz de superar os 5,51 metros em três tentativas. Já este ano, em julho, não saltou para lá dos 5 metros no primeiro dia dos Nacionais de atletismo.

Durante a tal final do salto com vara em 2017, Armand Duplantis descolou da pista para tentar chegar à altura de quase um prédio com dois andares), guiado pela sua cara concentrada, compenetrada e de aparente indiferença à pressão do momento. Saltou essa marca, caiu no colchão e até dispensou o último ensaio a que tinha direito. Antes de a competição terminar, porque ainda restavam ensaios a vários atletas, muitos adversários já o congratulavam pela vitória.

O ouro, mesmo que antecipado e ainda não garantido, era palpável por toda a gente.

Nessa prova em Berlim, um miúdo que era, simplesmente, um miúdo que três meses antes partilhava, no Instagram e com a cara mais adolescente, uma fotografia na qual surge vestido com o traje habitual de quem termina o ensino secundário, recebia os parabéns de adultos com uma vida feita no salto com vara - e de um tipo em particular.

Recebeu o abraço sorridente de Renaud Lavillenie, que lhe significou mais do que os outros. É possível que o francês, de 31 anos, seja o melhor saltador com vara de sempre, certamente um dos mais capazes da história. A altura mais elevada a que um homem subiu está nos 6,16 metros e ele fixou-a em 2014, quando já constava, há muito, nos pósteres que cobrem as paredes do quarto de Armand Duplantis.

O meio americano, meio sueco, cresceu a admirar e idolatrar o gaulês que, à sua semelhança, não tem um corpo medido para lá dos 1,81m. Portanto, são mais baixos do que é comum ver-se nos atletas da modalidade. Como se o incomum não fosse já parte da vida de Duplantis, que recentemente ganhou um contacto próximo com Lavillenie. Treinaram juntos, este ano, durante 10 dias, na mansão do francês, em Clermont-Ferrand, além das muitas chamadas telefónicas e mensagens, como a que dele recebeu antes dos Europeus: “Espero que tu e eu acabemos no pódio”.

ANDREJ ISAKOVIC

Foi na bancada do estádio olímpico de Berlim, já pleno campeão europeu com a medalha de ouro, em 2018, que Armand desvendou ter recebido esse tal sms. “Penso que não existem palavras, em qualquer idioma, que possam descrever o que estou a sentir. É um sonho tornado realidade, estou no topo do mundo”, disse, também, não equipado e de mochila às costas, embalado pelo som do hino nacional português que ecoava pelo recinto, por coincidir com o momento em que o pódio elevou Nélson Évora ao ouro, no triplo salto.

Armand Duplantis expressou-se num inglês calmo e eloquente q.b., entre um discurso que esperou uns segundos antes de arrancar, sinal de que na cabeça do jovem atleta havia ponderação e cuidado. Com sotaque americano, porque ele nasceu e cresceu nos EUA, mas vestido com o amarelo sueco.

Duplantis escolheu representar a Suécia porque tinha essa opção - e, provavelmente, para ‘fugir’ ao mais competitivo, concorrido e difícil sistema de qualificação americano para Mundiais ou Jogos Olímpicos, em que os atletas têm de almejar ficar entre os três melhores do país na sua modalidade, como resumiu o “New York Times”. Tendo o nível e a perícia que tem, competir pelo país da mãe, quem foi abraçar à bancada, seria quase um garante de estar presente nas principais competições de atletismo.

E, por arrasto, talvez uma assegurada luta constante por medalhas, seguindo o conselho que as palavras de Renaud Lavillenie, na zona mista de Berlim, parecem deixar. “Tudo mudou nas pistas com ele. Acho que nunca fiquei tão contente com a vitória de outra pessoa. Nunca um bronze me fez tão feliz”, exultou sobre ‘Mondo’, como Duplantis é alcunhado.

ODD ANDERSEN/Getty

No tempo que ainda é o tempo em que o atletismo está órfão e à procura de uma figura mediática, popular e icónica, como o era Usain Bolt (também) pela personalidade que tinha, uma das respostas poderá estar no salto com vara. E no fenómeno precoce que Armand Duplantis já é.

Mas, claro, não basta colocar um par de sapatilhas onde antes estavam as do jamaicano, todo ele um poço de carisma andante em qualquer pista sobre a qual caminhasse. É preciso preencher esse calçado e o pacato Duplantis, a quem os holofotes ainda encandeiam - apesar de ter a propulsão da Red Bull por trás, por exemplo -, poderia ser embalado por um ouro olímpico em Tóquio.

Há poucos atletas de pista a quem mais por adquirido se dará que venham a ter ao pescoço o mais precioso dos metais e o 2020 de Armand atesta-o. Nos Europeus de Pista Coberta deste ano, bastou-lhe saltar 6.05m para pendurar mais um ouro na sua carreira pululante. Foi a única prova em participou em 2021.

Será a primeira vez que o sueco mais do que americanizado participará nos Jogos Olímpicos, logo agora que "o mundo está diferente", redundou o próprio ao "WION", uma televisão indiana. "Consigo imaginar que será um encontro muito especial com pessoas e desportistas de todo o mundo", acrescentou depois, o tipo de resposta diplomática que o livrará de quaisquer problemas, mas, lá está, dificilmente o elevará nas nuvens carismáticas onde Bolt, um dia, prosperou.

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    Depois das cinco medalhas no Rio de Janeiro, em 2016, a atleta norte-americana chega a Tóquio para confirmar o estatuto de melhor ginasta de todos os tempos. Tem quatro gestos associados ao seu nome e já vai ensaiando uma manobra que nenhuma outra mulher fez em prova, a Yurchenko. Este texto é parte da série com que a Tribuna Expresso lança os potenciais atletas-estrela a acompanhar nos Jogos Olímpicos de 2020