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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Aterrar no Japão e entrar no Japão são coisas diferentes: notas de uma odisseia de cinco horas em que aprendi que há exercícios para salivar

Chegar a um país obcecado com regras e que em pleno estado de emergência vai receber dezenas de milhares de indivíduos vindos das mais exóticas (e também chatas) partes do Mundo é um desafio. Este durou cinco horas e meia, mais coisa menos coisa, desde que o voo LX 160 pousou no asfalto do aeroporto de Narita até ao momento em que efetivamente colocámos o pézinho em solo japonês. Houve muitas filas, sede, alguma fome, sustos e testes estranhos. Mas sobrevivemos

KAZUHIRO NOGI/Getty

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17h35: Mal os pneus daquele bicho de toneladas e toneladas de ligas de alumínio e aço aterrou e já sabemos que vamos entrar num complicado sistema de castas. Saem primeiro os passageiros da primeira classe, pois claro, mas dentro desses há uma casta superior, a dos não participantes nos Jogos Olímpicos. Japoneses e residentes no Japão, portanto, porque os restantes seres humanos não poderão entrar no país nas próximas semanas. Os que têm o chamado PVC, o Pre-Valid Card, que permite a entrada no Japão a todos os participantes dos Jogos, têm de esperar - a partir daqui seremos tratados como uma espécie de matéria radioativa.

18h02: A primeira fila não tem fim à vista e aparece praticamente no momento em que se deixa a manga de acesso ao aeroporto. O staff de Tokyo 2020 está atrapalhado e nervoso: são centenas de pessoas e não há cadeiras para toda a gente. Tento explicar que estive 12 horas a praticar contorcionismo num banco de avião, que sinto boa parte dos meus músculos contraturados e que estar um pouco de pé até me agrada. Sorriem, mas com aquele olhar de quem acredita piamente que está a prestar o pior serviço à face da terra.

18h45: Os atletas que vinham no voo passaram compreensivelmente à frente. Agora somos só nós, jornalistas, ainda no mesmo local da fila. Em plena era do digital, cada um traz na mão uma pastinha com folhas, muitas folhas. Certificados de testes à covid-19, QR Codes para o rastreamento, mais um par de declarações em que juramos que sejamos ceguinhos se vamos agora quebrar as estritas regras japonesas, que nos dizem por onde podemos ou não andar, o que podemos ou não fazer, até em que condições podemos ou não falar com pessoas na rua. Era suposto tudo isto ser feito numa aplicação, mas as boas novas da tecnologia não chegaram a toda a gente em tempo útil - e lá se vai a primeira ideia pré-feita sobre a suposta organização dos japoneses.

19h37: Já abandonei há pedaço a ideia de me manter de pé. Sento-me no chão, desconhecendo se estou ou não a quebrar alguma regra não-escrita no código de comportamento nipónico - algo me diz que sim. Já conheço de cor a alcatifa do aeroporto de Narita: é negra com umas risquinhas cinzentas, tudo muito simples e clássico - não são os japoneses os maiores seguidores daquela tendência de viver apenas com 150 objetos? -, não desconfortável para aguentar a espera, que nesta altura já vai em duas horas, quais Ponte 25 de Abril sentido praias em pleno agosto. Em todo o lado há sinais que nos lembram que não podemos beber ou comer 30 minutos antes de fazermos o PCR, que é só mais uma das etapas para entrarmos no país. Como ninguém sabe muito bem a que horas isso vai acontecer, curtimos a desidratação.

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