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Tóquio 2020

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Caeleb Dressel, um urso faminto nas águas de Tóquio

Dizem que é o sucessor de Michael Phelps. É rápido como nenhum outro e esperam dele nada mais, nada menos do que a excelência olímpica. E medalhas, muitas medalhas. Ele só quer nadar rápido. Este texto é parte da série com que a Tribuna Expresso lança os potenciais atletas-estrela a acompanhar nos Jogos Olímpicos de 2020

Hugo Tavares da Silva

Maddie Meyer

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Olham para ele como se olham os pormenores das esculturas inventadas por um génio qualquer, que deu relevo a um músculo do braço porque o mindinho está esticado. Dócil e discreto fora de água, feroz lá dentro. É mirado com espanto. Afinal, dizem que é o sucessor de Michael Phelps. É rápido como nenhum outro e esperam dele nada mais nada menos do que a excelência olímpica. E medalhas, muitas medalhas. Ele só quer treinar, nadar mais rápido e continuar a fazer a cama, uma das manobras que lhe permitem desbloquear a grandeza.

No braço esquerdo leva a Flórida inteira, é quase como uma bandeira. As laranjas, as flores de laranjeira e magnólia, a águia, o crocodilo e o urso, o seu animal preferido. Caeleb Dressel é também ele uma bandeira da natação norte-americana e, na ausência daquelas chapadas míticas de Phelps no lombo antes de cada corrida, é neste ‘floridiano’ que estão colocadas todas as fichas.

No horizonte do nadador de 24 anos, dizem os especialistas, está a vitória de seis ou sete provas nos Jogos de Tóquio. Se o fizer, se por fortuna e competência ganhar sete medalhas, vai imitar lendas como Matt Biondi, Mark Spitz e, claro, Michael Phelps.

Em entrevista à “GQ”, Dressel mostrou algum desencanto pelo “mundo das comparações” em que vivemos. “Não estou a dizer que estou ao nível do LeBron, mas isto é só um exemplo: há pessoas que comparam Michael Jordan e LeBron. Repare, eu vou ligar a televisão para ver o LeBron. Não quero saber se ele é melhor do que o Jordan. Ele é incrível no que faz. Porque interessa se ele é melhor do que o Jordan ou não?”, desabafou.

Caeleb Dressel só quer saber sobre nadar rápido. "É isso que gosto de fazer."

Tom Pennington

Aprecia os desafios que o desporto lhe coloca. Gosta de saber mais, não chega o que tem, e valoriza os duros ensinamentos que o treino traz. É “um pensador”, assim o define Gregg Troy, o treinador. O atleta confirma: “Eu posso fazer o exercício físico e ficar em forma, mas é preciso moldar o lado mental. Eu gosto de aprender. O lado bom da verdadeira perseverança é não poder ser parada por nada a não ser a morte”.

É por isso que vai enchendo de palavras dois cadernos, um que funciona como um diário, onde colocará pensamentos e emoções, e outro virado para a natação, onde regista treinos, a forma como nadou, como se sentiu, quem ficou à frente e onde avalia ainda o seu desempenho, conta a “GQ”.

As regras e as ações mundanas fazem parte da rotina. Por exemplo, apagou todas as redes sociais, com exceção do Instagram, onde só se permite estar 15 minutos por dia. Gosta de dormir oito horas e meia por noite e entende que atividades como fazer a cama, coisas pequenas e aborrecidas, permitem-lhe desbloquear a grandeza que tem debaixo da carapaça veloz. Talvez queira transmitir que a semente da disciplina, do foco e da insaciável mentalidade reside nas pequenas e supostamente insignificantes ações.

Dressel, nascido em 1996, até sabe o que é ganhar medalhas nos Jogos Olímpicos. Foi o que fez no Rio de Janeiro, há cinco anos, ao lado de Phelps, nas estafetas 4x100 livres e 4x100 estilos. Como a Tribuna Expresso já tinha contado, foi a ver a estafeta 4x100 livres de Pequim, em 2008, que a natação finalmente ganhou o coração do jovem Caeleb, que ainda sonhava em ser um receiver na NFL. Phelps iniciava ali a rota para a eternidade, ganhando as primeiras oito de 23 medalhas de ouro que tem guardadas em casa. No total, são 28.

Phelps e Caeleb, em 2016

Phelps e Caeleb, em 2016

NurPhoto

Antes dos Jogos no Rio, Dressel foi convidado para os Olympic Trials de 2012, com apenas 15 anos. Não se qualificou para os Jogos de Londres, mas o currículo acabaria por nunca sofrer de fastio. Em 2017, por exemplo, ganhou sete medalhas nos Mundiais de Natação. Foi em Budapeste: bateu três recordes nacionais e dois do mundo, e logrou conquistar num só dia três medalhas de ouro, algo nunca visto. Depois de tanto, no dia seguinte, o universitário Caeleb tinha à espera um exame de álgebra.

Em 2019, foram oito as medalhas nos Mundiais de Natação, a que juntou mais um recorde do mundo, desta vez de 100 metros mariposa. Os recordes já o acompanhavam desde a adolescência, já não se sabe bem quem persegue quem. Ele, apesar de tudo e de adivinhar as comparações com Phelps, como admitiu em Budapeste, mantém-se longe dos sedutores holofotes.

Bob Bowman, que treinou Michael Phelps durante a sua gloriosa vida olímpica, elogia o lado mental de Caeleb, que o próprio diz ser o melhor e o pior que tem, pois é implacável consigo próprio, quer sempre mais. “É um nadador tão dinâmico. A forma como salta do bloco. A corrida acaba assim que ele entra na água. É tão forte. Eu penso em poder quando o vejo a nadar.”

É um velocista das águas com cloro, e é por isso que suscita alguma desconfiança numa franja dos conhecedores da modalidade. Estará pronto para provas mais longas e exigentes? Ninguém sabe.

Só sabemos uma coisa: ele só quer nadar mais rápido.

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