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Tóquio 2020

Tóquio 2020

Jogos Olímpicos

Um dia de cada vez para ser melhor atleta, melhor médico e melhor pai. E dois anos para o próximo objetivo de Rui Bragança

O atleta do taekwondo chegou a Tóquio com o objetivo de melhorar o 9.º lugar no Rio, num ano em que se dividiu entre a qualificação olímpica, os treinos, os hospitais onde termina a formação de médico e outro emprego a tempo inteiro: ser pai de um recém-nascido. Perdeu ao primeiro combate, mas quer ir a Paris

Maja Hitij/Getty

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A nossa língua é tramada e às tantas chamaram um “Rui Bragantxa”, mas era mesmo Rui Bragança que se aproximava do tapete. Um beijo para a câmara, um olhar para alguém lá em casa, nestes Jogos em que não pode haver família nem amigos por perto. Ele até foi o primeiro a marcar pontos, um pontapé no peito do adversário, no taekwondo nem sempre é fácil perceber quando é ponto e quando não é, até para os próprios atletas, porque os fios elétricos que passam pelo colete e pelo capacete só dão sinal quando se bate com a força x naquela zona específica e às vezes um pontapé bem desferido é apenas isso mesmo, estética sem grandes efeitos práticos. Mas Bragança marcou, ainda dentro do primeiro minuto do 1.º round, estava tudo a correr bem.

Até que deixou de estar. Porque não tardou até o espanhol Adrian Vicente Yunta, um madrileno de 22 anos, se colocar na frente. No intervalo do 1.º para o 2.º de três rounds de dois minutos já estava 4-2 para Yunta e nem os berros de Kurt Cobain, a gritar here we are now, entertain us levantaram Bragança. No final, o 24-9 para Yunta, derrota logo ao primeiro combate, que não era o resultado esperado para o vimaranense. “Não estava à espera de perder, nem por um diferencial tão grande”, confessaria na zona mista do Makuhari Messe Hall A, uma estrutura indistinta a meia hora ou uma hora de Tóquio, “dependendo do trânsito”, diz-nos um dos incansáveis trabalhadores do centro de transportes dos media destes Jogos Olímpicos.

Vendo-se a perder, foi difícil ao português voltar a aproximar-se da diferença larga que Yunta ia construindo. “É claro que há sempre a opção de um KO, mas um KO no taekwondo a este nível é como um pontapé de bicicleta na Champions. O Ronaldo meteu um e quantos mais o fizeram?”, explica, em bom futebolês. “É quase isso. Ter de dar a volta a um resultado em que já estou a perder por 10 por 11 e aquilo que eu estou a tentar não sobe... aumenta a urgência e leva-nos a usar técnicas cada vez mais arriscadas em que, apesar de terem uma boa recompensa, o risco também é muito grande”.

JAVIER SORIANO/Getty

Melhorar o 9.º lugar do Rio era o objetivo de Rui Bragança e a derrota a abrir não era o fim, certo, mas quase. No taekwondo, o atleta que perde com o finalista ainda é repescado, mas na face do atleta do Benfica podia ler-se aquela informação quase fatal: o próximo adversário de Yunta era Jun Jang, coreano, filho da terra onde nasceu esta arte marcial e que por estes dias é líder do ranking mundial dos -58kg e campeão do mundo. Um par de horas mais tarde, eliminaria mesmo o espanhol e a esperança de Bragança num possível bronze.

Mais que um atleta

Em condições normais, Rui Bragança provavelmente nem se teria qualificado, numa disciplina em que apenas os 16 melhores da combinação de dois pesos chegam aos Jogos Olímpicos. Depois do Rio, Bragança deixou os -58kg e tentou os -68kg. Pode assim “tirar a barriga de misérias”, como escreveu recentemente num texto publicado nesta casa. A adaptação à nova categoria não correu como o esperado: voltou aos -58kg, geralmente uma categoria para atletas mais jovens. E é por tudo isto que é raro ver um atleta do taekwondo qualificar-se duas vezes para uns Jogos Olímpicos na mesma categoria de peso. E mais com a idade de Rui, 29 anos.

Arriscámos, ainda assim, a pergunta.

- “Tu és uma espécie de... não queria dizer…”

- "Veterano, não é?"

- "Não sei se te ias chatear"

- "Não não, não chateio nada! Digamos que sou dos mais experientes aqui"

Apesar da desilusão que se vê nos olhos azuis, Rui lembra o quão difícil é encontrar um lugar entre os 16 melhores que estão nos Jogos. “Por isso estar aqui duas vezes já é incrível. Mas nós não estamos cá só para o incrível. Estamos para tentar um bocadinho mais que isso”.

Mas incrível e um bocadinho mais que isso foi a linha da vida do atleta português nos últimos dois anos. Depois de voltar a um pódio num Mundial (bronze em Manchester 2019), apareceu a pandemia. Com a preparação para Tóquio parada, Bragança pegou no seu curso de Medicina, em pausa para se dedicar ao apuramento olímpico, e resolveu ajudar na Saúde 24. Voltaria aos treinos e resolveu avançar para o internato de formação geral. Pelo meio, soube que ia ser pai. Em maio qualificou-se para os Jogos Olímpicos, na mesma altura em que o filho nasceu.

E como se consegue conciliar tudo isto? Bem, um dia de cada vez.

“Não adianta pensar muito mais à frente. Temos de tentar tratar daquilo que podemos controlar. Durante este ano tinha de pensar todos os dias em como é que ia melhorar naquele treino para conseguir a qualificação. Depois de estar qualificado, como é que ia melhorar todos os dias para chegar aqui e estar no meu melhor. E como é que podia tratar do meu filho o melhor possível, como é que o podia ajudar a dormir, a crescer”, conta, não deixando de agradecer às equipas nos hospitais por onde passou.

“Estou a fazer o antigo ano comum e tive muita sorte. Tanto no Hospital de Castelo Branco como no Hospital da Senhora da Oliveira tive muita sorte com os meus diretores de serviço, que foram incríveis. Ajudaram-me a conciliar os treinos e a profissão e tenho de lhes agradecer”, frisa.

Na luta entre o taekwondo e a medicina, para já não haverá um vencedor claro. O adiamento dos Jogos de Tóquio abriu a Rui os horizontes de chegar a Paris 2024, até porque o apuramento termina já daqui a dois anos. “Acho que vou conseguir conciliar. Se faltassem quatro anos se calhar não, mas a faltarem dois anos é fazer mais um ‘forcinzinho’. Se o meu corpo aguentar como tem aguentado… eu estava melhor fisicamente para estes Jogos do que para o Rio e por essa ordem de ideias em 2024 estarei melhor ainda”, assegura o campeão da Europa em 2014 e 2016.

“Mantém-se o mesmo pensamento, um dia de cada vez. Mas continuar a tentar para estar em Paris”. Assim seja, Dr. Bragança.