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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Van Vleuten pensava que tinha vencido finalmente a prova de ciclismo de estrada e celebrou na meta. Mas o ouro era afinal prata

Sem rádio e com a austriaca Anna Kiesenhofer tão à frente, a holandesa Annemiek van Vleuten nunca sonhou que havia alguém para atacar, então não atacou. "Eu não sabia, eu estava errada. Eu não sabia", confessou no final da prova

Hugo Tavares da Silva

Tim de Waele

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O ataque começou a 50 quilómetros do fim da prova. Annemiek van Vleuten, uma holandesa que vai assinando ataques desta natureza, que mais parecem eternos, decidiu deixar aquela selva de borrachas redondas para trás.

Os olhos, os seus olhos, estavam no ouro, nas tais medalhas que têm a forma dos pneus da sua principal ferramenta. Tal como haviam estado em 2016, quando liderava a prova de ciclismo no Rio de Janeiro, momentos antes de uma queda violentíssima que a deixou imobilizada, curvada, entre o passeio e a estrada, com as árvores e o que se adivinhava uma brisa agradável a servirem de testemunhas.

Durante a fuga, que acontecia depois de uma queda que funcionava como um fantasma, van Vleuten manteve o ritmo, a distância. A 32 quilómetros do fim, a holandesa descolara do bloco onde viajava e, na cabeça dela, liderava a prova.

O problema é que, a cinco minutos, estava a austríaca Anna Kiesenhofer.

Sem rádio e com Kiesenhofer tão à frente, a ciclista holandesa nunca sonhou que havia alguém para atacar, então não atacou. Com 1.5 quilómetros para acabar, a vantagem de Kiesenhofer para Annemiek van Vleuten já reduzira para 2:10, mas nunca houve aquela aspiração a algo mais, pois havia desconhecimento de uma fuga que começara bem, bem lá atrás.

Tim de Waele

O que aconteceu na meta foi inusitado. Já depois de Kiesenhofer chegar, já depois de imaginar o ouro e aquela fita que segura o ouro a entrarem-lhe pela cabeça a dentro, já depois de se sentar, desfrutando o momento, dando descanso às musculadas pernas, chegou van Vleuten.

Estava sorridente, algumas lágrimas descobriram Tóquio. Aparentemente, até pela mudança da luz do rosto em pouco tempo, julgava ter garantido o ouro finalmente, sentindo quem sabe justiça pelo que lhe aconteceu há cinco anos, no Rio de Janeiro. Mais tarde, admitiria: "Eu não sabia, eu estava errada. Eu não sabia", confessou no final da prova, aqui citada pela Sky Sports.

A colega dela, Anna van der Breggen, medalha de ouro no Rio de Janeiro, explicou a situação. "Esta é, na verdade, a única corrida que fazemos sem comunicação, sem earphones. Tínhamos alguns ciclistas atrás e achávamos que íamos para a vitória. Mas não foi o caso. Deves começar a contar quantos estão atrás", admitiu, aqui citada pela Fox Sports.

"Foi confuso em diversas maneiras. Nós podemos ir ao carro de equipa para obter informação e vamos. Mas, no final, não o fazes mais."

Kiesenhofer, que se estreava em Jogos Olímpicos, terminou a prova de ciclismo de estrada em 3:52:45. Van Vleuten ganhou a prata e a italiana Elisa Longo Borghini, tal como em 2016, voltou a segurar o bronze.