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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

A força bruta que não vê a família há dois anos deu o primeiro ouro da história às Filipinas

Quando lhe falaram em ir aos Jogos de Pequim, em 2008, nem sabia que tal coisa existia. Mas, esta segunda-feira, à quarta participação olímpica, a halterofilista Hidilyn Diaz deu a primeira medalha de ouro às Filipinas, ao levantar 127 quilos, algo que nunca conseguira nos treinos pelos quais se sacrificou: não vê a família desde dezembro de 2019

Diogo Pombo

VCG

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As Filipinas são um país-arquipélago com centenas de ilhas e mais de 110 milhões de pessoas, mas, em quase um século de participações olímpicas, uma medalha de ouro era algo que jamais tinham conquistado. Em três tentativas e por um período de 12 anos, Hidilyn Diaz não conseguira ajudar nesta missão.

A halterofilista estivera em Pequim, em Londres e no Rio de Janeiro a levantar barras com muitos pesos brutos de cada lado, por alguma razão se conversa sobre este tipo de feitos com a expressão "força bruta" à mistura e o poderio da filipina, em treino, nunca lhe congeminou capacidade para levantar mais do que 125 quilos.

É mais do dobro do peso que Hidilyn Diaz tem no corpo (55 quilos) massudo, fortificado muscularmente para aguentar içar um haltere gigante sobre a própria cabeça.

A filipina agiu no incerto, ousou o insustentável porque fica mais difícil explicar o que não tem antecedentes, mas não é por nunca se ter tentado uma superação que ela vira impossível. "É inacreditável", talvez, como a própria suspirou em Tóquio, esta segunda-feira.

Hidilyn Diaz falou depois de arremessar 127 quilos no alto dos seus braços, de os deixar cair com estrondo no chão e de tapar a cara com as mãos, extasiada pelo feito inédito, quase incrédula com o primeiro ouro que acabara de garantir para as Filipinas - "estava à espera de ganhar, mas, quando fazes isto, é como, 'wow, nunca pensei que isto fosse acontece hoje'"

VINCENZO PINTO/Getty

Pouco antes de 2008, na primeira vez que alguém do Comité Olímpico Filipino lhe falou sobre ir a Pequim e contou de que evento se tratava, ela também nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Hidilyn Diaz tinha 17 anos quando competiu na edição chinesa, a mais nova halterofilista em prova. Praticava a modalidade desde os 11, ao perceber que era dona de mais força do que os irmãos, conta o "New York Times".

Hidilyn seria a porta-estandarte do país em 2012 e levaria a prata do Brasil, quatro anos depois, para saciar um jejum filipino de medalhas que durava desde 1924. Os mesmos, ou outros responsáveis do comité filipino, convenceram-na então a ir prolongando a carreira até Tóquio, crentes de que o primeiro ouro poderia vir da força bruta e dos halteres.

Para o fazer, Dias, de 30 anos e 158 centímetros, exilou-se em Kuala Lumpur, capital da Malásia - depois em Malaca - onde era suposto melhorar-se com melhores condições de treino e a pandemia a prendeu desde dezembro de 2019, escreve o "Times of India".

MOHD RASFAN/Getty

Esse o tempo que conta sem ver a família, o tempo que sacrificou para levantar 119kg, 124kg e 127kg, batendo dois recordes olímpicos pelo meio.

Durante todos esses meses, Hidilyn Diaz foi organizando sessões de treino online, angariando dinheiro para ajudar família carenciadas nas filipinas, enquanto se ia preparando para estes Jogos Olímpicos dentro de um apartamento ou num parque de estacionamento, quando os ginásios foram encerrados pelas restrições.

Agora que já fez a continência ao hino nacional e verteu lágrimas pela cara abaixo, a filipina só quer "desfrutar da vida" e regressar à Malásia para celebrar com os seus. A força bruta que é "o ganha-pão" da família, finalmente, vai poder descansar