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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Margie Didal, ou como o skate e o talento se tornaram no ganha-pão de uma família filipina de sete

Se em cada prova dos Jogos de Tóquio houvesse uma medalha que associasse espírito olímpico e simpatia, a filipina Margielyn Didal tinha ganhado o ouro na estreia do skate. A sua história de vida, boa disposição e carisma conquistaram todos, por cima do 7.º lugar em que terminou a prova de street skate

Alexandra Simões de Abreu

Patrick Smith

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A presença chamou a atenção. Calças largas e laranjas, boné com pala para trás, braço tatuado, cordões de ouro ao pescoço e skate na mão. A seguir vieram as manobras. Subiu e desceu rampas, deslizou em corrimãos, saltou por cima de escadas e fez rodopiar a tábua no ar, dezenas de vezes. Mas foi o sorriso fácil a mostrar sem vergonha o aparelho nos dentes, o andar gingão de quem está a divertir-se, juntamente com a alegria no levantar-se depois da queda, como quem goza consigo e com a vida, que fizeram de uma mulher que não parece ter saído ainda da adolescência, figura de proa na estreia do skate nos Jogos Olímpicos.

Em matéria de boa disposição, camaradagem e exemplo, Margie Didal, de 22 anos, subiu ao lugar mais alto do pódio e entrou no coração de todos num foguete. Riu para as câmaras, abraçou as adversárias, incentivou-as e deu-lhes os parabéns com uma autenticidade contagiante.

E o 7.º lugar que conquistou na estreia, em Tóquio, é para ela muito mais do que conseguiu imaginar, há 10 anos, na primeira vez subiu para cima de uma prancha com rodas.

Mike Egerton - PA Images

Tinha 12 anos quando, a caminho de um recado para a mãe, não resistiu em pedir aos rapazes da rua para a deixarem experimentar o skate. A curiosidade transformou-se em paixão no mesmo segundo, enquanto o óleo que foi comprar chegou atrasado às mãos da mãe, uma vendedora ambulante com dificuldades em sustentar a família, que já tinha uma fila de clientes à espera da sua comida.

Sobre a experiência, afirmou numa entrevista: "Parecia normal, como se estivesse a flutuar e isso era super fixe. E no mesmo dia, alguém tentou ensinar-me a fazer alguns truques e eu aprendi". Assim, simples, como são os dons que nascem sem darmos por eles.

Natural de Cebu, terra onde Fernão de Magalhães foi morto em batalha, depois de planear e comandar a primeira viagem de circum-navegação ao globo, Margielyn Arda Didal tornou-se também ela numa pioneira do skate feminino nas Filipinas, devido à sua ascensão estratosférica.

Passados uns meses a andar de skate já era melhor do que mais de metade dos rapazes com quem praticava na rua, entre eles Daniel Bautista, o seu treinador. Começou a praticar no parque Concave, com um skate emprestado, e embora esse skatepark tenha fechado, ela não desistiu e continuou a aperfeiçoar-se nas ruas e nos centros comerciais, obrigada a fugir ora da polícia, ora dos seguranças. Mas como ela já disse “faz tudo parte da emoção”.

Olhada de lado, como provavelmente foi Peggy Oki, em 1965, a primeira mulher skatista que fazia parte do grupo Z- Boys, na Califórnia, EUA, a jovem filipina começou a ser convidada para participar em algumas competições de rapazes. Um ano depois de ter experimentado um skate pela primeira vez, já era uma das melhores skateboarders de sempre de Cebu.

Das ruas de Cebu a ídolo nacional, num ápice

Filha de um carpinteiro e de uma vendedora ambulante, Margie percebeu cedo que o skate podia também ser uma forma de tirar a família da pobreza e hoje é o ganha-pão de casa. "O skate é divertido, mas só quero ajudar os meus pais. Somos uma grande família. Somos cinco irmãos, e estamos a ficar maiores", referiu há pouco tempo numa entrevista.

A entrada na cena internacional aconteceu nos Jogos Asiáticos de 2018, onde conquistou o ouro, seguido de novo ouro nos Jogos do Sudeste Asiático em 2019. Tornou-se na primeira filipina a aparecer em eventos globais de skate, como o Street League Skateboarding, em Londres, e os X Games, em Minneapolis. No início de 2020 foi bronze no primeiro Concurso Women's 2020 Tampa Pro.

A pandemia limitou-lhe os movimentos, mas sem nunca baixar os braços, Margie fez com o pai uma pequena rampa e alguns obstáculos em casa. Entretanto, com a ajuda de patrocinadores e do seu treinador, conseguiu construir uma pequena e privada instalação de treino, embora muito longe daquilo a que as suas concorrentes em Tóquio, têm acesso para treinar.

Além da força de vontade que é maior do que os seus sonhos, Margie mostra também uma astúcia e sensibilidade enormes para lidar com as redes sociais.

Muito ativa no Instagram, Facebook e Tik Tok, foi rápida em fazer circular um video em que aparece a fazer uma pequena coreografia com a medalha de bronze de Tóquio, a brasileira Rayssa Leal, de apenas 13 anos. Note-se que o Japão fez o pleno nas provas de rua de skate, com Momiji Nishiya, de apenas 13 anos, a converter-se na primeira campeã olímpica da modalidade.

Margie Didal não esconde que tem como objetivo usar seu perfil para criar um skatepark interior e público permanente e fazer crescer a onda de interesse pelo skate que o seu sucesso ajudou a criar.

Sendo uma dos dez atletas do programa escolar de solidariedade olímpica - uma bolsa de estudo criada pelo Comité Olímpico Internacional -, para dar aos atletas talentosos dos países menos favorecidos uma oportunidade igual de alcançar os Jogos e ter sucesso, embora haja um subsídio de formação envolvido, parte dos fundos para a bolsa de estudo podem ajudar a criar o tal primeiro skatepark nas Filipinas.

Classificada como a 14.ª melhor mulher de skate de rua do mundo, em 2018 Margie Didal foi incluída na lista dos adolescentes mais influentes da revista "TIME" - foi aliás a única filipina a aparecer na lista de elite - e no ano seguinte foi nomeada na lista da revista Forbes Ásia.

Sempre bem disposta, Margie usa o skate como forma de espalhar positivismo por onde passa, deixando a máxima: "O skate é a mesma coisa que a vida; não importa quantas vezes tu falhas, ainda assim levantas-te e segues em frente”.