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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Kimia Alizadeh é iraniana, mas lutou pela igualdade como refugiada. No fim, quase levou o bronze olímpico

Kimia Alizadeh tem apenas 23 anos, mas já é a autora de uma grande história de superação, que ficou muito perto da consagração nos Jogos Olímpicos de Tóquio. No torneio de taekwondo, a iraniana esteve muito perto da primeira medalha para a Equipa Olímpica de Refugiados (ganhando, pelo meio, à amiga que compete pelo país de ambas)

Rita Meireles

Maja Hitij

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No caminho para a medalha de bronze no torneio de taekwondo, a iraniana Kimia Alizadeh encontrou pela frente a turca Kubra Hatice Ilgun. A esperança de ver a primeira atleta da Equipa Olímpica de Refugiados vencer a primeira medalha era grande, mas a turca acabou por levar a melhor e, por apenas dois pontos, Alizadeh ficou afastada das medalhas.

O sorriso do final de outros combates deram lugar às lágrimas e a atleta acabou por nem dar entrevistas e seguiu diretamente para o vestiário. Kubra Hatice Ilgun venceu por 8-6, mas Alizadeh nunca virou a cara à luta.

Ainda assim, o percurso da atleta na competição fica para a história, até porque conseguiu algo que poucos achavam provável, ao eliminar a número um do mundo.

Alizadeh entrou em prova bastante forte e conseguiu vencer Nahid Kiyani por 18-9, no primeiro combate. Ainda assim, não foi fácil. É que Kiyani é também iraniana, mas principalmente é amiga e antiga colega de equipa de Alizadeh.

Além dos 66 iranianos com presença garantida em Tóquio para competirem pelo seu país, há mais quatro a competir pela equipa de refugiados, o que acabou por ditar a sorte das duas amigas, num combate onde a pressão foi maior.

Alizadeh pestanejou e já estava num outro combate de alta pressão, ao encontrar pelo caminho Jade Jones, da Team GB. A britânica é a número um mundial e foi a Tóquio com um objetivo de se tornar a primeira mulher a vencer três medalhas olímpicas consecutivas no torneio de taekwondo.

Ao início as coisas sorriram a Jones, mas no final foi a iraniana que levou a melhor. O placard ainda chegou a assinalar um empate (10-10), mas no final foi a vez de Alizadeh sorrir e conquistar os seis pontos que lhe valeram a vitória por 16-12.

Depois disso ainda enfrentou a russa Tatiana Minina, contra quem perdeu, o que a deixou com a possibilidade de no máximo chegar à medalha de bronze.

Kimia Alizadeh, em 2016, a celebrar a conquista da medalha de bronze com a bandeira do Irão

Kimia Alizadeh, em 2016, a celebrar a conquista da medalha de bronze com a bandeira do Irão

Laurence Griffiths/Getty

Kimia Alizadeh, que se descreve como “uma dos milhões de mulheres oprimidas no Irão”, fugiu do seu país natal e começou por se instalar em Eindhoven, nos Países Baixos. Passou ainda por Hamburgo, mas hoje em dia vive em Nuremberga, na Alemanha, com o marido. O que lhe permite viver do taekwondo é a bolsa entregue pelo Comité Olímpico Internacional (COI) aos integrantes da equipa de refugiados.

Até aqui já arrecadou títulos como o de campeã no mundial de juniores, em 2014, ou de vice-campeã no Mundial da Coreia do Sul, no ano seguinte. Além disso, venceu já uma tão desejada medalha olímpica: o bronze pelo Irão nos Jogos do Rio de Janeiro.

Foi, aliás, a competição que acabou por ditar a partida do seu país de origem. Numa publicação na rede social Instagram, Alizadeh referiu que as "mentiras, enganos, corrupção e manipulação" são o reflexo da experiência "exaustiva" que é o mundo do desporto no Irão.

A atleta que colocou as pessoas presentes no recinto, entre jornalistas e voluntários, a aplaudi-la no final de cada combate não venceu a tão aguardada medalha, mas é um lembrete para o mundo sobre a importância da igualdade de género e do apoio aos refugiados.