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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Chegar, ver um recorde do Mundo a cair, os Estados Unidos a sofrer e ainda ouvir Tchaikovsky no Centro Aquático de Tóquio

No dia que marca o fim da primeira semana dos Jogos Olímpicos, Tatjana Schoenmaker, sul-africana de 24 anos, foi a primeira atleta a conseguir um recorde mundial individual, num dia em que os Estados Unidos falharam medalhas de ouro e Rylov fez de novo soar o Concerto para Piano n.º 1

Harry How

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Encontrar a entrada no Centro Aquático de Tóquio é sempre um desafio, é preciso dar quase uma volta ao quarteirão, depois mais uma caminhada já dentro do perímetro e, o rebuçado no final, vários lanços de escada para chegar à bancada superior, já que a do primeiro andar está invariavelmente cheia.

Quando finalmente os corredores e as escadas acabam, o fôlego está mais em baixo que o de um nadador depois de fazer os 100m livres, mas esta sexta-feira nem houve tempo para respirar fundo e descansar, porque mal se olha para a água e aquela linha amarela digital que nos diz a progressão do tempo que é recorde mundial está a ser perigosamente comida na final dos 200m bruços por Tatjana Schoenmaker, sul-africana de 24 anos, que na véspera já havia batido o recorde olímpico da distância.

Nem deu tempo para sentar e foi mesmo ali ainda nas escadas que se viu a luta de Schoenmaker não contra as adversárias, irremediavelmente para trás, mas contra a tal linha amarela, que os nadadores dentro da piscina que não veem. E é por isso que a sul-africana nascida em Joanesburgo e que começou a dar as primeiras braçadas aos cinco anos, deve ter sido mesmo a última a saber que é dela o primeiro e até agora único recorde mundial individual batido nestes Jogos Olímpicos de Tóquio.

Mal tocou na piscina e viu-se a emoção nos olhos profundamente azuis, as duas cruzinhas minúsculas nas duas orelhas ainda a abanar. Schoenmaker festejava o título olímpico, o primeiro depois de ter sido prata nos 100m bruços há dias, mas o semblante só mudou para o absoluto êxtase alguns segundos depois, quando reparou que ao lado do seu tempo estava aquele selo amarelo com as iniciais WR, que antes deste dia tinha aparecido a última vez a Rikke Moller Pederson, já em 2013.

E o que se seguiu foi um bonito momento de unidade na piscina olímpica de Tóquio, com a norte-americana Annie Lazor, medalha de bronze, a ser a primeira a abraçar a adversária, quase tão entusiasmada quanto ela. Lily King, ouro nos 100m bruços há cinco anos no Rio, também se juntou, mas de cara um pouco menos sorridente, afinal de contas vai sair de Tóquio sem títulos individuais, o que não era de todo de se esperar.

Evgeny Rylov, o vencedor dos 200 costas

Evgeny Rylov, o vencedor dos 200 costas

Maddie Meyer/Getty

O ramalhete ficou completo com Kaylene Corbett, também ela sul-africana, que apesar do 5.º lugar foi juntar-se às congratulações à compatriota, que emula, ainda que apenas em parte, Penny Heyns, outra mítica nadadora da África do Sul e que é ainda hoje a única mulher a conseguir fazer a dobradinha nos 100m e 200m bruços, em Atlanta 1996 - e que estava na piscina a assistir à gloria da jovem Schoenmaker.

E ali ficaram, longamente, as quatro abraçadas.

Que se passa, Estados Unidos?

É possível que a primeira final do dia tenha dado o aviso que esta ia ser uma sessão difícil para os Estados Unidos no Centro Aquático de Tóquio. Ter atletas no pódio é bom, mas os norte-americanos não andam nisto pelas pratas e pelos bronzes e muito menos para verem atletas a não revalidar títulos olímpicos.

Já aconteceu com Katie Ledecky nos 200m e 400m livres e esta sexta-feira também Ryan Murphy, especialista em costas deixou escapar o título dos 200m costas para o mesmo homem que já lhe tinha roubado o título nos 100m, Evgeny Rylov.

O polícia russo de 24 anos colocou mais um prego na até agora meio deprimente apresentação norte-americana nas piscinas de Tóquio e no pódio ouviu-se novamente não o hino russo, banido destes Jogos Olímpicos devido ao escândalo de encobrimento de doping no país, mas sim o Concerto para Piano n.º 1 de Tchaikovsky. E aqui entre nós, apesar do hino russo ser bonito, Tchaikovsky numa piscina é mágico.

O dia de miséria dos Estados Unidos continuaria nos 100m livres, com o título a ir para a australiana Emma McKeon, com recorde olímpico (e a única americana em prova, Abbey Weitzeil, em último), e desgraça suprema, nos 200m estilos, a prova de Michael Phelps e Ryan Lochte, onde o favorito norte-americano Michael Andrew liderou toda a prova até aos 50 metros finais, quebrando muito e terminando em 5.º.

No Rio 2016, os Estados Unidos terminaram a natação com 33 medalhas, 16 delas de ouro. Neste momento, e quando faltam ainda duas sessões de finais, os Estados Unidos têm 24 medalhas, mas apenas seis títulos olímpicos. Nos próximos dois dias têm, no entanto, boas hipóteses de ouro com Caeleb Dressel nos 100m mariposa e 50m livres e com Katie Ledecky, nos 800m. Já a Austrália subiu o nível, com gente como Ariarne Titmus e Emma McKeon, e já tem seis ouros em Tóquio, face aos apenas três do Rio.