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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

O mundo torcia pela mamã Shelly-Ann Fraser-Pryce, mas foi Elaine Thompson a revalidar o título dos 100 metros em Tóquio

Shelly-Ann Fraser-Pryce foi campeã olímpica dos 100 metros em Pequim 2008 e Londres 2012. No Rio 2016, quando podia imitar o compatriota Usain Bolt e vencer pela terceira vez no hectómetro, uma lesão impediu-a de lutar pelo ouro. Em Tóquio 2020, poucos meses depois de fazer a segunda melhor marca de sempre na distância, procurava, finalmente, a história. Nunca nenhuma mulher havia conseguido três ouros nos 100 metros. Mas estava lá Elaine Thompson. E a também jamaicana colocou-se ela própria no caminho dos recordes

JEWEL SAMAD/Getty

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O Estádio Olímpico fica, de repente, em total breu. Do nada, ilumina-se apenas o hectómetro. As oito finalistas estão lá na ponta e o anúncio dos nomes das mulheres que vão lutar pelo título dos 100 metros é bastante impressionante, com os nomes e as caras das atletas gravados na pista, numa espécie de video-mapping adaptado ao atletismo.

Nas pistas 4 e 5 estão as favoritas, Shelly-Ann Fraser-Pryce e Elaine Thompson. As duas jamaicanas, as duas já campeãs olímpicas. O mundo, mais ou menos secretamente, torce pela primeira. Porque pode fazer história. E também pela sua história.

Mas vamos voltar um pouco atrás. Todos sabemos que era impossível resistir ao carisma de Usain Bolt. Não só foi o mais dotado velocista da história, o único a vencer os 100 e 200 metros em três Jogos Olímpicos consecutivos, como tinha aquela graça natural, a alegria genuína. Tornou-se rapidamente uma estrela planetária e o seu adeus à competição deixa estes Jogos de Tóquio visivelmente órfãos, sem herdeiro, seja no talento como na capacidade de entreter.

Mas agora que ele já não está cá, está na hora de deixarmos de ser injustos: enquanto Bolt nos prendia a atenção - pelas melhores das razões, note-se - talvez não tenhamos dado o devido carinho a Shelly-Ann Fraser-Pryce.

Nascida numa zona pobre de Kingston, capital da Jamaica, Fraser-Pryce corria descalça para a escola. Cedo se percebeu que era rápida e com 20 anos fez parte da estafeta jamaicana prata nos Mundial de Osaka, em 2007. No ano seguinte, também a oriente, chegou o primeiro título olímpico nos 100 metros, inesperado, com apenas 21 anos. Nos mesmos Jogos Olímpicos de Pequim em que Usain Bolt, que tem precisamente a mesma idade, se anunciou ao mundo. Em Londres 2012, voltou a imitar o compatriota com a vitória nos 100 metros. E no Rio, tal como Bolt, surgia com a hipótese de se tornar na primeira mulher a vencer três medalhas de ouro olímpicas no hectómetro.

Mas enquanto Bolt se despediu dos Jogos Olímpicos com mais um título nos 100, 200 e 4x100 metros, Shelly-Ann sofria para simplesmente poder caminhar: uma lesão num dedo do pé marcou-lhe o 2016. Não lhe permitia sequer calçar os sapatos de competição e no Rio de Janeiro sofreu as piores das dores para conseguir chegar à final. Mesmo assim, foi bronze.

Fraser-Pryce tinha então 29 anos, três títulos mundiais e dois olímpicos nos 100 metros, mas já não era exatamente jovem para esperar mais uma Olimpíada para fazer história e igualar Bolt. E no ano seguinte, ficou grávida. Revelou à NBC em 2019 que entrou em trabalho de parto enquanto via a final dos 100 metros dos Mundiais de 2017, que falhou devido à gravidez e onde tinha contado voltar aos títulos, recuperada que estava da lesão. Zyon nasceu durante a entrega das medalhas na “sua” prova, de cesariana. Numa entrevista ao jornal britânico “The Telegraph”, disse que muita gente vaticinou que nunca mais voltaria a correr depois de ser mãe.

Maja Hitij/Getty

De facto a recuperação da cesariana foi difícil, a atleta tentava tentava treinar, mas as dores eram impossíveis. Tinha perdido força na zona abdominal. Mas Shelly-Ann não desistiu: nove meses depois da maternidade, voltou a correr. E no ano seguinte venceu pela 4.ª vez, algo inédito, os 100 metros nos Mundiais de 2019, em Doha. Estava de volta e melhor do que nunca.

Porque este ano, ainda antes de tentar um sem precedentes terceiro título olímpico nos 100 metros no setor feminino, fez o segundo melhor tempo da história na distância, 10.63s. Mais rápida só a malograda Florence Griffith Joyner (10.49s), já lá vão 33 anos.

E era por isso que chegava a Tóquio como favorita. Ganhando, tornar-se-ia na mais velha campeã olímpica em provas individuais de sprint, entre o setor masculino e feminino. Só que ao seu lado estava Elaine Thompson, sua compatriota, cinco anos mais nova e campeã olímpica em título, depois da vitória no Rio. Na apresentação, Shelly-Ann tem o sorriso de sempre, mais o cabelo amarelo berrante com degradé para laranja, assim a fazer lembrar o gelado Solero. Ela tem algum do carisma de Bolt, só nunca teve a mesma atenção.

Thompson é mais fechada. Está claramente focada. Quanto vem o tiro, a “Pocket rocket”, foguetão de bolso, portanto, como é conhecida Shelly-Ann devido ao seu tamanho diminuto, dispara. Lidera e parece que nada a vai apanhar, nada vai impedir a história.

Mas eis que vinda de trás surge Elaine Thompson. Mais pesada, mas também mais poderosa, sem aquela leveza de Shelly-Ann, mas com todo o embalo. Ultrapassa a compatriota já nos últimos 20 metros, cruza a meta e não só há pódio totalmente jamaicano - Shericka Jackson é 3.ª - como recorde olímpico dos 100 metros, com 10,61s. A marca ainda era também de Florence Griffith Joyner, em Seul 1988. Foram os segundos 100 metros mais rápidos de sempre.

A cara de Fraser-Pryce é um livro. Entre o surpreendida pela ultrapassagem de Thompson e o devastada porque provavelmente perdeu a sua última oportunidade para ser de novo campeã olímpica dos 100 metros.

Nuns Jogos Olímpicos em que os 100 metros masculinos surgem com um nível bem abaixo dos últimos anos - haverá vida depois de Bolt, mas vai demorar -, estes 100 metros femininos podem muito bem ter sido a prova raínha do atletismo em Tóquio. E, de repente, há duas mulheres a um passo da história daqui a três anos, porque com este segundo ouro, Elaine Thompson fica também na posição de em Paris conquistar o terceiro título no hectómetro.

Já Shelly-Ann Fraser-Pryce terá 37 anos por essa altura. Já anunciou que se vai retirar nos Mundiais de Eugene, daqui a um ano. Talvez mude de ideias. Seria uma final para os livros de história na cidade-luz.