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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Patrícia Mamona pegou na medalha de Jorge Fonseca, pensou que também queria uma e voou mais do que nunca até a conseguir

A nona medalha de prata da história olímpica portuguesa fez-se de superação, de evolução constante e de um recorde pessoal batido por 35 centímetros. Não há melhor palco para o fazer do que uns Jogos Olímpicos e Patrícia Mamona sabe disso, mas ainda não consegue explicar aqueles saltos que lhe foram saíndo

ANDREJ ISAKOVIC/Getty

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É final da tarde em Tóquio e os ecrãs gigantes do Estádio Olímpico indicam que estão mais de 30 graus e uma humidade relativa superior a 60%. É difícil respirar entre as máscaras que rapidamente ficam pesadas, ensopadas. Há também um tal de “heat stress indicator” e à frente aparece uma bandeira negra. Vai-se à lista das bandeirinhas e confirma-se que não é bom, que provavelmente nem é uma coisa saudável para os atletas fazerem esforços nestas condições, mas pior ainda será a noite para os corações mais incautos, para os que não estavam preparados para o que aí vinha.

Que Patrícia Mamona poderia ganhar uma medalha em Tóquio era algo mais ou menos pacífico, embora longe de líquido: o triplo salto feminino está no melhor nível em anos e a atleta de 32 anos tinha a 6.ª melhor marca do ano à entrada para a final. Mas a qualificação já tinha dado sinais que Mamona estava a caminhar nas nuvens. Fez um salto a 14.54 metros, deixou ainda 13 centímetros de tábua por cobrir e confessaria mais tarde que até teve de fazer um ajuste para que o salto não fosse nulo.

Logo, havia ali espaço não só para o recorde nacional de 14.66, conseguido no Mónaco em vésperas da viagem para o Japão, como para muito mais.

Mas talvez ninguém pensasse que esse muito mais fossem 35 centímetros a mais.

E daí talvez sim, pelo menos entre os realizadores da prova, que filmaram insistentemente três finalistas durante o aquecimento: Yulimar Rojas, mulher sobrenatural, com mais de 1,90m de altura, há anos a cheirar o recorde mundial da ucraniana Inessa Kravets, a jamaicana Shanieka Ricketts e Patrícia Mamona. E como uma espécie de Big Brother olímpico, temos acesso privilegiado ao semblante de Patrícia naqueles minutos antes de arrancar a final: fechado, focado, frio, como que desprovida de qualquer ponta de sangue.

Durante o aquecimento Patrícia resguarda-se, afasta-se das rivais, anda ali consigo própria. É a terceira a saltar, a seguir a Caterine Ibarguen, campeã olímpica no Rio, e a Yulimar, que há cinco anos foi segunda, mas já com aquele ar de quem ia comer o mundo não tardava nada. Ibarguen salta modestamente, continua a festa em pessoa mas nas pernas já não tem os saltos de antigamente. Já Yulimar, e vamos dizê-lo mesmo assim prosaicamente, parte a prova toda: faz 15.41, recorde olímpico. Aos dois minutos de jogo, o concurso já parece ter vencedora anunciada e a única dúvida era se íamos ter recorde mundial a cair ou não - spoiler alert: iríamos.

A seguir vem a portuguesa e, BAM!, 14,91 metros. Recorde nacional batido por 25 centímetros, uma enormidade se pensarmos que Patrícia trabalhou cinco anos para passar dos 14.65 do Rio para os 14.66 do Mónaco há umas semanas.

Christian Petersen/Getty

Rojas está lá longe e a luta pelo pódio começa a definir-se entre Mamona, a espanhola Ana Peleteiro e Ricketts. Peleteiro também está em dia sim e bate o recorde espanhol. E Patrícia responde com aquele salto que há anos procurava: ao quarto ensaio, mesmo deixando 12.9 centímetros de tábua por aproveitar, voa 15.01 metros. Recorde nacional batido pela segunda vez.

Peleteiro ainda melhoraria o seu registo. Pareciam estar a reeditar o duelo de Torun, em março, quando Patrícia Mamona se tornou campeã da Europa indoor depois de travar uma luta mais difícil do que esperaria contra a covid-19, no início do ano.

Mas aos 15 metros ninguém mais chegaria. No entanto, só no final do último salto, quando já sabia que a prata não lhe escaparia, Mamona se permitiu a desfazer o modo de guerra que levava na cara e festejar efusivamente aquela medalha, a nona prata entre as 26 conquistadas por Portugal.

“Faço parte dos 15 metros!”, diz Patrícia Mamona. Ela repete que só queria “saltar muito”, que não pensou em marcas, mas não haja dúvidas que a passagem da barreira psicológica dos 15 metros significa muito. Até porque sem os 15 metros poderia nem haver prata e ela é agora apenas uma das 25 mulheres na história que conseguiu tal feito.

Passaram apenas uns minutos do final da prova, da volta de consagração enrolada numa gigante bandeira de Portugal - e se fosse pelo tamanho da bandeira, teríamos sido medalha de ouro. Pelo meio, um abraço apertado ao amigo Gianmarco Tamberi, o italiano que quase ao mesmo tempo se torna campeão olímpico do salto em altura.

A saltadora está num daqueles estados em que as emoções parecem atropelar-se umas às outras. “Estou estafada, mas ao mesmo tempo com muita adrenalina, estou a sentir as pernas a pedir ‘bora lá outra vez’... a adrenalina está aqui a bombar no corpo todo, as emoções…”. Ela ainda não consegue explicar como bateu o recorde nacional por 35 centímetros. Os saltos saíam e ela só se perguntava como podia saltar mais e mais e mais. Como dizem os atletas, é o epítome do estado de flow.

Mas ela sabia que tinha mais do que 14.66 há muito tempo.

As frases atropelam-se, interrompem-se. É absolutamente normal, afinal de contas é uma medalha de prata, algo que Portugal não tinha desde Londres 2012 e Mamona é a primeira mulher portuguesa a consegui-la numa disciplina técnica do atletismo, algo que há duas décadas parecia uma absoluta impossibilidade. A menina que não gostava de correr, que só ia ao corta-mato da escola porque só assim poderia ter 5 a Educação Física, encontrou na exigência do triplo salto o desafio perfeito. E agora prateado.

“Ainda me lembro quando comecei que me diziam ‘tu nunca vais chegar aos 14 metros na vida’, ‘tu és baixinha’”, recorda, apesar de o momento, diz, não ser para falar dos que não acreditaram nela, dos que achavam que já era velha para voltar a bater recordes e melhorar as suas marcas. Ela não só chegou aos 14 como agora aos 15 metros, no melhor dos palcos, para conseguir a mais importante das medalhas.

“O segredo é trabalho, disciplina”, sublinha. “E as experiências também. Eu lembro-me de 2012, o meu sonho então era estar nuns Jogos Olímpicos, mas assim que lá fui percebi que o sonho era ir um pouco mais além do que uma final. Fui fazendo o meu caminho, devagar, trabalhando. E o objetivo é sempre melhorar, independentemente da melhoria ser grande ou pequena. Fiquei super contente quando bati o recorde nacional no Mónaco por um centímetro, mas um centímetro demorou cinco anos para trabalhar. As pessoas normalmente não conseguem ver o processo, que não é fácil”, explica.

JOSÉ COELHO/LUSA

“Há dias maus, mas ninguém acompanha, no fim toda a gente quer medalhas, quer éxitos”, diz ainda, ressalvando o papel de José Uva, o seu treinador, em todo este processo de evolução que, aos 32 anos, ainda não acabou. “Eu tenho a sorte de ter um treinador que me treina desde pequenina, que viu ali um talento especial”, conta, com a voz embargada, a segurar as lágrimas.

Desta vez sem hino

É um dos rituais que Patrícia Mamona tem: antes de qualquer prova, ouve o hino nacional, algo que lhe vem dos tempos de estudante nos Estados Unidos. Curiosamente, na medalha mais importante da carreira, falhou o ritual.

“Desta vez não ouvi”, confessa. Mas teve uma inspiração tão ou mais poderosa, uma inspiração palpável, que não é apenas palavras musicadas que nos pedem para irmos “às armas, às armas, sobre a terra e sobre o mar”.

“Desta vez tinha na imagem a medalha do Jorge [Fonseca]. Tive a oportunidade de conseguir estar com ele, assim que conseguiu o bronze. Peguei nela, senti o peso da medalha e disse que também queria uma”. Sucesso puxa sucesso.

E se um dia uma jovem Patrícia, já praticante do triplo, se inspirou na vitória de Nelson Évora em Pequim 2008, espera agora que a sua medalha de prata faça o mesmo por quem aí vem. “Espero que venham mais mulheres para o desporto. Temos de dizer a todas que há sempre qualquer coisa que nos pode dar valor. Eu escolhi o desporto como um caminho para me dar algum objetivo, um sentido de vida, é algo que gosto de fazer. Só queria dizer que todos são capazes, pode demorar um bocadinho, mas pode acontecer e fica a minha inspiração porque o desporto em Portugal tem muito potencial”.