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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Aos 38 anos, a financeira Lorene Bazolo chegou às meias-finais dos 200m em Tóquio. E ainda sente as pernas como se tivesse 18

A velocista portuguesa não gosta de ser tratada por veterana e chegou a uma histórica meia-final olímpica nos 200m, onde correu ao lado de Shelly-Ann Fraser-Pryce ou Dafne Schippers. Diz sentir-se ainda fisica e mentalmente bem e que no futuro quer tentar conciliar o atletismo com outro projeto profissional, provavelmente na área em que tem um mestrado, finanças, que deixou em 2011 para se dedicar com toda a alma ao atletismo

Ramsey Cardy/Getty

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Uma pessoa olha para a meia-final número 1 dos 200 metros e quem é que lá vê? Para começar, Shelly-Ann Fraser-Pryce, vice-campeã olímpica dos 100m já em Tóquio, campeã mundial da distância em 2013. Vê também a holandesa Dafne Schippers, bicampeã mundial em 2015 e 2017 e prata no Rio. Vê ainda a nova coqueluche da prova, Beatrice Masilingi, da Namíbia, 18 aninhos.

E vê também a portuguesa Lorene Bazolo.

A atleta do Sporting qualificou-se diretamente para as meias-finais da prova de sprint, onde não costumamos ver portugueses, muito menos em Jogos Olímpicos, muito menos já com 38 anos. Na sua série nas eliminatórias, pela manhã, tinha nada mais nada menos que Shericka Jackson, jamaicana bronze nos 100m ou a búlgara Ivet Lalova-Collio, finalista há cinco anos no Rio. Mas Lorene Bazolo, nascida no Congo mas a viver em Portugal desde 2013, não olhou a nomes: chegou em 2.º e passou diretamente, com 23.21, ainda assim longe do seu recorde pessoal. Nem Jackson nem Lalova-Collio o conseguiram.

Nas meias-finais a tarefa seria compreensivelmente mais complicada. Bazolo foi apenas um centésimo mais rápida do que na manhã, seria 7.ª, com a vitória a ir para Fraser-Pryce, passeando-se até à meta com o seu colorido cabelo a desafiar a pesada humidade japonesa. Schippers, por exemplo, ficou apenas um lugar à frente da portuguesa.

No final, Bazolo dizia-se “grata e feliz” por ter estado já entre a elite do duplo hectómetro, mas não totalmente satisfeita. “Queria uma marca melhor”, confessa. “A meia-final era o objetivo, mas a nível de marca não foi. Queria aproximar-me do meu recorde pessoal [23.08], ou batê-lo. E porque não o recorde nacional”. A marca, 22.88, ainda é de Lucrécia Jardim, desde os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.

“Foi uma meia-final muito dura”, diz, lembrando que estava numa “pista difícil”. A corrida “tinha de ser perfeita, e não foi”.

“Fiz uma boa curva, mas na reta não foi aquilo que costumo fazer. E depois não consegui corrigir. E com isso não foi possível fazer menos de 23 segundos”, conta.

Patrick Smith/Getty

Bazolo confessa que ficou surpreendida por ter sido segunda na sua eliminatória. “Nem acreditei, porque elas tinham um nível mais elevado que o meu. Mas nestas provas é mesmo assim”. Para a vitória na final, a fechar a sessão de terça-feira, aposta numa das jamaicanas. “Eu diria a Shelly-Ann, mas a Elaine Thompson está forte. E agora também temos a miúda da Namíbia”.

E agora, é para continuar? Lorene diz que não sente nem pouco mais ou menos os 38 anos - “parece que ainda tenho 18 anos” -, que “fisica e mentalmente” está num grande momento, a idade, diz, é só um números, mas que está à espera do futuro. Com um mestrado em finanças, a atleta optou por concentrar-se no atletismo em 2011. Há novos desafios a nível profissional ao virar da esquina, ela prefere para já não dizer quais são, até porque vai precisar provavelmente de se atualizar na sua área.

“As coisas mudam rapidamente na contabilidade, nas finanças, por isso é que ainda não sei, mas tenho projetos”, revela. No entanto, a ideia é para já continuar a competir e tentar conciliar tudo.

E correr em veteranos é algo que nem lhe passa pela cabeça - aliás, ela nem gosta de ser tratada assim -, porque as suas marcas estão bem abaixo desses campeonatos. “Eu chegava lá e sei que ganhava. E isso também não quero”.

Afinal de contas, ela acabou de competir numa meia-final olímpica.