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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Caiu, ficou para trás e ainda venceu a prova: Sifan Hassan foi como o vento e mantém sonho de beijar três ouros

Tropeçou numa queniana caída, na primeira ronda de eliminatórias dos 1500m, quando faltavam apenas 380 metros para a meta. A atleta dos Países Baixos, onde chegou da Etiópia aos 15 anos com estatuto de refugiada, desatou a correr e venceu a prova. Esta terça-feira, às 13h40, há final dos 5000m

Hugo Tavares da Silva

Rob Carr

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A cadência do movimento das pernas estava já calibrado há muito, os pés calcavam o tartan com a convicção de quem está em Tóquio para fazer história. Bastava o sexto lugar para a qualificação naquela primeira ronda de eliminatórias dos 1500 metros, por isso Sifan Hassan, uma das atletas que permite mais expectativas à sua volta, ia gerindo.

Mas uma queda à sua frente, a 380 metros da meta, ameaçou o treble, a tal ideia que a atleta dos Países Baixos tem em mente conquistar - 1500 metros, 5000 metros e 10.000 metros. Os tais gestos do seu corpo, já tão programados e automáticos, não evitaram o espaço ocupado pelo tropeção fatal da queniana Edinah Jebitok. E caiu também.

O que se viu depois foi um daqueles momentos icónicos que há sempre nos Jogos Olímpicos. Hassan levantou-se, sem desaforos, esqueceu-se que havia lamentações por fazer ou contas por ajustar, e desatou a correr. Acelerou, acelerou como se nunca tivesse caído, parecia que voava.

Matthias Hangst

Passou o primeiro bloco de atletas sem qualquer dificuldade, garantindo desde logo o tal sexto lugar que lhe permitia manter o sonho que a levava até ali. Perto do fim, desferiu o último ataque, transformou-se em vento, daquele que não é parável. E venceu a prova, em 4:05.17 minutos.

A história de Sifan Hassan ri-se, naturalmente, de uma mera queda numa qualificação de 1500 metros. É que a vida dela não foi nada simples. A atleta nasceu na Etiópia, em 1993, e mudou-se para a então Holanda aos 15 anos, com o estatuto de refugiada, em 2008.

Descobriu o gosto pela corrida e investiu tempo nessa descoberta, enquanto a dividia com outro objetivo: os estudos. Queria ser enfermeira.

Mais tarde, em 2013, recebeu a nacionalidade holandesa, o que lhe permitiu começar a competir por aquele país. E assim deu início aos treinos mais a sério, ao rigor da competição, aos sacrifícios, aos objetivos, às metas, às vitórias e às medalhas de ouro.

Em Tóquio, a atleta quer agora o que nunca ninguém fez: vencer em 1500, 5000 e 10.000 metros. Ou seja, voltar a ser vento qualquer coisa como 24,5 quilómetros em oito dias. Num comunicado, no domingo, a atleta explicou a decisão: “Para mim, é crucial seguir o meu coração. Fazer isso é muito mais importante do que medalhas de ouro. Isso mantém-me motivada e permite-me desfrutar deste bonito desporto”.

Paavo Nurmi vence 5000m, em Paris 1924

Paavo Nurmi vence 5000m, em Paris 1924

PA Images

Nos Jogos Olímpicos de 1924, lembra o “Guardian”, o finlandês Paavo Nurmi tencionava competir em quatro provas: 1500m, 5000m, 3000m (por equipas) e 10.000m. Depois de ganhar as três primeiras provas (mais dois eventos de cross-country), os responsáveis da comitiva da Finlândia não autorizaram o zangado Nurmi a competir nos 10.000 metros, por temerem pela saúde do atleta. Afinal, Paavo havia corrido as tais cinco provas em apenas cinco dias. O finlandês foi o primeiro homem a conquistar cinco medalhas nuns Jogos Olímpicos.

Em 1952, em Helsínquia, viu-se algo igualmente extraordinário. Emil Zatopek fez história vencendo as provas de 5000m, 10.000m e a maratona, ou seja, a prova que faz o conta-quilómetros suar até aos 42km. E ganhou todas essas provas com recordes olímpicos. Quatro anos antes, o checo ganhara um ouro e uma prata, em 10.000m e 5000m.

Esta terça-feira, por volta das 13h40 (hora de Lisboa), a atleta de 28 anos vai disputar a final de 5000 metros. A melhor marca do ano de Hassan, a número dois do ranking mundial, foi 14:35.34, bem longe do seu melhor tempo (14:22.12). Hellen Obiri, a número um do ranking, também estará na pista. A queniana, de 31 anos, fez como melhor tempo do ano 14:26.38, longe do seu melhor - 14:18.37.

As outras finais, de 1500 e 10.000 metros, estão agendadas para 6 e 7 de agosto (13h50 e 11h45 em Lisboa).