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Tóquio 2020

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Os demónios e a virtude da mistura na cor da pele, segundo Ana Peleteiro

Bateu o recorde de Espanha duas vezes em Tóquio e ganhou a medalha de bronze, ficando só atrás de Mamona e Rojas. Natural da Galiza, Peleteiro é adotada, pelo que depois da conquista tocou na questão racial, já que há não muito tempo a mandaram para a terra dela: "É a evidência de uma mudança. De que a mistura é super boa, de que a mistura enriquece um país, de que a mistura é o melhor que há. Quem não o quer ver é porque é tonto, porque não há nada mais bonito do que misturar duas coisas boas, joder"

Hugo Tavares da Silva

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Arruma os pés milimetricamente, como se tivesse uma posição inicial obrigatória. A seguir dá um berro, bate uma ou duas palmas, dá uma pancada com as duas mãos perto das ancas, depois no peito e, apontando-lhe o dedo, fala para o perímetro onde descansa a areia. A seguir, nuns acordes perfeitos, Ana Peleteiro toca um trompete invisível só com uma mão.

Está pronta.

À corrida cheia de convicção segue-se a validação do salto, a bendita bandeira branca, mensageira de boas notícias. Depois, a história: Peleteiro, uma atleta de triplo salto galega, acabava de bater pela segunda vez o recorde nacional de Espanha, com um salto de 14,87m. Antes já saltara 14,77, derretendo o agora caducado recorde de Glasgow 2019, onde saltou 14.73.

À frente da espanhola só ficaram a portuguesa Patrícia Mamona (15,01m) e a venezuela Yulimar Rojas (15,67m), com quem treina e tem uma relação tão boa que, quando ela saltou e fez aquela assombrosa marca, saltou e celebrou com ela, feliz, feliz, como só os bons podem estar pelos outros.

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Ou seja, medalha de bronze. “Estou a sonhar com isto a vida toda, também sonhei ser cantora e isso não o serei”, admitiu depois da prova. Mas também falou em demónios, demónios na cabeça, demónios espalhados pelo corpo, seres que vivem nas penumbras da alma, que mordem e beliscam sem piedade as certezas e as convicções.

“Todos temos os nossos demónios na cabeça, os nossos medos e devemos aprender a travá-los, a dizer-lhes que não”, explicou depois numa entrevista ao “El Mundo”.

“De repente, vês que tens uma insegurança que nasce de um trauma de quando eras pequena e dizes: ‘mas como é que aquilo pode afetar-me agora?’. Mas afeta. Tenho a sorte de trabalhar com uma profissional, a minha coach Rebeca [López], que é muito empática, que me entende, com quem consegui abrir-me e que me ajudou muito. Desde o Mundial de Doha de 2019 ajudou-me muitíssimo.”

Na mesma entrevista, numa referência à medalha de prata do ginasta Ray Zapata, Peleteiro comentou a questão da pele. A espanhola, nascida na Corunha e adepta do Celta de Vigo, é adotada. Sabe que a mãe é galega, mas não sabe quem é o pai. A cor da pele dá algumas pistas, por isso gostaria de ir a África, não para procurar a família, mas para entender os labirintos das suas origens.

ANDREJ ISAKOVIC

“Terá aborrecido muita gente que os dois medalhistas de Espanha de ontem [segunda-feira] fôssemos negros”, disse na mesma entrevista ao diário espanhol.

“Mas é a evidência de uma mudança. De que a mistura é super boa, de que a mistura enriquece um país, de que a mistura é o melhor que há. Quem não o quer ver é porque é tonto, porque não há nada mais bonito do que misturar duas coisas boas, joder.”

O desabafo não foi por acaso. Em agosto de 2020, numa entrevista ao "El País", a atleta de triplo salto contou o que ouviu uma vez num posto de gasolina: "Um senhor gritou-me: 'Preta de merda, vai para o teu país'". E, à distância como se dissesse algo àquele senhor, retorquiu depois: "Eu estou no meu país! Dá-me muita raiva. A minha mãe biológica é galega. O meu pai biológico é africano, não sei de onde. Nunca se pôs em contacto comigo, o que agradeço porque não necessito de nada mais. Para além disso, se trabalhas em Espanha e te sentes espanhol, que importa o sangue?".

Por pouco não se perdeu uma grande atleta em Ana Peleteiro, uma enamorada do que representa Rafael Nadal, pois começou por praticar ballet. A ginástica artística interessava-lhe, mas não havia clubes com essa arte toda em Ribeira, a cidade onde nasceu e viveu.

Por isso, agarrou-se ao atletismo e agora, aos 25 anos, está a escrever a sua lenda em Tóquio, uma cidade que serviu de inspiração para dar nome ao seu cão.