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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Pimenta: o bronze derrubou o monstro interior que o mantinha acordado à noite. Mas ele quer mais

O canoísta português foi medalha de bronze em K1 1000, uma distinção que não o deixou eufórico, mas apenas feliz. “Se calhar daqui a uma semana, quando voltar a olhar para a medalha e a vir ao lado da minha filha, vou pensar de outra forma e estar muito mais feliz. São duas medalhas em Jogos Olímpicos”, disse Pimenta, relembrando críticos mas também um apoio ministerial de Tiago Brandão Rodrigues, que não esquece. “É um amigo”

Fernando Pimenta de chupeta na boca. Foi pai há pouco tempo e a filha espera-o em casa

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Às vezes os lugares mais bonitos dão-nos as piores recordações. Há cinco anos, foi na Lagoa Rodrigo de Freitas, no coração do Rio de Janeiro, sob o olhar do Cristo Redentor e com Ipanema ali tão perto, que Fernando Pimenta viveu um dos momentos mais dramáticos da sua carreira: era um dos favoritos no K1 1000, mas cortou a meta em 5.º. O baque foi tão forte que penso em deixar tudo, pendurar o caiaque, a pagaia, esquecer o desporto.

Mas o animal competitivo não demoraria a renascer. O ciclo olímpico até Tóquio foi feito de títulos e medalhas em Mundiais, Europeus e Taças do Mundo e nos Jogos Olímpicos de 2020 Pimenta volta a ser um dos candidatos. A mise-en-scène está longe de ser a mesma de há cinco anos: estamos numa espécie de zona portuária, industrial, onde eu nunca me atreveria a pôr os pés à noite. Há armazéns, aterros, a única coisa que destoa é a extravagante Tokyo Gate Bridge, chamam-lhe “Ponte Dinossauro” porque de facto a estrutura parecem dois velociraptors prestes a baterem um no outro. O que para algumas pessoas também é capaz de destoar visualmente. Os decibéis também não enganam, olha-se para cima há outros poderosos bichos no ar, os aviões que aterram e partem do Aeroporto de Haneda, aqui perto.

No entanto, é neste cenário desprovido de qualquer beleza, o total contrário do que tínhamos no Rio, que Fernando Pimenta vai escrever um dos capítulos mais bonitos da sua carreira.

O português bateu o recorde olímpico nas meias-finais, está bem, nota-se, mas os húngaros são mestres nas pagaiadas e só na final há dois. No arranque, Pimenta manda-se para a frente e só o segue o mais favorito dos húngaros, Balint Kopasz. A prova é entre eles até aos últimos 200 metros, é então aí que o português perde algum gás, Kopasz coloca-se definitivamente em vantagem e Pimenta começa a ter de se preocupar com quem vem atrás. Nomeadamente o outro húngaro, Adam Varga, e o alemão Jacob Schopf. Pimenta, que é mais forte nas partidas do que nas chegadas, tenta aguentar a prata, mas Varga ultrapassa-o nos derradeiros metros. Schopf quase que o faz, mas não chega. Pimenta é medalha de bronze.

É uma medalha olímpica, a segunda de Pimenta, que o torna apenas um de cinco portugueses a conseguir bisar nuns Jogos Olímpicos, o primeiro desde que a enorme Fernanda Ribeiro foi bronze nos 10.000 metros de Sydney 2000, quatro anos depois do título olímpico na prova em Atlanta. Mas ele não parece totalmente satisfeito. Bate com a pagaia no chão e demora-se nos abraços a José Manuel Constantino, presidente de Comité Olímpico Internacional, e a Vítor Félix, presidente da federação de canoagem. Eles festejam, mas Fernando não se ri.

Porque Fernando, como grande campeão que é, queria mais.

Talvez lhe faltasse sentir o peso da medalha. Um bronze, afinal de contas, é ser o terceiro melhor do Mundo e de facto no pódio a cara era outra. Beija o pódio, saca de uma chupeta, leva-a à boca e é assim que sobe ao degrau. A filha Margarida, nascida em dezembro, estará seguramente a dormir, mas um dia verá estas imagens e saberá que o pai voltou a ser feliz nuns Jogos Olímpicos.

“Primeiro, custa a acreditar que fomos medalha. Mas depois há aquele misto... eu queria mais. Eu não vim aqui para brincar, não vim para fazer amigos. Apesar de nos darmos todos muito bem fora da água. Eu queria mais, sonhei e trabalhei para o ouro”, começa por dizer o atleta de Ponte de Lima. Ser medalhado no K1, ele que bateu de frente com a Federação Portuguesa de Canoagem para o fazer depois da prata de Londres 2012 com Emanuel Silva, era “um dos sonhos”. Falta outro por cumprir, que é “ser campeão olímpico”.

Apesar de não estar totalmente realizado, Pimenta, que aos 31 anos era o mais velho desta final do K1 1000, acredita que tudo vai mudar daqui a uns dias, quando assentar. “Se calhar daqui a uma semana, quando voltar a olhar para a medalha e a vir ao lado da minha filha, vou pensar de outra forma e estar muito mais feliz. São duas medalhas em Jogos Olímpicos”.

Ser pai, diz, não mudou por aí além a forma como perspetiva o sucesso, mas diz que “aumenta a responsabilidade de tudo aquilo” que faz: “Tem interferência no exemplo que eu posso dar quer à minha filha quer aos mais novos”.

E a responsabilidade passa por querer continuar a ganhar. “Agora não sei quais são os planos do mister [Hélio Lucas, o seu treinador], mas deve dar-me descanso até final da semana. Depois volto a trabalhar, porque ainda há objetivos este ano. Sou um atleta com ambição e posso já prometer aos portugueses que se tudo correr bem este ano vou estar na luta por um título mundial, em finais de setembro. Em vez de celebrar vou meter os pés na terra, continuar a trabalhar até final da época, para tentar celebrar mais e conquistar mais por Portugal”, diz, palavras de um homem que não tem medo de sofrer.

“O meu objetivo é continuar a desfrutar deste lindo processo de sofrimento, de treino de sacrifício, todas estas coisas que envolvem o desporto que alta competição. Acredito que daqui a três anos posso estar outra vez na luta por uma medalha e esse vai ser o objetivo em Paris. E aí provavelmente vou conseguir ter a família por perto”. Fica o desejo.

Uma resposta a quem não acredita

O ano de 2016 foi “terrível” para Fernando Pimenta, depois do falhanço na final do K1 1000 no Rio: “Depois dos Jogos Olímpicos do Rio eu nem queria saber se ia voltar a competir, se ia voltar a fazer desporto, se não ia. Tive um mês e meio desligado do desporto, a tentar limpar a cabeça, depois quando voltei a treinar tinha, digamos, um monstro dentro da minha cabeça que de vez em quando me fazia acordar durante a noite. Mas tive as melhores pessoas ao meu lado”.

Esse monstro terá desaparecido, pelo menos parcialmente, nesta tórrida final de manhã em Tóquio.

Pimenta beijou o pódio antes de subir porque sente que ele lhe fugiu há cinco anos. Agora é dele, com todo o direito, mas continua a lembrar as críticas.

“Nos últimos cinco anos muitos engoliram as suas palavras, pessoas que muito provavelmente até desapareceram, nunca mais ouvi falar delas. Este beijar o pódio é para quem não acreditava, que esperavam que o Pimenta falhasse o pódio. Tenho de agradecer a essas pessoas mas sobretudo a quem acreditou em mim e que em 2016 me apoiou”, diz.

E uma das pessoas que o apoiou em 2016, no seu pior momento, foi uma das primeiras pessoas a ligar no momento da glória, o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues.

“Em 2012, quando conquistei a medalha com o Emanuel Silva, foi uma pessoa que chorou a regata toda. E em 2016 ligou-me a dar força, foi das poucas pessoas que me ligou. Além de ser ministro da Educação é um grande amigo. Ligou-me no Rio a dizer ‘eu acredito que merecias mais, que querias mais e que em Tóquio vais conseguir’”, contou.

Pimenta diz ainda que a medalha tem um sabor especial depois de todos os sacrifícios, “desde estar longe da família, desde em termos sociais praticamente não ter vida nenhuma, em termos de alimentação as privações serem muitas”. Chegar ao final deste longo processo com uma medalha é sempre muito importante em termos anímicos e também para as pessoas continuarem a acreditar”, sublinha.

Jogos de 2032? Quem sabe. E até numa outra modalidade

Fernando Pimenta ainda não pensa no fim e em jeito de brincadeira até fala numa possível presença nos Jogos Olímpicos de 2032, em Brisbane, na Austrália.

“Enquanto sentir que posso estar no alto rendimento, a representar o melhor possível os portugueses, podem contar comigo. Espero ter essa força física e psicológica para continuar, pelo menos para Paris acho que posso lutar. Quanto a 2028 já é mais longo e 2032 ainda mais, mas pelo que me parece vai haver mudanças para a canoagem nesses Jogos, muito provavelmente vão introduzir o surf ski, uma prova de mar - isto já sou eu a pensar mais para a frente”, explica, entre sorrisos.

E vamos ver Fernando então a experimentar outras andanças olímpicas, que não a velocidade? “Posso fazer outra coisa, sim. Nós temos uma costa bastante grande e se calhar em 2032 vou desfrutar um pouco da nossa costa e fazer uma especialidade que não é a minha e com a minha experiência até me posso dar bem”,

Mas agora é “ir para casa, estar com a família, descansar e voltar ao trabalho que ainda há coisas para conquistar”.E a pressa é tanta que Pimenta volta já esta terça-feira para junto dos seus

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