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Tóquio 2020

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Jogos Olímpicos

Beatrice Masilingi e Christine Mboma foram impedidas de correr nos 400 metros. “Não me podem dizer agora que não sou uma mulher”

Níveis de testosterona de duas atletas da Namíbia levantam questões entre entidades e atletas. Por agora ficaram impossibilitadas de correr a distância escolhida em Tóquio, mas uma delas chegou às medalhas nos 200 metros

Rita Meireles

JEWEL SAMAD

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Com 18 anos, Beatrice Masilingi e Christine Mboma, da Namíbia, participaram, esta terça-feira, na final dos 200 metros do torneio olímpico de atletismo. Enquanto que a primeira não foi além da sexta posição, a segunda venceu a medalha de prata. Ainda assim, nem sempre estas atletas têm a oportunidade de competir.

Pedem-lhes para provarem que são mulheres.

A polémica começou quando a World Athletics, antes conhecida como Associação Internacional de Federações de Atletismo, lhes barrou a participação nos 400 metros, modalidade que tinham escolhido nestes Jogos. Mas não ficou por aí.

Já em Tóquio, após a final, Marcin Urbas, ex-atleta polaco, recorreu às redes sociais para se manifestar contra a participação de Mboma nos Jogos. “Gostaria de pedir a Mboma a realização de um teste completo para termos a certeza de que é uma mulher”, lê-se.

Tudo isto porque ambas as atletas têm hiperandrogenismo, o que resulta em níveis de testosterona mais elevados do que o habitual para uma mulher.

“A sua vantagem de testosterona sobre os outros participantes é visível a olho nu. Na maneira de se movimentarem, na técnica, aliada à sua velocidade e resistência. Tem parâmetros de um rapaz de 18 anos. No meu caso, naquela idade fiz a prova [200 metros] em 22.01 segundos. Ela fez 21.97 em Tóquio", continuou Urbas.

Ryan Pierse/Getty

Hiperandrogenismo é algo com que as duas atletas nasceram e que as levou a entrar numa categoria para atletas com diferenças de desenvolvimento sexual (DSD athletes). Assim, e segundo as regras impostas, para estas atletas correrem distâncias entre os 400 e os 1500 metros teriam que fazer medicação para diminuir os níveis de testosterona.

Masilingi é a detentora do terceiro melhor tempo deste ano nos 400 metros (49.33), o que a deixava numa posição favorável para chegar às medalhas.

“No início eu estava muito em baixo, não me podem dizer agora que não sou uma mulher. Isso é realmente frustrante e enerva-me, mas não há nada que possamos fazer neste momento”, disse Masilingi à "BBC Sport Africa".

Na mesma entrevista, a atleta questionou a exigência de que todas as atletas sejam iguais: “É realmente injusto porque não se pode esperar que todos sejam iguais, que todos tenham as mesmas capacidades, nascemos com capacidades diferentes, não podemos ser os mesmos, não faz sentido”.

Esta não é a primeira vez que uma situação semelhante acontece. A sul-africana Caster Semenya, campeã olímpica e mundial dos 800 metros, é incluída nesta categoria, ainda que a tenha recusado, descrevendo-se sempre da mesma forma: “Eu sou uma mulher e sou rápida”.