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Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Tóquio 2020, palco para a Saúde Mental

Por outras palavras, no caso português, se do ponto de vista macro (sociedade civil) se aposta tão pouco na psicoeducação e prevenção (na deteção precoce de possíveis indicadores de perturbação de saúde mental), naturalmente que este fenómeno se agiganta no contexto desportivo – mas este não é um “fenómeno” português, é sim global

Ana Bispo Ramires

Laurence Griffiths/Getty

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Globalmente, o tema da Saúde Mental encontra-se subestimado na sociedade civil e, se assim o é neste contexto, ainda mais se verifica no desporto de alta competição.

Seja por razões de preconceito (por atribuição de uma suposta “fragilidade” a quem tem manifestações desta natureza), tabu, falta de informação ou conhecimento científico, a realidade é que a tendência para, de forma “artificial” separarmos a “saúde física” da “saúde mental” em nada ajuda aos processos de 1) reconhecimento da sua importância e 2) compreender a sua interligação com a dimensão física, no que respeita aos possíveis (e expectáveis) impactos negativos na mesma.

Para o “leigo” - entenda-se, toda e qualquer pessoa e/ou profissional que não possua conhecimentos mínimos em termos de literacia emocional e saúde mental – a dificuldade em identificar uma “lesão emocional”, tal qual se observa uma lesão física quando se vê um joelho com uma ligadura, complica dramaticamente a capacidade em diagnosticar atempadamente perturbações ou sintomas de disfunção psicoemocional.

Por esta razão, as questões relacionadas com a Saúde Mental (ou a ausência dela) encontram-se, demasiadas vezes, mal diagnosticadas o que conduz, inevitavelmente, a uma má gestão das mesmas.

Desta circunstância, resulta frequentemente que, quando o atleta é finalmente atendido pelo especialista em Saúde Mental (exemplo: médico psiquiatra ou psicólogo clínico), o quadro clínico que transporta revela já um prognóstico mais complexo (e de demorada resolução).

O testemunho de Simone Biles

Simone Biles é produto de uma cultura onde os atletas são encarados como verdadeiros “super-heróis”, onde a robustez e perícias físicas são comummente confundidas com robustez e saúde mental (fenómeno este que também observamos em Portugal, apesar de uma forma não tão vincada).

Desde o escândalo de Larry Nassar, ao qual Biles se associou, reconhecendo ter sido uma das suas vítimas, esta atleta tem vindo envolver-se em campanhas de Saúde Mental nos EUA, testemunhando a sua própria caminhada nesta dimensão – aliás, como também o fez aquando do adiamento dos Jogos Olímpicos por um ano, revelando enorme desgaste e entrada em burnout, com vincada sintomatologia depressiva.

A importância do testemunho de atletas nesta área - tal como, por oposição, de atletas que testemunham a integração da área da Psicologia nos seus processos de treino desportivo, não só como forma de potenciar a sua resiliência e capacidade em lidar com fatores de stress acrescido (alavancas fundamentais para a preservação da saúde mental), mas também como forma de elevarem os seus indicadores de performance - é sobejamente importante porque não só normalizam o recurso à Psicologia como forma de otimização do desempenho desportivo (e como área de treino que realmente é) como, no caso específico da Saúde Mental, tornam possível que outros atletas, possivelmente na mesma situação, possam identificar-se e entender que é um processo mais frequente do que imaginam.

E que, de facto, não só tem solução como o devem partilhar nos canais próprios e com as suas figuras de confiança pois, à semelhança de uma lesão física, é um processo que deve ser suportado por uma Equipa Multidisciplinar.

Apesar de termos uma enorme ausência de informação que nos permita avaliar o episódio que agora saltou para a comunicação social de uma forma fidedigna (no que respeita aos fatores que o desencadearam), o facto é que o mesmo acabou por se transformar num novo alerta para a necessidade de repensar o processo desportivo no que respeita à integração precoce de profissionais especialistas na área da Saúde Mental.

Por forma a que possam, desde tenra idade, não só trabalhar na psicoeducação para quebrar o estigma, como na dotação de competências de resiliência dos atletas e também na capacidade de deteção precoce de sinais de ausência de saúde mental, por parte de toda a entourage.

Evidencia, também, a necessidade dos atletas (e das equipas que os assistem) desenvolverem desde a sua formação as competências necessárias para lidar de forma eficiente com contextos de pressão, sendo que, uma vez mais, este tipo de questões só terão resposta adequada com a integração de Psicólogos com a devida especialização e experiência comprovada para o efeito (idealmente, especialização em Psicologia do Desporto com competências clínicas, tal como se começa a advogar internacionalmente).

Investigação Científica & Psicoeducação

Os atletas, treinadores e demais agentes (sim, porque o tema da saúde mental é transversal a todos eles, não sendo por isso um tema exclusivo dos atletas – outro tema que ainda é mais “tabu”...) são, na realidade, um produto da sua sub-cultura.

Por outras palavras, no caso português, se do ponto de vista macro (sociedade civil) se aposta tão pouco na psicoeducação e prevenção (na deteção precoce de possíveis indicadores de perturbação de saúde mental), naturalmente que este fenómeno se agiganta no contexto desportivo – mas este não é um “fenómeno” português, é sim global.

A investigação científica produzida na área vem, desde há muito anos, demonstrar que esta visão compartimentada do ser humano (físico vs. mental) pode resultar, no contexto do desporto: a) num aumento de risco de lesões, b) num atraso no processo de recuperação de lesão, c) num compromisso sério na sua capacidade de desempenho; Da mesma forma, uma performance desportiva abaixo do esperado pode despoletar o risco agravado de ativação de sintomas e perturbações na área da saúde mental, como sejam os fenómenos de natureza ansiogénica e depressiva.

De igual forma, tornou evidente que, apesar de não se encontrarem taxas mais elevadas no contexto desportivo, em relação à população em geral, no que respeita a indicadores de sintomas e perturbações de saúde mental, já no desporto de elite pode ser observada uma maior incidência no que respeita a desordens do comportamento alimentar e consumo de substâncias. Também fatores de stress especificadamente relacionados com a performance e seu contexto (incluindo risco agravado de situações de abuso psicológico, físico ou sexual) e as barreiras à procura de ajuda são sentidos como mais elevados, devido aos estigmas associados à saúde mental.

Osaka e Biles são, de momento, apenas protagonistas de um conjunto de parangonas nos media e, tratando-se de atletas educadas para o contexto da Saúde Mental (logo com conhecimento adquirido) para esta área, quando comunicam fazem-no também de forma clara e assertiva.

Ainda assim, enquanto não associarmos inequivocamente os temas relacionados com a Saúde Mental à própria performance desportiva (porque o são de facto), recorrentemente tendem a ser esquecidos muito rapidamente da memória coletiva de todos nós.

Caminho a seguir?

Inevitavelmente, da exposição dada a este tema nos Jogos Olímpicos de Tóquio saltarão para as redes sociais do cidadão comum um conjunto de iniciativas e/ou “profissionais da oportunidade” que inundarão o nosso espaço mental com projetos e/ou soluções milagrosas.

Esta continua a ser, lamentavelmente, a nossa tradição e, em boa parte, aquilo que muitas pessoas/organizações deficientemente informadas para o efeito, acabam por valorizar.

Na realidade, tratando-se de um tema global e sistémico, importa de facto refletir e desenvolver ações planeadas e concertadas a curto e médio prazo – sem “pressas” e com a seriedade que este tema exige na medida em que este é um tema da sociedade atual e não pontual.

Para que, de facto, estes casos sejam cada vez menos frequentes, importa por isso desenvolver programas de apoio para as Elites que, à data, escolhem já o desporto e a representação de um país como profissão mas, em simultâneo e com igual grau de urgência e importância, criar modelos de formação, de psicoeducação e de intervenção que possam enquadrar as necessidades especificas de atletas, treinadores, famílias, equipas médicas e outro staff que cumpram funções inequivocamente imprescindíveis no percurso desportivo dos atletas – recomendações estas, em boa verdade, prioritárias também para o Comité Olímpico Internacional.

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