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Lá Em Casa Mando Eu

O FC Porto celebra 125 anos - 31 deles numa bela relação de amor com Lá em Casa Mando Eu, que tem um desejo especial para os próximos 125

O FC Porto completa esta sexta-feira 125 anos de existência e Lá em Casa Mando Eu tem alguns pedidos a fazer ao clube (e aos adeptos) para os próximos 125: "Quero ganhar, claro, mas não quero perder o meu clube. Quero pagar preços decentes para ir ao futebol, de preferência ao sábado ou ao domingo à tarde. Quero poder desejar o pior aos meus rivais, incluindo ao meu marido e, eventualmente, a um filho ou outro que possa descambar. Quero equipas, treinadores e dirigentes que saibam o que é o FC Porto. Quero ser exigente para sermos melhores, não para sermos modernos"

Lá em Casa Mando Eu

MIGUEL RIOPA

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O FC Porto faz 125 anos esta sexta-feira, mas, infelizmente, eu só acompanhei os últimos 31. Portanto, não me considero uma especialista. Ainda assim, penso que estamos de acordo que escolhi os melhores anos para ser portista, o que espero que me dê algum crédito para falar deste assunto.

Admito que não sei qual era a ideia dos fundadores quando tudo isto começou. Provavelmente, só precisavam de um nome para as futeboladas de segunda-feira à noite, numa altura em que as esposas lhes exigiram que fizessem um bocado de exercício físico além do vinho do Porto que bebiam a toda a hora. Talvez não estivessem à espera de formar o melhor clube do mundo, para adeptos que, 125 anos depois, vencem um jogo fora por 0-2 e ficam dias a queixar-se da má exibição da equipa.

Sim, ao longo da história tornámo-nos exigentes. Pode ter sido porque ganhámos muito, ou então porque sentimos falta do vinho do Porto a toda a hora e ficámos meio rabugentos. Mas foi, sobretudo, porque nos custou muito chegar até aqui. Há gerações de portistas que ainda se lembram como era difícil atravessar a ponte rumo ao Sul, há quem não tenha sido campeão durante toda a menoridade, há quem nunca vá habituar-se à grandeza do Dragão e aos adeptos espalhados por todo o país. São esses os mais exigentes: agora que já viram do que somos capazes, não nos deixam voltar atrás.

Depois há os mais sortudos, que nasceram há umas três décadas e só sabem ganhar. Para nós, não há empate ou segundo lugar que nos convença. Somos o produto de Jorge Nuno Pinto da Costa, crescemos com Mourinho, Bobby Robson e Villas Boas, vivemos com João Pinto, Jorge Costa, Fernando Couto, Aloísio, Paulinho Santos, Vítor Baía, Domingos, Deco, Ricardo Carvalho, Lucho e Falcao, estivemos em Viena, Sevilha, Gelsenkirchen, Japão e Dublin, chorámos de tristeza com o adeus às Antas e chorámos de alegria com o olá ao Dragão, cantámos

“Porto, Porto, Porto
és a nossa glória,
dá-nos neste dia
mais uma alegria,
mais uma vitória”

e

“Ai estes são os filhos do Dragão,
unidos para vencer
ansiosos por fazer deste Porto campeão!”

E somos exigentes porque só assim continuaremos a ganhar.

Joern Pollex

Dos adeptos mais novos só exigimos uma coisa: que não se esqueçam desta história. Os tempos são outros, as cadeiras ficaram mais confortáveis, não chove quase em lado nenhum, há comida a qualquer hora e as fotos nos estádios ficam cada vez melhor nas redes sociais. Os jogadores vivem num mundo à parte, numa redoma de vidro intocável, e o que sabemos e conhecemos do nosso clube é sempre filtrado por técnicas de comunicação avançadas. Ainda sabemos o que nos une, mas, na verdade, estamos todos mais distantes do que nunca.

Daí que o meu desejo para os próximos anos seja este: quero ganhar, claro, mas não quero perder o meu clube. Quero levantar-me da cadeira para reclamar uma falta sem o adepto de trás ficar incomodado porque lhe afeto a visão perfeita do relvado. Quero gritar que o árbitro está a ser deveras inconveniente sem ser filmada e “partilhada” como se fosse eu a louca. Quero descer a bancada a correr naquele golo no último minuto sem ser placada por um steward como se aquela emoção fosse ilegal. Quero pagar preços decentes para ir ao futebol, de preferência ao sábado ou ao domingo à tarde. Quero poder desejar o pior aos meus rivais, incluindo ao meu marido e, eventualmente, a um filho ou outro que possa descambar. Quero equipas, treinadores e dirigentes que saibam o que é o FC Porto. Quero ser exigente para sermos melhores, não para sermos modernos.

Sobrevivemos aos primeiros 125 anos com muita raça, com muita paixão e dedicação. Sofremos, celebrámos, remámos quase sempre para o mesmo lado. Foi difícil, mas conseguimos. Agora é só não estragar isto nos próximos 125.

Parabéns, Futebol Clube do Porto!