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E se o Dyego Sousa tivesse nascido Diogo Sousa já seria um espécime bacteriologicamente puro português? (por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira, parte de Lá Em Casa Mando Eu, parte comentadora televisiva, faz a pergunta que considera importante no momento em que se discutem naturalizações, e assim

Catarina Pereira

MIGUEL RIOPA

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Dyego Sousa foi convocado pela primeira vez para a seleção e ressurgiu por aí uma certa polémica pelo facto de o avançado do Sporting de Braga não ter nascido em Portugal. Já aconteceu antes, provavelmente vai voltar a acontecer: há jogadores que escolhem o nosso país para viver e trabalhar, a certa altura dá jeito que ocupem ali um lugar na defesa, no meio-campo ou no ataque da seleção e há vozes que se levantam em nome do patriotismo e orgulho nacional.

Por mim, está tudo bem com tudo isto. Não acho que Dyego Sousa seja mais nem menos do que ninguém, só porque os seus pais não tiveram a decência de escolher solo português para o ter. Não vejo nenhum mal em Pepe vestir a camisola das quinas, desde que continue a ter tempo para vestir a azul e branca. Não tive problema com Liedson a alinhar por Portugal, sobretudo depois daquele passe para o Kelvin. E não considero boas pessoas todos os que ousem criticar Deco em qualquer situação.

Na minha vida, não costumo ter como critério para avaliar qualquer ser humano o território onde nasceu. Mas percebo que, num contexto em que é suposto torcermos por uma equipa cujos jogadores foram paridos nestes 92.212 quilómetros quadrados à beira-mar plantados (sim, são 92.212, já aprenderam alguma coisa com este texto. Aproveitem que não há mais), isso possa ser uma questão. Afinal, o que tem Dyego Sousa que um Gonçalo ou um Rafael não tenham? Provavelmente nada, a não ser, nesta altura, golos. Ora, se o senhor que tem de os escolher precisar de golos, parece-me que tudo isto poderia ser bastante aceitável.

Vamos, então, a um exercício: se Dyego Sousa tivesse nascido em Portugal, provavelmente chamar-se-ia Diogo Sousa, um nome que, convenhamos, tem muito de português e pouco de estrela futebolística (ou então não seria, porque anda aí uma moda de chamar aos miúdos Diego e Enzo e coisas dessas, portanto estamos a apenas um “y” e um certo mau gosto de distância dessa realidade). De resto, o Dyego, ou Diogo, ou Diego - enfim, vocês já perceberam - provavelmente iria gostar de jogar à bola na mesma e, se a vida lhe fosse simpática, também teria oportunidade de ter uma carreira no futebol e de chamar a atenção de Fernando Santos. Bastaria, suponho, que marcasse os tais golos.

Passemos, então, a outro exercício: Neemias Queta tem 19 anos e teve o azar de nascer no Barreiro, com todo o tempo perdido que isso implica em transportes. Ora, o Neemias é um português bacteriologicamente puro e poderá ser mesmo o primeiro português em geral a ir parar à NBA em particular. Se um dia o Neemias nos trocasse pela seleção dos Estados Unidos, íamos ficar muito chateados. Então andamos nós a apostar forte em miúdos do Barreiro e eles depois deixam-se seduzir por qualquer país que nos dá uma coça no PIB? Nem pensar, o Neemias é nosso e há de ser. Portugal! Portugal! Portugal! E o que é que isto tem a ver com o Dyego? Então, simples: o Dyego nasceu no Brasil, por isso que vá jogar pela terra dele. Como o Neemias, que é do Barreiro.

Ora, eu gosto de imaginar um mundo em que as fronteiras não são mais do que burocracias chatas para pessoas que curtem viajar. Não costumo distinguir ninguém por nenhum dado que vem no Bilhete de Identidade ou Passaporte, sobretudo se essa pessoa conseguiu enfrentar todos os obstáculos necessários para tirar um Bilhete de Identidade ou Passaporte nas nossas Lojas do Cidadão (Dyego, se me estás a ler, diz lá onde conseguiste arranjar agendamento para fazer o teu). E, sobretudo, não costumo preocupar-me muito com a seleção para isto ser um problema para mim.

Já nos clubes, a conversa é outra. Aliás, andam sempre a dizer que os adeptos fanáticos são isto e aquilo e, neste campo, a verdade é que estamos muito mais à frente. Porque nós aceitamos tudo. Aceitamos o avançado das Caxinas ou do Mali, o defesa que veio do Uruguai e até passou pelo Benfica, coitado, e, sobretudo, o guarda-redes que já foi uma bandeira de Espanha. Enfim, não somos esquisitos.

O adepto fanático de um clube é, como pode ver-se, bem mais tolerante. A não ser, claro, que esse mesmo clube perca aquele jogo importantíssimo de pré-época contra uma equipa da terceira divisão luxemburguesa. Aí, vale tudo. É insultar tudo e todos, mandá-los embora para a terra deles, seja ela qual for. Super inclusivos, sempre. Perder, nunca.

Agora, na seleção, a malta é fina. Só querem portugueses nascidos em Portugal, com mais de 1,75m e capazes de declamar os Lusíadas de cor. Ora, tenho uma má notícia para vocês: desconfio que, com esses critérios, não iam muito longe. E sabem que mais? O Éder nasceu em Bissau, por isso deixem-se de coisas. Em Portugal cabe o Dyego, o Pepe, o Éder, o André, o Bruno e o Bernardo. Se a seleção é de todos, não excluam ninguém.