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Lá Em Casa Mando Eu

Uma carta a Iker: é bom saber que há coisas que estão acima da rivalidade e irracionalidade que todos os fins de semana nos apaixona e cega

Catarina Pereira ficou incrédula quando soube que Iker Casillas ia para o FC Porto e foi essa mesma incredulidade que sentiu quando soube que o guarda-redes portista tinha tido um enfarte. E emocionou-se

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

Hector Vivas

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Já lá vão quase quatro anos desde aquele dia em que tive de ler bem as notícias para assimilar a informação. Iker Casillas no FC Porto, Iker Casillas no FC Porto, Iker Casillas no FC Porto. Palavras que nunca pensei virem a juntar-se para formar esta frase. Como assim, Iker Casillas no FC Porto? O Iker Casillas? Campeão do mundo, bicampeão europeu e vencedor de mil e uma coisas no Real Madrid? Não é possível, não parecia possível, mas foi.

Curiosamente, mesmo quase quatro anos depois, continua a ser meio esquisito para mim ter Iker Casillas na baliza. Quando ele entra para o aquecimento, sendo o primeiro a aparecer, naqueles momentos em que estamos nervosos a pensar no adversário, ou na lesão que nos deixa sem alguém, ou nos pontos que não podemos perder, enfim, bate-me sempre assim uma sensação estranha: Catarina, tens o Iker Casillas na baliza. Relaxa, mulher! Enfim, acho que ainda não assimilei bem.

Depois, tem sido uma questão de desfrutar. Desfrutar das defesas decisivas, desfrutar das exibições enormes nos momentos mais difíceis, desfrutar do campeão do mundo, bicampeão europeu e vencedor de mil e uma coisas no Real Madrid que vai para o banco na Taça da Liga, num domingo à noite com muito frio e chuva, num estádio qualquer no fim do mundo, e passa 90 minutos de pé, nervoso e a dar indicações aos colegas, como se, de repente, aquela vitória fosse a mais importante da sua vida.

Ficámos hoje a saber que não era, nunca foi. A vitória mais importante seria, afinal, a que nunca imaginaríamos sequer que pudesse ter. Iker Casillas teve um enfarte, Iker Casillas teve um enfarte, Iker Casillas teve um enfarte. Ora aí estava uma frase sem sentido nenhum. Voltei a ter de ler e reler várias vezes. Talvez não tenha ainda assimilado.

O que se seguiu foi a prova que faltava (e que não queríamos ter) de que o FC Porto tem na baliza uma lenda do futebol mundial. Clubes, jogadores, presidentes, ligas, seleções, os melhores do mundo, os melhores de sempre, aqueles que já nem sabemos bem o nome mas jogaram com ele ou contra ele, os colegas e os rivais, os adeptos de todo o lado, os mais pequenos que sonham em ser como ele, os mais velhos que se lembram do Casillas de borbulhas na cara na baliza desse tal de Real Madrid, todos, todos a pensar nele.

Emocionei-me com cada mensagem, com cada imagem. Não que duvidasse disso, mas é bom saber que há coisas que estão muito acima do futebol, da rivalidade, da irracionalidade que todos os fins de semana nos apaixona e cega. Iker Casillas é dos poucos (senão único) que nos podia ter unido hoje. E, no meio da ansiedade por boas notícias (que felizmente têm chegado nas últimas horas), foi bonito constatar que estivemos todos ao nível do momento.

Já vi, entretanto, Iker na cama do hospital a fazer um daqueles sorrisos que nos aquece, curiosamente, o coração. E é só isso que interessa agora. Que Casillas recupere, que saia daquela cama e vá para junto de quem não vê tudo isto com o coração de adepto preocupado com o ídolo, ou o guarda-redes, ou a estrela, mas com o coração nas mãos de quem ama o pai, o marido, o filho.

Não sei se hoje foi o fim da carreira de Iker Casillas, não sei que efeito isto poderá ter na equipa, não sei de nada, nem quero saber. Quero apenas continuar a desfrutar. Desfrutar do homem que passeia pela Foz, que anda de bicicleta, toma café e leva a família a jantar fora. Desfrutar do ídolo e da pessoa completamente normal. Desfrutar do portista e portuense que nasceu naquele dia, há quase quatro anos, quando eu nem conseguia acreditar no que estava a ler.

Força, Iker! Pregaste-nos um valente susto, mas já estamos a recuperar. Devagarinho, que isto custa.