Tribuna Expresso

Perfil

Lá Em Casa Mando Eu

Uma carta de Lá Em Casa Mando Eu aos amigos brasileiros: Jesus é um treinador do caraças e com ele tudo é possível. Até acabar de joelhos

Catarina Pereira é uma entendida no assunto Jorge Jesus, pois teve-o como adversário no Benfica e no Sporting. E é nesta condição de especialista em J.J. que decidiu escrever uma carta aberta ao Brasil do Flamengo e também do Brasil dos outros clubes todos que ainda não perceberam o que ali vem. Preparem-se

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

O inimitável Jorge Jesus, aqui a cantar o fado com a fadista Fábia Rebordão. Mais popular, impossível, meus caros amigos brasileiros

ANDR\303\211 KOSTERS

Partilhar

Jorge Jesus no Flamengo está a motivar muita curiosidade da parte de milhões de brasileiros, uma vez que não é muito normal o treinador com mais títulos da Europa aceitar ir treinar para a América do Norte.

Ora, espero que tenham reparado que o Brasil não fica na América do Norte (boa tarde Paulo Fonseca!), assim como Jorge Jesus não é o treinador com mais títulos da Europa, embora eu aposte que ele esteja convencido de algo do género.

Portanto, serve esta introdução para vos apresentar Jorge Jesus, visto pelos olhos de uma sua constante adversária. Foram seis anos no Benfica e três no Sporting, um currículo que não desejo nem ao pior dos meus inimigos, que às vezes, curiosamente, foi mesmo Jorge Jesus.

Isto sem contar com os anos de Braga, Belenenses, Estrela da Amadora, etc. No fundo, Jorge Jesus fez uma Volta a Portugal em treinos, evitando com muito cuidado o meu querido clube. Uma decisão que nunca saberemos se só fez com que Jorge Jesus evitasse muitos títulos, ou se fez com que o FC Porto evitasse alguns.

Mas foquemo-nos, então, em Jorge Jesus como adversário. Posso dizer, seguramente, que sou uma especialista, o que é muito raro acontecer com temas sobre os quais me pedem para escrever aqui. Recordo: foram seis anos no Benfica e três no Sporting. E Jorge Jesus, amigos brasileiros, apenas foi campeão três vezes, embora ele já vos deva ter dito que, nestes nove anos, foi campeão dez.

Ora, também tenho de ser justa e admitir que os três anos no Sporting não contam bem como anos em que um treinador não é campeão, porque seria o mesmo que dizer-vos “fulano tal esteve três anos no Sacavenense e não foi campeão europeu”. É um facto, mas vocês nunca estariam à espera que isso acontecesse, por isso seria apenas cruel referi-lo.

Assim sendo, mais vale centrarmo-nos nos seis anos no Benfica. Quando Jorge Jesus lá chegou, o FC Porto era tetracampeão nacional, embora provavelmente Jorge Jesus já vos tenha dito que, nessa altura, o FC Porto era tetracampeão planetário e o Benfica estava nos torneios inter-turmas de Carnide. Uma visão que, agora que a escrevi, me parece um sonho. Mas adiante.

Jorge Jesus foi campeão no Benfica logo em 2009/2010, naquele que ficou conhecido aqui em Portugal como o campeonato do túnel. Não vou chatear-vos muito com isto, mas imaginem que o vosso melhor jogador é proibido de jogar durante 17 jogos e depois vem alguém dizer “epa, desculpem lá, afinal não era nada disto”. Talvez isso tenha tido influência no campeonato, talvez o ovo tenha nascido primeiro do que a galinha, enfim, nunca saberemos.

O que ficámos a saber é que a injustiça dessa época serviu de motivação para a seguinte, em que Jorge Jesus viu o FC Porto vencer quatro títulos, com alguma contribuição do próprio Jorge Jesus. Foi nessa temporada, por exemplo, que Jorge Jesus colocou David Luiz a defesa-esquerdo no Estádio do Dragão, porque Jorge Jesus sabia que não era qualquer um que podia marcar Hulk, o tal que nos tinham tirado durante 17 jogos. Resultado: 5-0 e nem sequer foi a pior noite de sempre para David Luiz. Nem para Jorge Jesus.

Também foi nessa época que Jorge Jesus facilitou num jogo em casa com o Portimonense, possibilitando que o FC Porto fosse à Luz festejar a conquista do campeonato. Matemática não é o seu forte. Iluminação e rega também julgo que não.

E também foi nesse ano que Jorge Jesus ficou de peito cheio com uma vitória por 2-0 no Dragão, para a Taça de Portugal, mas depois levou uns 3-1 na Luz e passou-lhe. Enfim, foi um ano incrível.

Mas seria injusto avaliar o trabalho de Jorge Jesus no Benfica apenas pelos títulos (do FC Porto). A verdade é que foi com Jorge Jesus que o Benfica voltou a fazer negócios de milhões, foi ele que valorizou esses jogadores e esses plantéis e é a ele que devem isso tudo, enquanto o FC Porto era campeão com o Kléber e o Janko na frente.

E, de repente, chegamos a 2012/2013. É difícil explicar-vos o que foi esta época, mas vou tentar resumir: FC Porto e Benfica perdiam poucos pontos, tinham grandes plantéis e tinham dois treinadores obcecados com o treino, com o jogo, com a vitória. O resultado foi uma luta titânica até ao final, que ocorreu num certo minuto 92, com o remate de um certo brasileiro.

Portanto, aquele que foi um dos melhores campeonatos de sempre, com dois treinadores a prepararem as suas equipas da melhor maneira possível, com jogadores incríveis como James e Matic, Jackson e Rodrigo, etc etc, esse mesmo campeonato foi decidido com um remate de longe, ao minuto 92, de um jogador chamado Kelvin que estava a ser marcado por um jogador chamado Roderick. Incrível, não é?

Agora vamos todos parar este texto para ir ao YouTube ver vídeos sobre isto. “Kelvin golo Benfica”. Que maravilha! Ah, e Jorge Jesus, onde estava naquela altura? Vejam lá o vídeo outra vez. Sim, sim, é ele. De joelhos. O futebol é cruel. É que – SPOILER ALERT! – acho que esse até pode nem ter sido o pior momento de Jorge Jesus nessas semanas.

Seguiram-se a final da Liga Europa e a final da Taça de Portugal, a primeira também perdida ao minuto 92 e a segunda perdida para Rui Vitória. Julgo que, chegados aqui, a um título perdido contra uma equipa treinada por Rui Vitória, percebemos que é difícil imaginar cenário mais apocalíptico. Até houve um certo jogador que quis bater em Jorge Jesus e até nisto – SPOILER ALERT! – podemos avisar que não seria a única vez na carreira de Jorge Jesus que alguém da própria equipa queria bater-lhe.

Depois disto, só podia ser a subir. Jorge Jesus foi campeão no Benfica dois anos seguidos, um deles contra Lopetegui - ou Lotopegui, depende de quem for o interlocutor. Foi uma época esquisita, mas não vou chatear-vos muito com isto, porque nem Jorge Jesus gosta de falar do que sabe sobre o que se passou ali.

Jorge Jesus protagonizou depois a grande transferência do futebol português nos últimos anos, ao trocar o Benfica pelo Sporting. A mudança, por acaso, até nem se traduziu em grande coisa: o Benfica continuou a ser campeão de forma esquisita e o Sporting continuou a não ser campeão.

Mas foram tempos também eles, à sua maneira, verdadeiramente incríveis. Jorge Jesus era treinador do Sporting, que, por sua vez, era presidido por Bruno de Carvalho e o coração de um adepto adversário palpitava de excitação ao imaginar o dia em que os dois se chateassem. Mas não aconteceu bem como sonhávamos. Foi bem melhor.

Lá está, foram seis anos no Benfica e três no Sporting. Foi muito tempo com Jorge Jesus do outro lado. E nada como uma adversária para admitir isto: Jorge Jesus é um treinador do caraças. É difícil encontrar um jogador que tenha passado por ele e não diga que foi o melhor treinador que teve na carreira. Como é difícil encontrar um jornalista que tenha ido a uma conferência de imprensa com ele e não diga que foi o melhor treinador que ouviu na carreira. Como é difícil encontrar um adepto de futebol que não se pique com ele por causa de todo aquele egocentrismo e fanfarronice, mas o adore por tornar os nossos dias bem mais divertidos do que todo este cinzentismo de “levantar a cabeça” e “treino a treino” e “que ganhe o melhor”.

Jorge Jesus mudou o futebol português e pode agora mudar o futebol brasileiro. Os adeptos do Flamengo que se preparem: vão ter um treinador obcecado com o treino, com o jogo, com a vitória. E os adeptos adversários que se preparem: tudo é possível, até acabar de joelhos.