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Lá Em Casa Mando Eu

Lá Em Casa Mando Eu escreveu o discurso de BdC: “Bardamerda para quem não me quer como r̶e̶i̶ presidente e não me segue no Facebook”

Sábado é dia cheio no Sporting Clube de Portugal: os sócios vão votar a expulsão de sócio de Bruno de Carvalho no Pavilhão João Rocha e a Tribuna Expresso antecipa o que o ex-presidente dirá na AG. Está tudo na cabeça de Catarina Pereira, que idealizou o conceito e escreveu-o neste texto

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

Foto Carlos Costa / Getty Images

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Os sócios do Sporting vão decidir este sábado se Bruno de Carvalho vai ser expulso de sócio, a sanção mais pesada dos estatutos do clube, a seguir ao impedimento de celebração de títulos, embora, neste último caso, seja um castigo inerente ao ato de ser sócio/adepto/simpatizante do Sporting.

Convenhamos que não é muito normal ver um presidente nesta situação. Aliás, desde que Luís Filipe Vieira foi expulso de sócio do FC Porto e do Sporting que não se assistia a uma coisa desta dimensão. Como tal, acredito que os sócios do Sporting tenham refletido profundamente sobre o seu sentido de voto e daqui aproveito para me solidarizar com todos os que têm mantido a sua sanidade mental e o seu amor ao clube intactos.

Ainda assim, é com muita pena que constato que Bruno de Carvalho decidiu não ir à Assembleia-Geral deste sábado, porque já lhe tinha escrito o discurso que ia convencer tudo e todos de que não só não deveria ser expulso de sócio, como deveria ter uma frase sua numa estátua. O quê? Ai é? Ah, pronto.

Aproveito, então, para deixar aqui o discurso. Porque só a história poderá julgar a presidência de Bruno de Carvalho. Ou o Tribunal de Instrução Criminal do Barreiro.

Caros sportinguistas e sportingados,
Venho aqui, hoje, defender-me do que me acusam, não só porque me deram essa oportunidade, mas sobretudo porque as redes sociais têm andado em baixo e o que eu escrevo lá pode não ter assim tanto impacto.

Ah, que saudades do tempo em que o presidente do Sporting podia exprimir-se livremente no Facebook, sem as amarras do politicamente correto e do Nuno Saraiva, que, parecendo que não, são dois conceitos que até podem coabitar na mesma frase.

Antes de mais, deixem-me falar para aqueles que dizem que eu só penso em mim, só falo em mim, só vivo concentrado em mim, pois isso não é verdade. Nos anos em que fui presidente do Sporting, soube sempre que, a seguir a mim, o Sporting era a melhor coisa do mundo.

E é por isso que me bastará recordar-vos o que foi o Sporting comigo à frente para vos convencer a não me expulsarem de sócio do clube. Enquanto fui presidente, o Sporting voltou a ser um clube grande, vencendo uma Taça de Portugal, uma Supertaça e uma Taça da Liga, e algumas delas não foram contra o FC Porto nos penáltis.

Só não fomos campeões por culpa do Leonardo Jardim, do Marco Silva e do Jorge Jesus. Eu não sou de intrigas, mas alguns deles nem sequer usavam sempre fato durante um jogo de futebol. Isto, no Sporting, é o equivalente a alguém ir a uma prova de hipismo e dizer um palavrão. Ou pior: ir a um baile de debutantes e comer croquetes.

Ah, os croquetes. Se não fosse eu, os adeptos do Sporting ainda não se tinham apercebido da divisão que há no clube: por um lado, os que defendem um clube para todos, sem merdas; por outro, os que fazem do Sporting um clube de elite, refém de algumas famílias e de sapatos de vela.

Ora, o que eu me apercebi após estes anos na presidência - sobretudo com a ajuda da Catarina Pereira, que me escreveu este excelente discurso -, é que os clubes que eu imaginei na minha cabeça já existem, não se chamam é Sporting Clube de Portugal. Também há outras coisas que imaginei na minha cabeça, mas ninguém acredita que existe um monstro que come bancos e que se chama “Ricci”. Enfim.

Afinal, os croquetes estão para o Sporting como os emails para o Benfica: existem, são reais e provocam danos, mas no fim os maus ganham sempre.

E foi por isso que correram comigo, mesmo tendo sido eu a lutar contra os interesses instalados pelos fundos de investimento e contra a corrupção no futebol. As pessoas hoje não sabem quem é a Doyen ou o Benfica, mas é graças a mim que podem dormir com os três olhos fechados.

[Começar a elevar o tom de voz, galvanizando o público]

Eu nem sou de me gabar destas coisas, mas também foi comigo que fomos campeões europeus de corta-mato! Em feminino e masculino!

[Parar para deixar o pavilhão vibrar, gritar, celebrar em euforia a memória destas conquistas]

(30 minutos depois, que é o tempo que os sportinguistas demoram a acalmar-se depois de se falar em modalidades)

Apesar de tudo isto, conseguiram afastar-me e agora até nem me querem como sócio do Sporting Clube de Portugal. E isto é trágico, deplorável, condenável, lastimoso. Só não é chato, porque essa palavra eu reservo para alturas mesmo graves.

Mas eu acredito nos sportinguistas, nos sportingados e, sobretudo, no meu tio-avô, Pinheiro de Azevedo, porque “bardamerda” para todos os que não votam em mim, não me querem como rei presidente deste clube e nem sequer me seguem no Facebook.

E, já agora, a Catarina Pereira manda dizer que isto do “bardamerda” foi o pior momento da minha presidência, porque foi o sinal claro para a elite resgatar o Sporting para as suas mãos. Um presidente de um clube do povo tinha dito outra coisa, que a Catarina Pereira não escreve aqui por respeito. Nos clubes do povo, nem sequer se sabe o que quer dizer “bardamerda”.

Ah, e para terminar, quero pedir desculpas a Nosso Senhor Jorge Nuno Pinto da Costa. Foi estúpido tudo aquilo que eu disse. Ele é o maior. E o FC Porto é lindo. Adeus”