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Será que é Danilo que está mal? Será que algo se passou, ou algo se passa? Ou será que sou eu? (por Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira assume que é portista - oh, o choque - e que há algo de particularmente intrigante naquele segundo golo sofrido pelo FC Porto em Roterdão. E é por isso que a nossa cronista lança estas dúvidas

Catarina Pereira, Lá Em Casa Mando Eu

Soccrates Images

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O segundo golo sofrido pelo FCPorto naquela quinta-feira em Roterdão não deveria ter uma grande história para contar. Primeiro, porque o FCPorto não devia jogar à quinta-feira. Depois, porque quem viu o jogo sabia que, a qualquer momento, tanto podíamos ter marcado algum golo, como podíamos ter sofrido mais.

Ora, dizia eu, o segundo golo sofrido pelo FCPorto naquela quinta-feira em Roterdão não deveria ter uma grande história para contar. Mas teve. Porque nasce de um mau passe de um jogador que, depois, fica imediatamente estático. Imóvel. Parado. E todos os sinónimos de que se lembrarem.

Atenção, corria o minuto 79, o jogo não foi fácil e é normal os jogadores estarem cansados. O estilo de jogo deste FCPorto exige que aqueles rapazes estejam sempre a correr, sempre com a intensidade no máximo, sempre a rasgar, sempre em pressão, e, afinal de contas, eles não podem aguentar sempre. Já o vimos noutros momentos das últimas épocas: às vezes, a vontade não chega e ficamos mal na fotografia.

A questão que ficou, pelo menos para quem assistiu ao jogo sentadinha no sofá, foi a seguinte: mas houve sequer vontade? Bem, pelas imagens, não pareceu. Como não gosto de assumir como certa uma atitude apenas por um conjunto de frames que me chega a casa, admiti a hipótese de algo ter acontecido ao jogador, tendo ficado à espera de, nas horas seguintes, ser informada sobre alguma lesão, excluindo a paragem cerebral.

Não aconteceu. Até hoje, não soube de mais nada, além do treinador ter dito que houve “falta de agressividade” nesse lance e que era “difícil de explicar”. Portanto, parece que podemos assumir que foi uma incidência do jogo. O que me leva à segunda parte deste texto.

Eu sou do FCPorto. Não sei se já tinham reparado, perdoem-me o choque se for o caso. E sei muito bem o que é ser do FCPorto. Levo 32 anos de uma intensa dedicação ao clube e, mesmo sabendo que estou velha e que todo este mundo do futebol mudou, ainda acho que o conheço.

E, no FCPorto que eu acho que conheço, o segundo golo sofrido naquela quinta-feira em Roterdão não deveria ter uma grande história para contar. Primeiro, porque o FCPorto não devia jogar à quinta-feira. Depois, porque nunca um jogador seria capaz de fazer aquilo.

Ora, como eu dizia, todo este mundo do futebol mudou. E, com isso, mudaram também os nossos ídolos.

Parece que Danilo Pereira, o capitão do FCPorto, é o meu atual ídolo. Chamo-lhe senhor comendador não só porque o é, mas porque o sinto. Gosto de o ver jogar, gosto de o ouvir falar e criei uma imagem na minha cabeça em que, mais do que um jogador, é um pensador.

Depois uma pessoa olha para o segundo golo sofrido pelo FCPorto naquela quinta-feira em Roterdão e, de facto, vê ali um pensador, no sentido em que está mesmo só a pensar a jogada, mas não vê o jogador. Eu, pelo menos, não vi nada ali de Danilo. Aliás, nem de Danilo, nem de nenhum jogador do FCPorto, à exceção daqueles que terminaram na Sibéria depois de não terem dado exatamente tudo pela equipa.

Portanto, tudo isto me levou a pensar: será que é Danilo que está mal? Será que algo se passou, ou algo se passa, que o fez ter aquela atitude? Ou será que sou eu? Na medida em que, aos 32 anos, tenho um ídolo capaz de fazer aquilo? Ou será, ainda, que não há nada de mal nisto tudo, que foi uma coisa que acontece e que não é preciso entrar em pânico ou sequer dar muita atenção a isso, matando este texto à partida?

De qualquer forma, o segundo golo sofrido pelo FCPorto naquela quinta-feira em Roterdão ficou com esta história para contar. E, da próxima vez que algum jornalista puder questionar Danilo, vai falar-lhe disto. E ele vai responder que já deu tudo pelo FCPorto, que foi só um lance infeliz e que a Catarina Pereira tem mais com que se preocupar. Muito bem, senhor comendador, muito bem.