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Crónicas de mãe confinada com duas crianças há um mês que desconfia que algo está para acontecer - e pode não ser bom (Lá Em Casa Mando Eu)

Catarina Pereira, a adepta fanática do FC Porto, garante que a pandemia vai alterar completamente a forma como se celebra o futebol

MIGUEL RIOPA

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Estamos a entrar na reta final de abril, o que, em condições normais, significaria que faltaria mais ou menos um mês para terminar a época. Ora, em condições normais, com umas 5 jornadas para o fim da Liga e uma final da Taça para se jogar, estaríamos todos algures naquela fase em que a relativamente pouca sanidade mental de um adepto fanático de futebol abana a qualquer susto nos últimos minutos, a cada ponto perdido, ou a cada declaração infeliz de um interveniente do mundo da bola.

No entanto, aqui estamos, mais do que tranquilos em relação a isto. Ninguém quer saber do Paços de Ferreira-FC Porto que se jogaria este fim de semana, ou se vai ser antes ou depois do supostamente escaldante Marítimo-Benfica da mesma jornada. Ninguém pensa como estaria o Sporting de Rúben Amorim, por estes dias a receber o sempre difícil Gil Vicente, ou o Sporting de Braga de Custódio, com uma deslocação prometedora a Vila do Conde (de onde é o Rio Ave, para os que estão mesmo já todos fritos com o confinamento).

De repente, parece que os pontos não interessam, parece que isto não costuma ser aquela coisa que concentra demasiada da nossa atenção, da nossa paixão. Estamos todos calmos, ninguém discute este assunto, não há provocações ou golpes baixos. Não há aquele penálti duvidoso, aquele defesa que parece ter facilitado para o nosso rival, ou aquele árbitro que é um …. (inserir qualquer tipo de insulto, deixo ao vosso critério.

Estou fechada numa casa com duas crianças há mais de um mês e deixei de saber o que é isso: não que não me passem pela cabeça, oh se passam!, simplesmente não os posso dizer).

Acho até que nós, os adeptos fanáticos de futebol, nunca fomos de uma elevação tão grande na reta final de abril. E é com este orgulho que acabei de sentir que, à medida que se começa a querer pensar em regressar ao mundo lá fora, também me parece que estão a crescer as pressões para que isto do vírus ou lá o que é não seja assim tãaaaaaaaao dramático. Porque, afinal, há um campeonato para acabar.

E claro que queremos todos que isso acabe, que haja campeão (idealmente o FC Porto, caso contrário isto ficará para sempre minado, obviamente), que haja descidas e subidas, que haja competição, que haja bons jogos e grandes golos, que os jogadores possam mostrar o que valem, que os treinadores possam voltar a entreter-nos/adormecer-nos nas conferências de imprensa, que voltem as picardias tão saudáveis ao nosso dia a dia.

Sim, se isso acontecer, vai ser giro. Nós gostamos de futebol e somos adeptos fanáticos, portanto nem sequer somos muito exigentes.

Mas alguém anda mesmo a pensar nisso? Fora quem vive disso, estamos mesmo preocupados com a maneira como pode acabar-se esta época? Não sei se é de mim – que, não sei se já vos disse, mas estou fechada em casa com duas crianças há mais de um mês e a trabalhar ao mesmo tempo -, mas não me parece que isto seja um tema central da nossa sociedade neste momento.

Não que não esteja a acompanhar todas as tentativas de nos convencerem que vai correr tudo bem com esta época, com um arco-íris de esperança e desenhos mais ou menos compreensíveis nesse sentido. Por exemplo, pareceu-me que ainda se falava num pico da pandemia em maio e já estava alguém a querer dizer-nos que, nessa altura, os jogadores podiam ser todos isolados algures no Algarve para começarem mas é a jogar à bola, que é o que faz falta.

Também não sei se é de mim – que ando a comer mais açúcar e a beber mais álcool do que o normal -, mas não senti que estivessem propriamente a pensar em nós, adeptos fanáticos de futebol, que, além de não andarmos muito preocupados com isto, não temos como ideal de fim de época um conjunto de ratinhos, perdão, equipas isoladas para trocarem umas bolas num estádio vazio, com poucos dias de descanso que é para ainda caber tudo.

Pois, bem sei que o fim desta época não significa só um título de campeão, ou subidas e descidas e qualificações europeias. A pressão, ao que parece, não vem daquela vontade que temos de festejar um título com os nossos, no local do costume. Porque, aconteça o que acontecer, dificilmente vamos estar com os nossos, e muito menos todos juntos no local do costume.

Mas percebo que o futebol é só mais um dos setores em pânico com as consequências económicas da paragem, portanto desconfio que algo vai mesmo acontecer. Não sei o quê, mas pronto, cá estaremos para averiguar (desfrutar é que já não me parece). A julgar pelo que vi naquele treino do Nacional, só tenho a certeza de uma coisa: vai ser um fim de época brutal para quem gosta de bolas longas e jogadores bem estendidos no campo. Por mim, já sabem, decidam o que decidirem, não há drama nenhum desde que o meu clube seja campeão.

Oh caraças, só de escrever isto até fiquei ansiosa por aquele Paços de Ferreira-FCPorto.