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Lá Em Casa Mando Eu

O #11DaBancada de Lá em Casa Mando Eu é uma lição de portismo: PdC, o senhor da Arquibancada, o trompete, um podcast e um avô inspirador

Catarina Pereira foi desafiada por Vasco Mendonça para apontar o seu #11DaBancada e o resultado é um grupo de portistas, claro está

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Fui desafiada pelo Vasco Mendonça a escolher 11 adeptos do FC Porto que me tenham influenciado e não foi fácil, porque tive a sorte de crescer entre tantos deles que reduzir a este número será sempre injusto.

Tentei, no entanto, ser justa com as várias faces do meu portismo: a família, os amigos, as figuras do clube, os ídolos, as viagens, as redes sociais.

Escrevo com uma enorme esperança de que alguém, um dia, possa também dizer que o seu portismo foi influenciado por mim. E sim, estou a pensar nos meus filhos, mas como isto anda mais vale tentar com algum dos vossos.

Espero que se divirtam e lanço depois o desafio para o Manuel Neves, meu marido, e o Pedro Pereira, meu pai. Não se esqueçam: hashtag #11DaBancada.

Pinto da Costa

Pronto, já está. O meu texto foi um bocadinho mais fácil de escrever 😊

José Maria Pedroto

Também tinha de ser. Não vivi o FC Porto de Pedroto, mas acredito que vivi o meu FC Porto também por causa de Pedroto.

Arranjei esta frase bonita para justificar esta escolha, mas a verdade é esta: se eu não escolhesse Pedroto, o meu pai deserdava-me. E o meu pai, não sendo o único culpado pelo meu fanatismo, é o grande culpado por eu ter podido pô-lo em prática. Não sei se muitos pais levaram sempre a filha ao futebol, mas pelo menos eu tenho muita sorte de ter este.

Ora, dizia eu, se eu não escolhesse Pedroto, mesmo aos 33 anos, podia sofrer um valente castigo: é que ainda é o meu pai que me paga as quotas.

João Pinto

Ao longo do tempo, tive e tenho vários ídolos - o maior, provavelmente Vítor Baía. Mas escolhi João Pinto porque penso ser unânime que, se é para escolher portistas, sejam 11, 10, 5 ou 1, tem de estar lá o João Pinto.

Tenho alguma memória de o ver jogar, mas fiquei mais marcada por aquelas imagens dele sem largar a Taça dos Campeões Europeus do que seria de esperar de um bebé de seis meses.

Confesso que, sempre que ganhamos um título, estou à espera que ele entre em campo e se agarre novamente ao troféu.

João Pinto tinha de estar aqui. Pelo espírito, pela garra, pela tal mística. Todas as equipas do FC Porto deviam ter um João Pinto e ainda bem que o clube soube mantê-lo por perto.

O senhor da Arquibancada que mandava a equipa subir

Apesar de já ter mais anos de Estádio do Dragão do que de Estádio das Antas (e só reparei nisto agora mesmo, estou chocada), confesso que sou daquelas que tem saudades. É óbvio que temos hoje outras condições, mas não me esqueço daquele Tribunal.

Pessoalmente, cresci mais pela Arquibancada e tenho uma vaga memória de algumas personagens.

Ainda hoje, lá em casa, quando alguém se entusiasma com indicações táticas, nos referimos àquele senhor da Arquibancada que mandava a equipa subir.

Hoje há quem vá para os estádios filmar estas pessoas e colocar nas redes sociais, para gozar com elas. Por mim, era identificar todos estes vândalos sem sentimentos e expulsá-los do estádio (os que filmam, claro, não os que vivem isto como deve ser).

Senhor Lourenço

Portista que é portista tem o som de um trompete entranhado nos ouvidos, e deve-o ao senhor Lourenço.

Isto do clubismo não se mede, mas o portismo do senhor Lourenço ouve-se ao longe, e bem. É um som que nos diz que ele está sempre lá: no estádio, no pavilhão, em casa, ou fora. Lembro-me dele contar que só não esteve na inauguração do Estádio do Dragão, porque a mulher morreu. Só soube isso anos depois. Sinceramente, se tivesse sabido no dia, acho que tinha exigido que não houvesse aquela festa toda.

Vi uma reportagem há dias que mostrava o senhor Lourenço a tocar trompete à varanda, neste período de confinamento. Quando comecei a namorar com o meu marido, ele disse-me que o seu maior pesadelo futebolístico era o som daquele trompete. Suponho que aquele som lhe lembre que ali quem manda é o FC Porto – e o senhor Lourenço. Ainda bem, para ele, que não fomos morar para Ermesinde.

Casa do FC Porto de Bruxelas

Quem me conhece sabe que não sou nada patriota, não me emociono com a seleção e não sinto necessidade de me identificar com alguém só porque nasceu no mesmo território do que eu. No entanto, vários anos a acompanhar o FC Porto no estrangeiro abriram-me horizontes, porque conheci o outro lado: o de quem está tão longe, que sente as coisas de outra forma.

Podia escolher muitos exemplos, mas centrei-me na casa de Bruxelas porque uma vez fui lá parar sem querer, para ver um jogo nem sequer muito importante do campeonato. E fiquei impressionada.

Casa cheia, com todas as gerações, todos equipados de cima a baixo, portugueses emigrados há 30 anos ou 30 dias e um Dragão de Ouro imponente. Foram 90 minutos intensos, de desconhecidos que parecia que conheci a vida toda.

Logo eu, que detesto ver jogos em cafés ou restaurantes: se é para estar com muita gente, que seja no estádio. Ora, foi mesmo isso. Ver o jogo ali foi como estar num estádio. E não há melhor elogio do que este, julgo.

Gualter Fatia

As claques

(Tive mais sorte ao escrever este texto do que o Vasco Mendonça, porque o meu clube tem claques e preencho logo aqui um espaço eh eh eh)

Por todos os meus amigos e as minhas amigas das claques, que abdicam de tanta coisa para apoiar os seus clubes (e o meu, neste caso).

A X

Não quis escrever o nome dela, porque não sei se tenho autorização. Mas a X é uma adepta portista que acompanha o FC Porto há décadas. E também já ando cá há tempo suficiente para perceber que não é fácil uma mulher manter-se no mundo do futebol.

Por isso, todo o meu respeito pela X e por todas as mulheres que lutam contra aquele machismozinho básico que nos persegue para quase todo o lado.

A Culpa é do Cavani

Desde que sou mãe, perdi muito do tempo que utilizava para ler, ver ou ouvir discussões interessantes sobre futebol. E isto foi azar, porque acho que cada vez temos uma maior oferta nesse sentido.

No entanto, enquanto cresce a vontade e a oportunidade de um comum e mortal adepto produzir conteúdos, os clubes fecham-se cada vez mais e andamos todos a tentar inventar coisas relevantes sobre eles.

E é uma pena que assim seja, porque não percebo como se comunica um clube sem adeptos.

Sendo assim, juntando todas estas condicionantes, tornei-me ouvinte do podcast A Culpa é do Cavani, sobretudo porque já era leitora do Porta19. Ouço-os porque são portistas, mesmo portistas, porque pensam, porque são livres e porque preciso de ouvir aquele sotaque. Aconselho muito.

Joana Marques

É mulher, vive em Lisboa, casou com um benfiquista e é uma portista doente. Tudo características que me impressionam, naturalmente. Além disso, é inteligentíssima e tem um sentido de humor apurado. Tudo características que se apagam rapidamente quando conversamos sobre futebol. A Joana inspira-me várias vezes, sobretudo a ser mais selvagem com os nossos cônjuges.

A minha família

Vão em último, quando na verdade estão em primeiro. Sou de uma família em que toda a gente é do FC Porto. Sou de uma família com muitas mulheres, todas fanáticas portistas. Sou de uma família em que as crianças são incentivadas a dizer “Porto”, talvez antes mesmo de “mamã” ou “papá”. Não tive grande escolha, e muito obrigada por isso. Este texto é para o meu avô, que era mesmo o maior portista de sempre. Que nunca duvidava, que só via mesmo para um lado e que teve a sensibilidade de perceber rapidamente que era com a única neta entre vários rapazes que podia falar mais de futebol.

O #11DaBancada de Um Azar do Kralj: um novo jogo para entupir as redes sociais

Vasco Mendonça está farto de jogos estúpidos a entupir as redes sociais, por isso decidiu... criar um jogo (que não é estúpido, claro) para (não entupir, claro) as redes sociais. Chama-se #11DaBancada. Vamos a isso?