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Lá Em Casa Mando Eu

A proposta de Lá em Casa Mando Eu para o regresso do futebol: um Big Brother, grande desinfestação da Luz e tática 1x1x1x1x1x1x1x1x1x1x1

Catarina Pereira apresenta-nos 13 pontos essenciais para que o regresso do futebol, ou melhor, da 1.ª Liga, se faça sobre rodas. Contém reminiscências de certa figura de reality show, perdigotos, distanciamento social em cantos e speakers por Zoom

Quality Sport Images/Getty

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Ora então, parece que vamos ter futebol. Vamos continuar distantes, com máscara na cara e gel desinfetante no bolso, mas vamos ter futebol. Não vamos poder celebrar com os nossos as vitórias, nem vamos poder chorar com os nossos as derrotas, mas vamos ter futebol. Não vamos ao estádio, o cachecol vai ser para andar por casa e apoiar a equipa só por telepatia, mas vamos ter futebol. Não vamos ter mais modalidades, acabou tudo e não se pensa mais nisso, mas vamos ter futebol. Aliás, vamos ter I Liga.

Agora que penso, com estas condicionantes todas, já nem sei bem se vamos ter futebol. Mas vamos ter 10 jornadas e até uma final da Taça, pelos vistos. Portanto, aproveitemos, porque há quem tenha decidido isto para ver se nos anima (eh eh, claro que sim…). E eu confesso que ainda não estou preocupada com o facto de ter 11 jogos para o meu clube tentar manter o primeiro lugar e ganhar a Taça. Vou estar, claro, já me conheço e, quando isto recomeçar, também vai voltar a minha pandemia de fanatismo (viram o que fiz aqui? Bem, adiante).

Neste momento, em que ver 22 jogadores, 4 árbitros, equipas técnicas e algum staff num estádio vazio ainda me parece uma coisa distante e irreal, preocupa-me, sinceramente, como é que isto vai ser possível acontecer fintando o bicho. Porque o vírus continua aí e, cientificamente, ainda ninguém conseguiu provar que ele vai respeitar o plano do primeiro-ministro, da Federação, da Liga e de presidentes de três clubes, escolhidos aleatoriamente entre os 18 da primeira divisão, porque nestes tempos não podemos estar todos no mesmo sítio.

Portanto, aqui estou, disponível para ajudar. Ninguém me perguntou nada - e bem -, mas foi para o que me deu. Darei o meu melhor, baseada nos meus vastos conhecimentos de epidemiologia, e até tenho um marido que é médico, sem ser só no Whatsapp.

Porque falta acertar muita coisa sobre como é vamos conseguir disputar 10 jornadas e uma final da Taça, deixo as minhas humildes sugestões, sabendo de antemão que, se forem seguidas à risca, não evitaremos totalmente o contágio por covid-19, mas alcançaremos um excelente estatuto de I Liga mais divertida do mundo:

1 - Parece-me óbvio que as equipas vão ter de ficar isoladas, sem contacto com famílias ou qualquer pessoa exterior ao staff do clube. Os hotéis estão vazios, por isso não deve ser difícil, mas sugiro desde já que os clubes instalem câmaras em todos os quartos, tipo Big Brother, para nós irmos vendo o que os jogadores vão fazendo, já que eles estão ali para nos animar (eh eh, claro que sim…). Confesso que já sinto uma ligeira ansiedade só de imaginar poder ver o Marega a aspirar o quarto, o Vinícius a cozinhar, ou o Acuña a estender a roupa. E Sérgio Conceição a ir ao confessionário: “Eu estou a fazer um esforço realmente enorme, pá, para ganhar tempo, porque há pessoas como o Nakajima, que epá, que não podem ser tão rápidas, pá, que não conseguem fazer tudo de uma vez, pá, e é quando eu vejo que o tempo está a apertar, pá, e que há aí palhaços, pá, que falam, falam, falam, falam, falam, falam, mas não os vejo a fazer nada, pá, já me começo, sei lá, começa realmente já a dar cabo da cabeça, pá”. Mítico.

2 - Também acho importante definirmos já quem precisa mesmo de estar com os jogadores, porque sabemos que a limitação do número de pessoas no mesmo espaço é crucial. Ora, o treinador parece-me evidente, mas estou muito indecisa quanto àqueles casos em que o treinador não é bem o treinador e o adjunto é que é o principal. Por via das dúvidas, equipas com esse esquema se calhar podem acabar já, não? Fica a ideia.

Treinador de guarda-redes está aprovado, preparador físico não vale a pena, porque já estamos a assumir que estamos todos gordos e sedentários da quarentena, logo a exigência baixou.

De resto, talvez seja melhor mantermos por perto aquela pessoa que cada equipa costuma ter no banco para insultar o árbitro e fazer figuras tristes fora das quatro linhas, ou já no relvado, quando é intervalo ou acaba o jogo. Também não podemos esterilizar isto tudo de uma só vez, senão fica esquisito.

Por último, acho que os speakers do estádio deviam entrar, por videoconferência, no início do jogo, para criar aquele ambiente tão característico e essencial no futebol. Eu tenho usado o Zoom na boa, mas se alguém do futebol tiver problemas com hackers, que sugira melhor.

Carlos Rodrigues/Getty

3 - A questão que se coloca é: onde jogar? Posta de parte aquela ideia espetacular de ir tudo para o Algarve, penso que o melhor seria perguntar honestamente aos clubes onde querem jogar, dentro de alguns estádios previamente selecionados, por serem os únicos a poder garantir que há espaço para algum distanciamento social (Paços de Ferreira, Moreira de Cónegos, etc, vai tudo ao ar), que ninguém sai prejudicado e que torne possível concentrarmos as equipas de desinfestação. Ora, assim de repente, como portista, o único estádio que estou a ver que seja grande, que até seja favorável ao meu clube e que claramente está a precisar de uma grande desinfestação é o Estádio da Luz, por isso por mim está feito.

4 - O Governo proibiu os ajuntamentos de mais de 10 pessoas, logo está fora de hipótese continuarmos a jogar todos com 11. Pela parte do FC Porto, sugiro a Sérgio Conceição que defina já a titularidade de Manafá para resolvermos isto. Se Ferro continuar na mesma forma, o Benfica também já está despachado. Para o Sporting é mais difícil, porque não sei se consegue juntar 10.

5 - Quanto aos árbitros, também não precisamos de muitos, porque desconfiamos de todos, e parte deles até está sempre em teletrabalho (vulgo VAR). Que se faça o normal, que é deixar o Benfica escolher, e siga.

6 - Em relação ao jogo propriamente dito, não há nada que saber: tática 1x1x1x1x1x1x1x1x1x1x1 para cima deles, aliás, acabemos já com esta expressão, porque ninguém poderá ir para cima de ninguém.

7 - Penso que os jogadores não deverão usar máscara, a não ser o Uribe quando quiser dar uma festa e precisar de disfarçar.

8 - Vai ter de ser um futebol diferente, com menos contacto, mais passes longos e tolerância zero com espirros, cuspidelas para o chão e tosse. Em caso de qualquer sintoma, o jogador deverá parar de jogar, ligar SNS24 e esperar até ser atendido, ou até o adversário marcar golo. Talvez seja melhor esperar até o adversário marcar golo, sempre é mais rápido.

9 - Em caso de pontapé de canto, só podem estar um máximo de seis jogadores das duas equipas na grande área, mais o guarda-redes. O canto deverá ser batido ao primeiro poste (ficando o segundo reservado para quando já estiver tudo infetado no primeiro) e o jogador que chegue à bola deve gritar “PRIMAS!”, obrigando o adversário que o estava a marcar a atirar-se para o chão e esperar pela sua vez de jogar. Mais uma vez, o Benfica estará em vantagem neste último aspeto, uma vez que tem Ferro.

10 - Em caso de golo, as regras dos festejos são simples: cada jogador deve dirigir-se a um espaço da bancada vazia e bater palmas, em homenagem aos adeptos que estão em casa a sofrer.

11 - Em caso de substituição, o jogador que sair deverá ir diretamente para o hotel, sem insultar o treinador, por causa dos perdigotos. O jogador que entre não pode tocar no chão e benzer-se, pelo que deverá encontrar outra forma de comunicar com Deus, que está sempre tão preocupado com as substituições num jogo de futebol.

12 - Em caso de grande roubalheira do árbitro, cada equipa terá de escolher um jogador para o ir intimidar. Os restantes colegas terão de guardar uma distância de segurança e os adeptos em caso nenhum poderão sair de casa para ir vandalizar a casa ou o local de trabalho do árbitro. São tempos difíceis, sei que estamos a exigir muito uns dos outros, mas vamos conseguir! Vai ficar tudo bem!

13 - Em caso de livre, a barreira deverá formar-se com uma distância de dois metros entre cada jogador. E terminemos com esta imagem, porque acho que diz muito do que estamos a falar.

Portanto, estão lançadas as bases, agora aproveitem o que quiserem. Já o disse, e repito: não acho que o futebol seja importante nesta altura, mas, já que vai haver, todas as decisões serão aceitáveis desde que o FC Porto seja campeão. Ah, e que ninguém apanhe o vírus, pá, era muito chato.