Tribuna Expresso

Perfil

Lá Em Casa Mando Eu

Sou de Faro, não sou do Farense. Escrevo este texto para quem teve glória, abateu gigantes, viu o fim e resistiu (Lá Em Casa Mando Eu)

Manuel Neves, a metade benfiquista de Lá Em Casa Mando Eu, escreve sobre o regresso dos míticos rapazes do São Luís onde o seu clube tinha sempre problemas para sair de lá com um bom resultado. Neste texto, em que a vida de um rapaz se cruza com a de um clube, relatam-se os momentos marcantes do Farense, na hora da subida à I Liga

Manuel Leves, Lá Em Casa Mando Eu

Gualter Fatia

Partilhar

Em primeiro lugar, devo dizer que não devia ser eu a escrever este texto, não tenho as habilitações necessárias. O histórico Sporting Clube Farense subiu à primeira Liga e este que vos escreve é um mero adepto do Benfica crescido em Faro.

Cresci em Faro nos anos noventa, o primeiro estádio a que fui na vida foi o de São Luís, e em 1990 tive a minha primeira dose de bairrismo clubístico quando o Farense alcançou a final da Taça e criou o seu mítico hino.

Para comemorar a ocasião, durante o que terá sido uma semana, mas na minha memória parecem vários anos, o meu infantário colocou colunas de som no exterior e, consecutivamente, o hino (que ainda hoje considero um dos mais bonitos dos clubes portugueses).

Por eu ser mesmo doente do Benfica e por ter nascido em Lisboa (apesar de ter ido para Faro aos três anos e Lisboa significar para mim a casa dos meus avós) foi-me muito ligeiramente perdoado esse pecado capital: ser de Faro e não ser do Farense. Mas sempre que o Benfica jogava com os de Faro, eu era minoritário: em 1992, o Benfica empata 1-1 na Luz sem merecer e sou tratado mal por toda a gente como se tivesse sido eu a fazer o golo do empate.

Com o passar do tempo, o Farense cresce e o São Luís torna-se um pesadelo para quem o visita. Era uma coisa muito anos noventa do Farense: irregular e tremido nos jogos fora, um pequeno monstro quando jogava em casa, quase como se fosse outra equipa.

Para o meu Benfica, visitar Faro era um inferno: empates em 91/92, 92/93 e 93/94 (neste com uma agressão de Schwartz a Hassan que me valeu gritos irritados de um pai de um companheiro de equipa meu...nas escolas do Farense, a sair do campo da “Horta da Areia” ainda equipado. Nem de leão algarvio ao peito me perdoavam não ser deles) e um implacável 4-1 em 94/95.

Mas os de Faro não conheciam alianças e era com ansiedade que eu antecipava as visitas dos rivais do Benfica a Faro. Os gritos farenses das vitórias consecutivas ao FC Porto em 1993 (golo do Hugo) e 1994 (Stefanovic, craque de quem nunca mais ouvi falar) também foram meus.

Paralelamente, eu e o Tiago Palma, meu companheiro de carteira e que tem o emblema do SC Farense tatuado na perna (eu, por exemplo, não tenho o do Benfica tatuado em lado nenhum) jogávamos intermináveis Benficas-Farenses em subbuteo. Até aí, visitar o São Luís era infernal. Quando os pais dele saíam, o Tiago ia buscar fósforos e acendia-os por trás da baliza sul dele na entrada das nossas equipas: eram as tochas dos South Side Boys.

O Farense, durante os anos 90, torna-se mítico. Tem adeptos, tem sempre o mesmo treinador – eterno Paco Fortes – e tem uma fortaleza que parece a aldeia gaulesa, bêbada de poção mágica para enfrentar os invasores. Em 94/95, com Hassan melhor marcador, atinge o 5º lugar e alcança a classificação europeia (que só será festejada com a derrota do Marítimo, no Jamor, contra o Sporting). Recordo-me perfeitamente de um 4-0 ao Marítimo com o estádio todo a cantar o “bailinho da Madeira” com palmas a compasso. Ninguém passava ali e a aldeia gaulesa chegava à Europa.

Sucedem-se jogadores míticos (Peter Rufai, Hajry, Sérgio Duarte, Hassan, Djukic, Paixão, Marco Nuno, Marco Aurélio), a classificação não volta a ser mesma, mas a identidade mantém-se. O estádio é um vulcão nas últimas jornadas para impedir descidas e a visita a Faro continua a ser uma armadilha para os três grandes.

Até que, vítima de uma crise económica e com a cidade ligeiramente divorciada do clube (soou sempre a falso e plástico a vinda de investidores estrangeiros), o Farense cai da primeira divisão em 2001/2002, coincidindo precisamente com o último ano em que estou em Faro antes de vir estudar e depois ficar em Lisboa.

A crise agrava-se e o Farense desce consecutivamente de divisão. Em 2005/2006 não chega a inscrever a equipa sénior (apresentando-se em vários jogos com os juniores) e afunda-se nas distritais. O desaparecimento parece inevitável e interessa. Interessa porque devido ao Euro 2004 há um estádio novo no Algarve e interessa ao poder político que alguém o ocupe e justifique o investimento. Um investimento feito num estádio a meio da autoestrada, longe da cidade e das pessoas.

Há pressão para que os clubes algarvios acabem e se fundam num só. Surge o Algarve United, com investimento estrangeiro. Quer-se à força um clube que represente a região. Mas o futebol tem tanto de podre como de fantástico. Os adeptos do Farense – com enorme destaque para a sua claque – dizem não. Não se juntam a ninguém, não mudam de emblema nem de clube. Há uma década eram o terror dos grandes e de repente têm de começar do zero.

Lembro-me de, num daqueles fins-de-semana para visitar a família e os amigos, ver o plantel sénior do Farense a festejar junto aos bares a conquista da II Distrital. Pelo Tiago, que entretanto tinha emigrado e por várias memórias, vou a um jogo da I Distrital com os adeptos do Farense como forasteiros.

Na entrada da equipa, canta-se o hino à capela, o mesmo que eu ouvia no infantário ou que o Tiago metia na aparelhagem dos pais, na entrada dos subbuteos dele. Aquilo emocionou-me. Resistir era vencer.

A pouco e pouco, o clube renasce das cinzas. As pessoas voltam ao estádio e há faixas pela cidade. “És de Faro, és Farense”. Em 2012/2013, o clube sobe à segunda divisão, numa tarde de sol contra a UD Leiria, onde vi um adepto do Farense despejar uma cerveja em cima do fiscal de linha que anulou dois ou três golos antes do 2-1 que deu a subida.

Em 2016 nova descida (com o meu clube tristemente metido) e subida no ano imediatamente a seguir. O clube está vivo (imagino vários miúdos como eu, culpados por serem Benfica em Faro), o São Luís é a sua casa e o estádio que está na autoestrada não representa nada. O Farense é o Farense e não se quer unir a outros clubes algarvios, quer antes dar 4-1 ao Olhanense e ocupar o lugar que tanta mística lhe deu.

2019/2020 prometia desde o início. Fabrício e Ryan Gauld guiavam um Farense com várias vitórias sofridas (como as tardes para evitar a descida nos anos 90) e tudo isto devia ter sido culminado numa tarde de sol no São Luís, com golos, choro, invasão de campo e o hino do Farense a tocar pela baixa e pela madrugada na rua do Crime. A cidade e os seus adeptos – sobretudo aqueles que nunca o abandonaram na pior fase – merecem.

O campeonato português ganha uma equipa histórica e recupera um estádio à antiga. Os três grandes ganham uma deslocação terrível, com alguma probabilidade vou ser mal tratado quando passar um fim-de-semana em Faro, mas vou mandar mensagens ao Tiago a perguntar se o plantel está em forma antes de receberem Porto e Sporting.

O vírus cortou o campeonato, assinou a subida, mas, para já, parou a festa. Os farenses terão que aguentar a festa e os abraços, mas isso não será nada para quem viu a glória, abateu gigantes e esteve à beira do fim. Para quem fez da resistência uma forma de vida. Agora, como diz o hino, “nunca mais murchará a semente/Do arrojo, da fama e da glória”.

(este texto que, repito, não tenho habilitações para o escrever, é obviamente dedicado ao Tiago Palma, com quem vou beber uma cerveja e, quem sabe, jogar subbuteo quando isto acabar).