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Foi voltar a ser criança e ver tudo o que há de bom no futebol: Lá em Casa Mando Eu despede-se de Iker "Fuera" Casillas

Catarina Pereira despede-se de Iker Casillas, um ídolo que surpreendeu tudo e todos no FC Porto: "Espero que saiba que marcou a nossa baliza, o nosso clube, a nossa cidade e o nosso coração"

Carlos Rodrigues

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Não há muita gente que tenha um guarda-redes como ídolo. Suponho que grande parte da explicação possa passar pela altura em que, normalmente, “criamos” os nossos ídolos: a infância. Quando somos pequenos, o futebol resume-se muito aos golos, às fintas, às grandes jogadas. Bem, quando somos grandes também é basicamente isso, mas vocês perceberam onde é que eu ia.

Um guarda-redes não marca golos, raramente faz fintas (e, quando faz, não devia!) ou protagoniza grandes jogadas (pelo menos, antes da era Neuer). Está na baliza, de preferência quietinho (mais uma vez, recordo que eu sou antiga) e, se for bom, de vez em quando saca uma daquelas defesas de que só nos esquecemos no golo a seguir. O golo, quase sempre o golo.

Eu, no entanto, tive um guarda-redes como ídolo. Chama-se Vítor Baía e julgo não ser preciso explicar porquê. Cresci com o melhor na baliza e tornei-me bastante exigente com aquele lugar. Tive algumas desilusões, um período de estabilidade e, depois, sem saber muito bem como, tive Iker Casillas.

Lembrar a grandeza de Iker Casillas é muito fácil: basta olhar para os títulos. Sempre foi, aliás, o que aconselhei a quem me perguntava pelo ídolo Baía. Quando um guarda-redes ganha mesmo muito, até para uma criança é fácil de perceber porquê.

Miguel Vidal

Mas Iker chegou cá noutro patamar. Não eram só os títulos, era o estatuto. Foram muitos anos na baliza de um dos maiores clubes do mundo e na seleção que vai marcar toda uma geração. Aliás, sempre que penso nisto, ainda parece inacreditável como veio cá parar.

Iker Casillas no Futebol Clube de Porto. A grandeza, os títulos, o estatuto. As balizas a encolher perante ele, aquele “FUERA!” que ecoava nas noites frias do Dragão, o menino nervoso que torcia e encorajava os colegas até ao fim, o senhor cheio de histórias para contar que festejava aquela vitória num domingo qualquer no meio do nada como se fosse a mais importante da sua carreira.

E Iker Casillas na cidade do Porto. Na Foz, na praia, nos passeios de bicicleta, ao lado dos miúdos da Ribeira na água. O marido, o pai, um homem como outro qualquer. O homem, que nos pregou um enorme susto, e que acabou prematuramente com o jogador. Uma maldade, sair assim, sem uma despedida como devia ser. Mas uma dádiva, ficar por cá.

O momento em que Sérgio Conceição e Danilo chamaram e esperaram por Iker Casillas para receber a Taça de Portugal foi, para mim, o mais bonito do ano. Ganhar ao Benfica é giro (várias vezes, até), ser campeão é espetacular, mas, quando os jogos foram menos bem jogados, o futebol parou e as bancadas se despiram de adeptos, tinha de haver algo superior a isto tudo – e esse algo foi o Futebol Clube do Porto.

O meu clube é feito de momentos assim e é feito de homens e jogadores como Iker Casillas: vencedores, lutadores, com valores. Rimou tudo, mas foi sem querer. E vê-lo ali, ao lado do ex-treinador e dos ex-colegas, foi demasiado emocionante para quem anda nisto só pela pura paixão de adepta. Foi um golo, um dos melhores golos que eu já vi. Foi voltar a ser criança e ver tudo o que há de bom no futebol. E foi o adeus a um ídolo, que espero que saiba que marcou a nossa baliza, o nosso clube, a nossa cidade e o nosso coração.

Adeus Iker, volta sempre. És um de nós.

E muchas gracias.

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Está no Porto há três anos e passeia-se na cidade como se estivesse há 37, a idade que tem. Iker Casillas diz que a exigência de Sérgio Conceição só lhe faz bem e que sempre pede uma coisa a quem joga com ele: não lhe olhem para o passado, nem para o bilhete de identidade