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Lá Em Casa Mando Eu

“O Cavani está quase a chegar, faltam detalhes”, disse Jesus ao vizinho, antes de mandar os três Tavares para a B (Lá Em Casa Mando Eu)

Lá em Casa Mando Eu imaginou a primeira semana de treinos de Jorge Jesus no Seixal. Há apresentações, despromoções, despedimentos e alguns problemas de tradução. Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção

ANTÓNIO COTRIM

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Segunda-feira
Jorge Jesus sai de casa e surpreende-se de imediato: hoje, não há motos e helicópteros a segui-lo. Parece que a comunicação social se esqueceu.

– Ou então estão à minha espera no Seixali.

Pois, deve ser isso. Há, entretanto, um vizinho que lhe pergunta:

– Então mister, vem aí o Cavani?
– Está quase a chigare!, responde, animado e entusiasmado por finalmente voltar ao clube do seu coração, ao clube que sempre o quis, enfim, ao Benfica.

Quando chega ao centro de treinos, só lá está um alemão e, portanto, o único que chega a horas.

– Como é que te chamas?
– Julian Weigl.
– Para mim vais ser o Júlio.

Está feito o primeiro contacto com o plantel, muito proveitoso. Quando chega finalmente ao treino, grita para todos:

– Quem é que daqui se chama Tavares?
– Eu!
– Eu!
– Eu!
– Muito bem, podem ir todos para a equipa B.

Alguns dos Tavares arrependeram-se, mas quando o dia começou ainda tinham aquela esperança de darem um bom lateral-esquerdo.

Mal Jesus apita para os primeiros exercícios, pergunta ao adjunto:

– Quem é aquele ali?
– Mister, aquele é o Ferro. Uma grande esperança da formação do Benfica. Sai muito bem a jogar.
–Sai tão bem a jogari que vai já sair daqui para jogari no Benfica de Castelo Branco”.

Mais uma baixa no plantel e, enquanto muitos já perceberam que têm de mostrar desde já serviço, nova pergunta ao adjunto:

– E aquele ali na frente que acha que é grande jogadori?
– Aquele é o Jota.
– Jota? E tens a certeza que não é Tavares?
– Não, mister. É João Pedro Neves Filipe. Nada de Tavares.
– Ouvi Tavares. Vai para a B.

O treino prossegue, até porque alguns já perceberam ao que Jesus vem: Dyego Sousa, por exemplo, abandona o relvado antes de tocar sequer na bola e vai ligar ao empresário a pedir para voltar para a China.

Corre tudo dentro do esperado e Jorge Jesus volta depois para casa, incrivelmente sem motos e helicópteros a segui-lo.

– Devem ter ficado à minha espera no Seixali.

Terça-feira
Jorge Jesus sai de casa e continua estupefacto: parece que hoje também não há motos e helicópteros a segui-lo.

– Lá estão eles à minha espera no Seixali.

O vizinho vem, entretanto, à porta:

– Então mister, vem aí o Cavani?
– Está quase a chigare!, responde, sem querer entrar nos detalhes que faltam para a concretização da transferência do ano.

Quando chega ao centro de treinos, só lá está o Júlio, que hoje deu boleia a Taarabt.

– Parece Tavares, mas é Taarabt. Eu percebi logo a diferença, desabafa Jesus com o adjunto.

Florentino também chega, a correr desenfreadamente, super aplicado em conseguir finalmente mostrar-se ao treinador quando os outros ainda nem sequer lá estão. Tinha-se esquecido que o treinador já não é Bruno Lage, já não era preciso tanto, basta jogar bem.

Quando o treino começa, Jesus grita para todos:
– Quem é que daqui se chama Tavares?

Silêncio absoluto. O treino pode seguir. Dois minutos depois, Jesus pergunta ao adjunto:

– Quem é aquele ali?
– Mister, aquele é o Helton Leite. O presidente contratou-o antes de chegarmos. Era do Boavista.
– Ah, ganda engenharia financeira! Vai dizer-lhe para não comprari casa que vai já voltari para o Bessa.

O treino continua, até nova pergunta para o adjunto:
– E aquele ali quem é?
– Oh mister, aquele é o Pizzi! O nosso melhor jogador! Viu as estatísticas dele na época passada?
– AH! AH! AH! O nosso melhor jogadori! Estás despedido, adjunto.

Mais umas trocas de bola e Jorge Jesus pode voltar para casa, inacreditavelmente sem motos e helicópteros a segui-lo.

– Espero que durmam bem no Seixali.

Quarta-feira

Não há motos, não há helicópteros, vocês já perceberam. Mas há vizinho:

– Então mister, vem aí o Cavani?
– Está quase a chigare homem, já lhe disse!, responde, já ligeiramente irritado, um 3 na escala de 0 a golo do Kelvin.

Quando chega ao centro de treinos, só lá está o Júlio, Taarabt e André Almeida, que tinha sido impedido de entrar nos outros dois dias porque Jorge Jesus confundiu-o com alguém da formação.

O treino decorre normalmente e Jorge Jesus convence Vinícius que, com ele a treiná-lo, vai ser uma espécie de Ronaldo Fenómeno, Cristiano Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, mas melhor.

Entretanto, pergunta-lhe:
– Já agora, quem é aquele ali?
– Aquele ali é o Seferovic, mister, foi o melhor marcador da Liga há dois anos e era o titular de Bruno Lage quando eu cheguei e ainda mais uns meses.
– AH! AH! AH! Titulari. Estás despedido, Vinícius.
– Oh mister, mas eu não ia ser uma espécie de Ronaldo Fenómeno, Cristiano Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, mas melhor?
– Quem? Não conheço. Os melhoris do mundo foram todos treinados por mim: Gabigol, Óscar Cardozo, Alan Kardec.

Fim do treino, não há motos nem helicópteros, siga.

Quinta-feira

Sem motos, sem helicópteros, nada de novo aqui. E o mesmo vizinho, claro:

– Então mister, vem aí o Cavani?
– Está quase a chigare, “)$/$%(“=! Faltam uns detalhes, não me fale mais nisso!, responde, a subir na escala para um sólido 5 (não confundir com os 5-0 no Dragão).

Quando chega ao centro de treinos, só lá está o Júlio, Taarabt, André Almeida e Rúben Dias, que passou a noite no Seixal a estudar aquilo da “linha defensiva”, uma inovação em relação aos últimos dois treinadores do Benfica.

– Jesus deve ter trazido isto do Brasil, aprende-se muito lá fora”, pensa o jovem central.

Durante o treino, Gabriel é chamado por Jesus à parte. Ninguém percebe o que foi dito – inclusivamente o próprio Gabriel. Samaris vai lá traduzir.

Jesus aproveita e pergunta-lhe:

– Quem é aquele ali?
– Aquele é o Chiquinho, mister. Tem potencial, tem de ser é mais bem aproveitado.
– Aproveita e diz-lhe que passa a ser o Chico. F$%-se, ‘Chiquinho’... Lembram-se de cada uma. Olha, Samaris, davas um bom adjunto. Se não tivesse já preenchido o lugar de ex-jogador que só dá cacete com o Luisão, ias já.

Treino acaba, volta para casa, não há motos nem helicópteros, tudo o que vocês já sabem.

Sexta-feira:

– O CAVANI ESTÁ A CHIGARE! ESTÁ MESMO QUASE! SÓ FALTAM UNS DETALHES!, grita, ao sair de casa, já de joelhos, mas o vizinho até tinha ido de férias.

Não há treino porque são apresentados Jan Vertonghen (“fica Tavares que não temos nenhum”), Luca Waldschmidt (“Lucas”) e Everton Cebolinha.

Tudo muito formal, até Jesus entrar e querer logo ver o que valem mesmo:

– Vocês os três, façam um quadrado!

Ninguém se riu. Chegaram as motos e os helicópteros.

Jesus está de volta, há muita excitação e já vimos todos este filme.

Medo e delírio no Seixal: vai correr tudo bem, a não ser que a trip de mescalina acabe mal (por Um Azar do Kralj)

As dúvidas de Vasco Mendonça: se o clube é dos sócios, acho que perguntar não ofende: será por tudo isto que o presidente quase não abriu a boca durante estas últimas semanas? A que se deve a ausência de qualquer avaliação sobre a época mais desastrosa da sua presidência? Será o novo projecto de Luís Filipe Vieira uma combinação de investimentos milionários aliada à expectativa de que a memória de peixe do adepto resulte na mãe de todas as épocas desportivas, um ano memorável para fazer esquecer a incompetência revelada em todas as épocas perdidas?